sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Terror noturno



O que eu sinto? 
O que me toca? 
Talvez um certo instinto,
um medo que me corta.

Um abrupto pesar,
porém intenso medo.
Não consigo respirar
nem guardar segredo.

Tudo me corrói,
me alucina.
Medo que destrói,
terror que me atina.

Não tenho coisas bonitas pra contar,
por mais que as tenha.
É possível me sabotar;
não há paciência que me detenha.

Meu pavor acordaria os mortos,
meu grito ecoaria nos confins.
Deterioraria os corpos,
os anjos fariam motins.

Já estou acostumado.
Sonhos, nem tenho mais;
dessa dose estou viciado,
pavor ao invés de paz.

O vento me confunde lá fora:
parece passos, traços, anúncio.
Ouço coisas... ou está silêncio?
De lugar nenhum quero ir embora.

Sim! Quero fugir, mas de quê?
De todos, do meu próprio ser?
Eu não estaria livre, certamente;
a solução seria não nascer.

Depois do breve espetáculo,
uma mão invisível surge.
Me põe num receptáculo
e a passageira paz urge.

Nesse eterno ciclo resido,
nesse breve embate sigo.
Ora apelo ao diazepina,
ora me vejo eu comigo.

Não há luz no fim do túnel,
não há palavra nem sentido.
Há o gosto amargo do fel
e a hora do meu eu inimigo.

sábado, 27 de maio de 2023

Ferro de Madeira

 


“Para mim não faz diferença que o tipo de homem mais míope, talvez mais honesto, certamente mais ruidoso que hoje existe, nossos caros socialistas, pense, espere, sonhe, principalmente grite e escreva mais ou menos o contrário; pois o seu lema para o futuro, SOCIEDADE LIVRE, já pode ser lido em todos os muros e mesas. Sociedade livre? Sim! Sim! Mas sabem os senhores com o que ela é feita? Com FERRO DE MADEIRA! Com o famoso ferro de madeira! E nem sequer de madeira…”. (Nietzsche, A gaia ciência, §356, trad. Paulo César de Souza, São Paulo, Companhia das letras, 2001).

 

O termo "FERRO DE MADEIRA" foi a expressão usada por Nietzsche para se referir a algo que parece sólido, forte e confiável, mas que na verdade é fraco e pode se desfazer facilmente. Em outras obras ele usa o termo "pés de barro" - como na Gaia Ciência e, salvo engano, no Crepúsculo dos Ídolos - como mesmo sentido. 
No entanto, no trecho citado acima, Nietzsche usa a expressão para criticar a noção de sociedade livre, afirmando que ela é feita de uma falsa liberdade, ou seja, de uma ilusão que se desfaz facilmente. (Logo, percebe-se que não há liberdade alguma). 
A leitura das obras de Nietzsche é complexa e toca em questões profundas. Para compreender suas ideias, é necessário entender o contexto em que foram escritas e compreender suas críticas feitas em sua época. Apesar de ser um pensamento provocador e chocante, é fundamentado e tem um certo fundo de verdade. Nietzsche escreveu seus textos de maturidade enquanto estava doente, mas sua lucidez é notável e cabível nos dias atuais. Suas críticas podem deixar o leitor mais revoltado, seja com ele ou com seus algozes. Em resumo, CUIDADO! Nietzsche é um filósofo que pode machucar.

Rede da Vontade


 

A vontade move toda uma rede interconectada que também nos impulsiona. Cada nó representa uma singularidade ligada a outras através de conexões simbolizando interações e afetos mútuos. Essas conexões podem ser de dependência, competição, cooperação, entre outras.


A Rede da Vontade está constantemente em fluxo, com os nós se movendo e se rearranjando à medida que os desejos e impulsos singulares são afetados. Os nós podem representar desejos específicos, como a fome, a sede, o desejo sexual, a busca por poder ou qualquer outra motivação que impulsiona os seres vivos.

Ademais, a Rede de Vontade é caracterizada pela cegueira e irracionalidade. Os nós e as conexões não possuem uma compreensão consciente das implicações de suas ações. Eles simplesmente respondem aos impulsos e desejos que emergem, buscando atender às suas necessidades imediatas, sem racionalizar.

Essa Rede faz emergir comportamentos tanto conflituosos como afetivos. Por um lado, os nós singulares competem por recursos, buscam vantagens e podem afetar fortemente a outros para atingir seus objetivos; por outro lado, as conexões na rede permitem formas de cooperação e interdependência. Os conflitos refletem a cegueira e irracionalidade subjacentes à vontade, e também podem levar à busca de objetivos comuns. Essa cooperação resulta em uma estrutura mais complexa da rede da vontade, com nós especializados e troca de recursos entre eles.

