sábado, 14 de março de 2026

Deixaram elus chegar? Fudeu!



Introdução
Existe um bordão imortal da torcida do Flamengo: "Deixou chegar, fudeu!". Para os rubro-negros, é a soberba em forma de um axioma — o Mengão, vindo aos trancos e barrancos, tropeçando em suas próprias pernas ao longo do campeonato, de repente acorda na final e aí, meu caro, não tem pra ninguém. Chegou à decisão? Adversários chorando e flamenguistas comemorando. Título clássico da Gávea, onde a superação vira massacre.

Transponhamos essa pérola futebolística para o circo sócio-político contemporâneo, e o que temos? Uma metáfora de fazer inveja a qualquer cronista esportivo. Nas últimas décadas, alguns movimentos sociais e alguns ativistas das causas minoritárias (os “greenpeacers” ou fundamentalistas ideológicos) vêm brotando como erva daninha em todos os cantos institucionais: universidades, arte, cultura, mídia, big techs, sistema político e, claro, o sagrado Judiciário. Começaram como militância barulhenta nas redes sociais, ganharam as ruas, infiltraram-se na cultura como um vírus sorrateiro e, passo a passo, conquistaram o poder de ditar regras. Deixaram chegar, crescer e se alastrar. Agora, no topo, fudeu!

É uma cultura incutida a ferro e fogo na cabeça do brasileiro — e não só dele, espalhando tentáculos mundo afora — a cultura woke. A sociedade civil, os poderes públicos, todos dançando um malabarismo patético para escapar dos julgamentos desses novos "greenpeacers" de plantão, prontos para boicotar, cancelar ou processar ao menor sinal de dissenso. A título de ilustração deliciosamente irônica, vejam as gigantes globais: Disney, Netflix, Nike, Apple, Google e o império de Hollywood, com sua máquina cinematográfica onipotente. Passaram a engolir a agenda "woke" — diversidade forçada, narrativas identitárias em cada frame, neologismos e pronomes inventados obrigatórios nos créditos. Para os devotos, é o pináculo da evolução moral, o paraíso da inclusão - O PROGRESSO SÓCIO-CULTURAL. Para os dotados de senso crítico, é só uma “hype” curioso: ativismo cultural metamorfoseado em política institucional, dobrando joelhos ante as vontades histéricas de uma minoria barulhenta que, enfim, descobriu como transformar birra em lei. Deixou chegar, Fudeu!

Quando opinião política virou teste de caráter.
O Brasil descobriu recentemente um método revolucionário para avaliar pessoas e classificar seus status. Durante séculos, insistimos em critérios antiquados: competência, caráter, honestidade, grandes feitos etc. Felizmente progredimos - olha que legal! Agora, basta uma pergunta simples e eficiente, que não precisa pensar muito em sua resposta: “Você votou em quem?”.

Vejamos. Se um engenheiro brilhante votou em Jair, está claro que não presta. Provavelmente suas pontes irão tombar, seus cálculos estarão errados e, se tiver filhos, devem ser todos fascistinhas de merda. Por outro lado, se a melhor bióloga do planeta declarou voto em Inácio ou simpatia por Ciro, também há motivos para desconfiança de suas pesquisas e descobertas - sejam elas quais forem em benefício da humanidade. Quem escolhe o candidato “errado” dificilmente saberá descobrir a cura para um problema que afeta um grupo de pessoas.

É… Atualmente, é assim que funciona o novo método científico brasileiro: substituímos a análise, tentativas e erros, investimentos financeiros, revisão dos pares, por uma coisa única e certa: alinhamento político-ideológico.