Assim como na Teoria da Complexidade, a Rede da Vontade é dinâmica e adaptativa. Os nós e as conexões estão em constante mudança, respondendo às influências do ambiente e às interações singulares entre si. Essa dinâmica pode levar o emergir de padrões complexos, onde ações individuais se combinam para formar fenômenos coletivos imprevisíveis, o caos - não confundir com desordem ou aleatoriedade.

Portanto, a Rede da Vontade, como uma força cega e irracional, destaca a natureza complexa e imprevisível dos impulsos e desejos que a tudo co-move. Através das conexões e seus afetos, emergem realidades tumultuadas, onde singularidades buscam satisfazer seus desejos de forma inconsciente e sem a noção de uma finalidade ou do todo absoluto. 

@silumatias

quinta-feira, 30 de março de 2023

Saudade





A saudade é sofrimento,
sentimento bem amargo,
De um súbito afastamento,
ou apenas um embargo.

A saudade é um paradoxo,
um misto de dor e alegria,
nos faz lembrar do que foi vivido,
e daquele que se foi um dia.

É um sentimento complexo,
que mexe com nossa emoção,
às vezes traz alívio,
outras, solidão.

Embora haja sofrimento,
há beleza na saudade,
nos lembra do que é importante,
e nos faz buscar a felicidade.

Então, abrace a saudade,
e deixe-a te guiar,
pois ela é parte da vida,
e pode nos ajudar a continuar.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Porre 2023: Escolas de Samba, meu Carnaval


"Nos confins do submundo onde não existe inverno/ Bandoleiro sem estrada pediu abrigo eterno/ Atiçou o cão cá-trás, fez furdunço/ E Satanás expulsou ele do Inferno
O jagunço implorou lugar no Céu/ Toda santaria se fez de bedel/ Cabra-macho excomungado de tocaia no balão/ Nem rogando a Padim Ciço ele teve salvação [...] Eis o destino do valente Lampião"


Parabéns GRES Imperatriz Leopoldinense! 🇳🇬🏆🎉🎊 .

Festa em Ramos, Olaria e adjacências. Depois do jejum de 22 anos a Imperatriz volta ao topo. Sempre luxuosa, exuberante, pompas dignas de uma imperatriz realmente.

Que Samba, que Enredo! Que desfile! Fantasias e alegorias impecáveis! Comissão de frente uma das mais belas também (embora este ano veio nivelado por baixo heim. Quase nenhuma apresentou-se bem neste quesito - além de quase todos os outros - devido às muitas notas com perdas de 2 décimos em grande parte).

O carnavalesco Leandro Vieira é outro gigante. Ganhando vários títulos com trabalhos riquíssimos e com uma assinatura particular. Nada muito tecnológico, futurista, mas carnaval à moda antiga. Muito luxo e muita história do Brasil. 

Além, também, do samba muito bem composto, muito bem gostoso de se ouvir e com uma riqueza de linguagem, de cultura nordestina, de cordel, de saber popular, que, confesso, achei muito criativo e ao mesmo tempo legal de se cantar: “O aperreio do cabra que o Excomungado tratou com má-querença e o Santíssimo não deu guarida”.

Ainda sobre composições, senti falta de boas assim em outras Escolas. Sim, estavam legais, mas deixaram a desejar. Venho percebendo isso há muito tempo e, inclusive, até Neguinho da Beija-Flor já comentou em entrevista sobre estas questões em respeito às composições e grupos de compositores. Sobre isso, eu já digo que o que acontece é "samba de fôrma", o próprio meio do samba diz ser "samba de escritório". Talvez, segundo alguns críticos, a causa das quedas de qualidade na produção, nas composições, se dê por este motivo: sambas feitos em formas já prontas - engessando a criatividade. Só que partindo disso, não sei se pode ser diferente, o fato de haver escritórios, porque, este método ou forma de composição tomou conta já, realmente, e não sei se há composições sem que sejam advindas destes escritórios - e confesso que algumas delas se destacam sim. Raro, mas sai umas coisas legais. Portanto, com escritório ou não, a Imperatriz se destacou estratosfericamente das demais co-irmãs no quesito Samba de Enredo.

Mas... Vamos mudar aqui o rumo da prosa. Como são as coisas não é? Vou falar a vocês que a Viradouro (que veio espetacular) perdeu por 1 décimo heim. E eu sei bem onde foi. Vamos lá... 