Quando tudo vira um teste ideológico.
Essa lógica woke é tão eficiente que poderia facilmente se expandir para outras áreas. Imagine a Confederação Brasileira de Judô para as Olimpíadas. Antes de avaliar quem faz mais ippons, quem detém a maior resistência e agilidade, seria prudente perguntar: você apoia a legalização da maconha? Qual sua posição sobre aborto? Você acredita que o narcotráfico é vítima do usuário? Dependendo da resposta, o atleta pode ser liberado para competir — ou condenado à exclusão do esporte por insuficiência moral. O que será dos novos ídolos? Aquele cara que nunca perdeu uma luta, ou aquele atleta que ao menos tem consciência de classes?

Eis uma atualização do sistema meritocrático, apenas com um detalhe: o mérito passou a ser “pensar exatamente como a tribo”.

O Movimento.
Essa transformação não aconteceu por acaso. Durante anos, movimentos políticos e sociais avançaram silenciosamente por universidades, meios culturais, TV, empresas e instituições públicas. Agora, ocupam posições influentes e foram desvelando instrumentos muito úteis ao longo de suas experiências: o cancelamento. No entanto, não satisfeitos com isso somente, evoluíram para à punição; agora utilizando o Estado como ferramenta de justiça pessoal.

O mecanismo é simples. Alguém diz algo supostamente ofensivo. A frase é recortada, viraliza e, em poucas horas, forma-se um tribunal digital. A sentença costuma ser rápida: demissão, ostracismo, perda de seguidores… Só que ao longo do tempo, isso escalonou para perda de cargos, de seu sustento, além de afastamento das pessoas mais próximas.

Exemplo 1: Rodrigo Bocardi, jornalista da Globo e âncora do Bom Dia São Paulo, foi acusado de racismo por militantes fundamentalistas e parou a Internet. O jornalista foi cancelado, tido como racista e teve prejuízos pessoais. Isso tudo porque Bocardi perguntou a um jovem se ele era “gandula” do clube de tênis onde ele frequentava, em uma entrevista em seu telejornal. Após o fato, o jornalista se encontrou pessoalmente com o jovem no clube e tudo ficou resolvido. O rapaz, a “vítima”, disse que não se ofendeu com a pergunta e, pelo contrário, “fiquei famoso e conheci diversas ‘gatas’ no Instagram” - brincou o jovem.

Eis o poder.
Atualmente, com as instituições estatais de poder ocupada por membros desses movimentos, você ser contra uma mera opinião pode lhe custar a liberdade, quiçá a vida: pessoas vão presas ou passam por longos processos jurídicos, perdem seus míseros dinheiros com honorários, ida e vinda de audiências - além de muito esgotamento emocional -, para provarem que, por exemplo, não houve dolo em suas declarações.

Exemplo 2: No Facebook, um indivíduo comentou sobre desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. Ele declarou que o desfile da G.R.E.S. Beija-Flor de Nilópolis estava com seu enredo emitindo fatos não condizentes com a história pregressa da África. Diante disso, lhe foi infligido racismo por milhares de usuários da rede social. Fato: não pôde afirmar que o Egito não é um país com genótipo 100% negro (subssariano). Vejam, isso, para fundamentalistas ideológicos, é crime.

A discordância deixou de ser um debate. Virou uma infração moral. Naturalmente, antes, esse “tribunal” precisava cancelar, demitir, humilhar, etc.; atualmente, ele parece um glutão: necessita de crimes.

Exemplo 3: Humor como paradigma. Ele virou um dos principais focos. Basta um comediante contar uma piada envolvendo um cadeirante, uma obesa ou um autista para surgir uma mobilização épica nas redes sociais e posteriormente no Ministério Público. Pedem retratações públicas, cancelamento de shows e, se possível, prisão preventiva do humorista — afinal, piadas podem ser altamente nocivas, muito perigosas para um coletivo invisível, porque, quem esteve presente no show, e que possuia tais características das piadas, não se ofendeu. Muitos cadeirantes, autistas, nordestinos e demais alvos do humor já declararam publicamente que gostam de serem inseridos e se sentem bem de certa forma. Isso é o que o humor proporciona. E não prisão e assassinato de reputação do humorista.

Na minha religião, Deus é o Presidente do país.
Estamos em um país onde políticos que estão envolvidos em crimes graves de corrupção e envolvimento com facções criminosas ficam impunes. E incrível! São sempre os mesmos políticos, ou os mesmos partidos, mas pasmem, são cada vez mais venerados pelos militantes e movimentos sociais. 

Aqui surge a parte mais fascinante da história. Grande parte desses fundamentalistas, promotores da moral pública, faz sua militância sentada diante de um elegante MacBook, ou de seu iPhone, digitando indignação seletiva enquanto ouve playlists repletas de músicas que descrevem, sem qualquer constrangimento, tráfico de drogas, assassinatos, latrocínios e exploração sexual. São vários os gêneros musicais contemporâneos desse cunho. Criminosos aparecem como heróis urbanos. O traficante vira protagonista épico. O assalto vira metáfora de sucesso e ostentação. A violência vira estética. E, curiosamente, isso raramente provoca campanhas exigindo prisão de narcotraficantes e seus apologistas. O estranho é que isso não incomoda, nem gera revolta.

A lógica moral contemporânea parece funcionar assim: piadas e/ou xingamentos são intoleráveis; corrupção é inexplicavelmente negada e crimes estilizados em música são expressões culturais; no assalto há uma lógica louvável; já o narcotráfico, a culpa é do usuário; e o “meu presidente nunca cometeu crime algum". Na verdade, "ele foi vítima de um golpe”.

Ah, ainda tem a dopamina!
Esse fenômeno tem nomes, mas estou confuso entre “narco cultura”, inversão de valores ou burrice mesmo. Na verdade, o nome ideal para isso se chama “vício em sinalizar virtudes”. Por exemplo, nas redes sociais, demonstrar revolta virou uma forma de capital moral - e também “bomba de dopamina”. Não é necessário resolver problemas complexos. Basta pagar de bom sujeito, bom samaritano. Cancelar um comediante e pedir sua prisão é perfeito para isso: o vídeo existe, a piada já está pronta, recorta-se o trecho, aponta o grupo lesado pela piada e a indignação já está no engajamento rendendo curtidas e um viciante prazer inenarrável.

Discutir e descortinar por que a cultura pop glorifica violência real já é bem mais complicado. Envolve mercado musical, estética cultural, questões sociais... Dá trabalho. Muito melhor, mais fácil e prazeroso atacar um humorista. Assim rio dessa própria piada com pura satisfação e livre de qualquer culpa.

Eles chegaram!
O passo seguinte é ainda mais curioso: transformar conflitos culturais em casos de polícia. Hoje não é raro ver pedidos de prisão por piadas, comentários infelizes ou agressões verbais no calor da discussão. A ironia é que muitas dessas demandas vêm de grupos que também criticam o sistema carcerário por ser punitivo demais. Há uma grupo desses fundamentalistas wokes que defende a política de desencarceramento. Alguns países que já aplicaram essa ideia estão colhendo os frutos agora. Caos: falência de estabelecimentos comerciais e de serviços, terror na vizinhança, submissão à narcotraficantes e gangues armadas se expandido. Problema financeiro real.

O ridículo.
O que dizer da ridícula declaração da professora, antropóloga, Jacqueline Muniz, especialista em segurança pública da UFF? Durante uma entrevista após a mega operação nos complexos da Penha e do Alemão no Rio de Janeiro — que deixou 121 narco traficantes mortos, além de cinco policiais em serviço —, ela afirmou que um criminoso com fuzil pode ser "facilmente neutralizado até por uma pedrada na cabeça", deixando subentendido que o armamento pesado é inútil em contextos urbanos. Militantes como essa professora propagam pelas universidades do país que policiais cumpram mandados contra facções criminosas sem um equipamento de salvaguarda. Implicitamente (?), ela estaria mandando os policiais baterem suas botas? Pois, do outro lado, sabe quem está adorando essa narrativa? O traficante, o assaltante, o "cria 157" que explode miolos nos espaços urbanos Brasil afora. Além de isso, leva a sensação de impunidade ao criminosos, incentivando-os a cometerem crimes cada vez mais absurdos contra os moradores locais e a expandirem seu terror geograficamente.