Se a Bateria do Mestre Ciça - na Viradouro - não perde pontos consideráveis este ano... hummm sei não heim. Este 1 décimo ia sumir facilmente e a história poderia ser outra, com o título parando do outro lado da baía. Mas, o f*** é que o Mestre Ciça perde décimos todos os anos.

Daí vocês podem se perguntar: "Ué? Então o Ciça mereceu perder os pontos". Olha... Pera aí: Sim, o Ciça sempre perde ponto dos jurados. Fato. Como eu havia dito acima. "Mas aí! Prova-se que o cara não é bom" - vocês podem reforçar vossos argumentos. Ok. 

Só que lhes digo, pode confiar, e o mundo do samba também, "O Ciça não é bom. Ele é ótimo!" É um mestre consagrado, um monstro! Sua bateria passa sempre muito limpa. As vezes sim tem um deslize, mas é nota a ser descartada. Porém, (eis um dos "badados do carnaval") rola um papo nos bastidores que ele aborreceu a Liga, foi malcriado com eles e seu castigo eterno ficou sendo este: você nunca será nota 40 (ou as notas 10 dos 4 jurados).

Agora, infelizmente, não se tem como saber a fé dos jurados, quando se trata de Ciça, porque suas justificativas são um tanto exageradas. As deste ano, ninguém sabe ainda, porque as justificativas não saíram. Mas, por exemplo, as últimas que temos (dos carnavais passados), são tão esquisitas que, enfim… a de 2022 foi assim, "A acentuação rítmica das caixas com os seus acentos característicos que configuram o “swing” peculiar da bateria ficaram sem o referido destaque” - Julgou Rafael Barros Castro. 

Isso foi uma firula para tirar décimo. Esta situação nas caixas da Viradouro é algo muito difícil acontecer e, quem ouve e curte bateria sabe que não foi bem assim que aconteceu. Algumas escolas passaram cadenciadamente excedidas, bem "retas", sem muito destaque para suas acentuações e "swing", mas não perderam pontos. E cá entre nós: a maioria das baterias nivelaram-se de uma forma tão alta, que é bem raro elas virem sem "swing". Pode acontecer, mas é difícil e não foi o caso da Viradouro no carnaval passado - e creio deste ano também. 

No caso do Ciça, o julgamento citado acima, só aquele jurado viu aquilo. O outro disse ter rolado desencontro entre carro de som e a bateria. E assim vão tirando décimos do Ciça - além de outras justificativas sem cabimento de outros carnavais.

Com estes "tira-décimos" todos os anos, o Mestre Ciça fica comprometido e acaba ameaçando, inclusive, um carnaval de uma Escola que às vezes vem exuberante, apoteótico, com pegada para ser campeão. Complicado isso e, infelizmente, hoje, (mais uma vez) a bateria do Ciça foi penalizada e de fato afastou a possibilidade de título à Escola de Niterói. 

Olha, não quero dizer nada de que foi injusto, que tenha sido errado, nem nenhum julgamento, nem nada. Apenas relatar uma história e um fato curioso. Porque, não quero também ser injusto com a magnífica Imperatriz  Leopoldinense (título muito merecido). Samba gostosinho, luxuosa, alegre, irreverente, histórica, legitimamente brasileira - sobre o Enredo do nordeste, com a figura de ninguém menos que Lampião.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

C A R N A V A L

 

Foto do desfile da GRES Beija-Flor de Nilópolis, 1989.

 

“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música” ~ Friedrich Nietzsche.


Eu li e vi ontem no UOL uma matéria numa espécie de manual (ou sei lá o que posso dizer daquilo), ou algo policialesco mesmo, do que NÃO PODE e do que PODE usar no C A R N A V A L. "Carnaval" com letras em caixa alta e separadamente para reforçar-nos o significado disso. Por que, o que querem pessoas ou grupos com o Carnaval? Algo que é do povo, feito pela diversidade do povo, por todos e para todos? Qual o intuito pegar uma festa que é popular, múltipla, e querer tornar sui generis?

Sei la, carnaval é o avesso, o profano, "o que não pode", a descarga mental e completa manifestação corporal (tanto é que a nudez, ou a quase nudez, é muito comum), as expressões musicais, a irreverência, o humor e tudo mais que nos faça desligar do cotidiano, da nossa vida desmascarada pelo resto dos 360 dias do ano - e no carnaval a gente usa as máscaras. 