Exemplo 4: A magnífica e exemplar policial! Na lógica dos movimentos ideológicos o lugar de fala (locus de enunciação) é aquilo que encerra o assunto; dá, a quem tem autoridade, a segurança de argumentar diante da pauta em questão. Isso é comumente dito sobre aquilo que "lacra". "Fulana lacrou!". Sabe-se que as minorias devem ser ouvidas, devem ser inseridas nas questões políticas e sociais. Isso é um inegável - salvo os exageros e alucinações que se vê por aí. Diante disso, surge A policial militar. Uma mulher, uma representante da minoria, e que esteve na Operação Contenção no dia 28 de outubro de 2025. A PM Munique Busson, portanto, veio à público, em seu perfil de rede social, refutar a declaração horrível da professora da UFF e pôr uma pá de cal nessas narrativas que só favorecem os traficantes e os fortalecem de todas as formas.

Somente a polícia comentou.
Agora, sobre os cinco policiais mortos pelos "meninos", não se viu nenhum texto ou discussão nos canais convencionais de notícias. Sobre os traficantes assassinos? Justiça, direitos humanos e toda força narrativa da grande mídia, de movimentos ideológicos e políticos em prol dos criminosos. Diante dessa guerra de informações, quem perde são os cidadãos que vão e vem nesses espaços urbanos; são os pais de família, bem como os bons policiais cumprindo seu dever contra o crime organizado.

Valores invertidos.
Exemplo 5: “EUA é permitido roubar, com leis e autoridades condescendentesEm Nova Iorque, furtos em lojas aumentaram 81% e a fuga de lojas de rua reflete a decadência em áreas centrais de grandes cidades com crime liberado.” O estado da Califórnia também é um deles. Nos E.U.A, até 2000 dólares não é considerado roubo para pegar cana. Aqui no Brasil existe assaltos de rua, “saidinha de banco”, associação ao tráfico, saídas temporárias de presos de crimes hediondos, narcotraficantes e etc, além da liberação do criminoso na audiência de custódia; muitos presos por crimes hediondos e por associação ao narcotráfico com mais de dezenas de passagens pela polícia estão nas ruas cometendo crimes.

Conclusão. Temos uma equação curiosa aqui: para crimes violentos, saques e latrocínios, compreensão sociológica; para humor e desavenças pessoais, repressão penal imediata - sem qualquer alívio da lei.

Exemplo 5: Vejamos a bomba que chegou ao judiciário. Segundo a lógica dos wokes fundamentalistas então é "mais benéfico" para o criminoso matar uma mulher preta do que xingá-la racionalmente (ou seja, ser racista). Por quê? As leis anti-racismo endureceram, como a atualização da Lei 7.716/1989 via decisões do STF, que equiparam injúria racial a crimes hediondos não prescritíveis. A título de informação, em 2025, o STF decidiu que racismo não prescreve, enquanto homicídio, latrocínio ou estupro SIM — após 20 anos, um xingamento pode render prisão severa, mas um estupro à mesma vítima… Impunidade.

O que é dito aqui, é comumente visto nas redes sociais e comentários por parte de alguns partidos de esquerda e movimentos sociais. Porque, nota-se que no mesmo instante em que esses militantes gritam contra a superlotação carcerária defendendo o não-punitivismo para latrocínio ou narcotráfico, em contrapartida, pedem cadeia por "trollagem", humoristas e por matérias jornalísticas que vão de encontro aos seus ideais.