Ou, filosoficamente às avessas, os 360 dias a gente vive de máscara para uma vida relativamente chata, corrida, cíclica e rotineira; e quando no Carnaval, a gente tira essa máscara e liberamos desejos contidos e pulsões retidas que, por meio da arte, da criatividade, extravasamos: homenageamos o que na rotina achamos belo, ou digno, e que não alcançaríamos no dia-a-dia; louvamos o que nos é dito o ano inteiro que é profano, baixo e imoral - louvamos desde o lixo até o resto do luxo (como diz a faixa da foto do desfile da Beija-Flor); tornamos o que é dito da loucura a nossa régua medidora; adotamos imagens daquilo que não somos, mas que queríamos ser - ao menos um dia; produzimos uma bela cópia do que os grandes artistas (famosos e anônimos) fazem nas avenidas, ou melhor, nos Sambódromos, desfilando oficialmente por uma Escola de Samba, mas o fazemos de modo caseiro, a nossa maneira. Carnaval é isso! Nos fantasiamos e saímos às ruas em busca das notas 10 em todos os quesitos. Portanto, rendemos e louvamos à diversidade, ao múltiplo e à ímpar e peculiar característica que possuimos: - repito - criatividade, senso de humor e irreverência.

E o que nos dizem ser o certo, o moral, o sagrado, o justo, pelos 360 dias do ano, nós - no carnaval - debochamos, fazemos críticas humorísticas, piadas, paródias, fantasias cômicas, beirando o ridículo, justamente por que isso é C A R N A V A L - a festa da carne, do humano ele mesmo, do indivíduo escondido lá dentro de si mesmo pelo resto dos 360 dias. 

Fora isso, esta imposição politicamente correta - esta "censura do bem" -, não é carnaval. Não é o cidadão que espera, muitas vezes, 360 dias para a chegada do tão sonhado Carnaval. O que há  agora e mais forte a cada ano, é uma ditadura do que se deve ser ou não ser; é querer controlar a vida alheia em prol de sua pequena vontade utópica, birra de criança, por fim, é o ressentimento das pessoas pobres de espírito.

***

Abaixo, uma considerável crítica ao policiamento às irreverências e loucuras alheias no carnaval:

https://gilvanmelo.blogspot.com/2023/02/eduardo-affonso-fantasia-identitaria.html?spref=fb&fbclid=IwAR25Fxtdjc6HvBFZIWEsc5-rCw0XNXEIWiu7gPffvBbAv2T5A9sVljdYuSw&m=1

sábado, 18 de fevereiro de 2023

Desejo


Imagem: Paul Husband


O mundo não está "nem aí" para nós. Seres humanos, nós. Ele não está "nem aí" também para os demais animais. Sabe por quê? Porque Ele não existe.

Portanto, não há conspiração. Não há sorte ou revés. Nem há corrupção ou qualquer viés. Não há guerra ou paz; fiel ou sagaz.


Há Desejo…


O que há somos nós. De várias gerações, adaptações. Singulares, representamos um mundo sob os nossos olhares.


Desejo…


Tudo o que há é edificação. Tudo o que é, é pura representação. O mundo externo é o eu interno e o eu interno é pulsão.


Desejo…


Porventura, chegamos e, da mesma forma, partimos. Antes, não existíamos; agora, de repente, sumimos. Ademais, outras coisas surgirão, mas nunca porque mereceram. Nada explica também por que pereceram. 


Desejo…


Diante disso tudo, o mundo não se importa. Por nós, Ele não rezará; nem flores nos dará; muito menos irá chorar. Contudo, vejam! Com a nossa partida, também o mundo. Sem nós, não há Ele. Sem Ele, não há nós; nem passado, presente, nem o pós. Por isso Ele não existe e sim nós.


Desejo…


Somente o agora, conosco presente, potente, é que certeza temos. Temos isso porque fazemos, agimos e sofremos.


O sofrimento mede nossa existência. Em nosso íntimo sussurra a carência; 

grita o quanto estamos vivos. Joga para longe nossa sapiência. Com o sofrer, saber viver - e o que é viver


Desejo…


Antes do saber, sentimos: tesão, potência, vontade.

Uma força de verdade.

Algo que pulsa nosso coração.


Uma única força afim

Onipotente, operante, latente

Sem início, meio ou fim 

Que nos abarca plenamente 


Desejo…

ATUALIZAÇÃO BETA v.5.7.0: AGORA MEUS ELETRODOMÉSTICOS SÃO PÓS-ESTRUTURALISTAS

Dizem, os pós-estruturalistas , que a linguagem constrói a realidade. Isso é ótimo, exceto nos dias em que eu preferiria que minha realidade...