Exemplo 7: Ironicamente, repudiaram a severa punição para uma trans que estuprou e matou uma criança, merecendo "abraço fraterno" em reportagens, mas pediram a morte da Lígia Diniz, publicada na revista Quatro Cinco Um. Uma mulher que, como crítica literária, apontou alguns pontos negativos na obra “Salvar o Fogo”, de Itamar Vieira Junior. Em suma, a crítica destacou um tratamento étnico maniqueísta, além de uma narrativa didática e moralizante, que, segundo Diniz, reduz a complexidade humana e prioriza a transmissão de mensagens ideológicas em detrimento da imaginação do leitor. Bingo! - o próprio escritor criticado rebateu-nas como discurso de ódio e racista. Ou seja, racismo é crime. Logo, a crítica literária tem que ir presa.

Com efeito, quem clama detenção por críticas, xingamentos e piadas ignora a jornada prisional: adeus liberdade, emprego, reputação, “ganha pão”, família, intimidade, humanidade. A lógica agora é punir “estupidez verbal” mais que uma violência física - quiçá um estupro? Os indivíduos dos exemplos supracitados erraram? Suponhamos que sim. Fizeram comentários infelizes? Sim. Sem contar outros casos, como o da Lígia Diniz, que apenas exerceu o seu ofício: criticou. Agora, processá-los por comentários como graves ameaças ou incitações? É o Estado virando censor de afetos — que delícia de "progresso". É o tal progressismo à moda stalinista que muitos pregam e defendem por aí.

Um último parágrafo com exemplo real: o ápice irônico! Um homem biológico, a deputada trans Erika Hilton, recentemente foi eleita como representante maior dos direitos das mulheres. Inegavelmente homem. Cientificamente e biologicamente. Então, como argumento, em subterfúgio da realidade, a deputada argui invalidando a ciência: "Biologia não é autoridade" (em discurso na Câmara, 2026). (Agora a ciência não presta, né?). Negacionismo radical: fundamentalismo identitário acima de tudo, acima de todos. Isso se alastra...

Nesse ambiente, portanto, a política deixou de ser apenas disputa por políticas públicas, tipo, os problemas na educação, na geração de empregos, na segurança pública, economia… Ela virou uma revolução cultural mais ambiciosa: um grande tribunal moral permanente. Neste tribunal, reputações são compartilhadas, julgadas e condenadas em tempo real, divergências e críticas viram acusações de crime e posições políticas funcionam como certificado de virtude - algo que beira a religião. 

Aqui, todos dizem lutar pela democracia. O problema é que a democracia exige algo profundamente desconfortável: conviver com pessoas que pensam diferente de você; que se aborrecem e xingam as vezes; que tecem críticas conforme sua visão de mundo e segundo seu ofício; que entendem que o assassino de seus filhos deve estar na cadeia e não no noticiário trocando tiro com a polícia e fazendo barricadas ou incendiando ônibus a mando do traficante. Pois é… Quando uma sociedade como essa, alastrada de fundamentalistas, começa a pedir prisão por piadas enquanto canta alegremente letras que glorificam criminosos narcotraficantes ou que exaltam políticos corruptos e que desejam a morte do próximo por ser de espectro político antagônico ao seu, talvez não estejamos vivendo o progressismo como um renascimento cultural ou moral... Vive-se uma terrível ditadura. Um autoritarismo desses partidos e movimentos sociais mancomunados. Afinal, deixou chegar, fudeu!

terça-feira, 10 de março de 2026

A contenda da possibilidade com o ato


Por Venerável Juremo.

Eu estava lá, sentado no balanço da praça do meu bairro, pensando em algumas questões filosóficas. Seguia tentando entender Aristóteles enquanto uma adolescente berrava retumbantemente o nome do seu filho perto da minha orelha como um Kraken com tesão por filosofia.

Gente, eu sou um cara comum, professor de cursinho pré-vestibular que vive sonhando com enteléquias em vez de ocupar meus pensamentos com ônibus lotados, e naquele dia decidi que ia aplicar a metafísica na vida real – porque, afinal, se o Estagirita resolveu o universo com quatro causas, eu ia resolver meu trajeto até Abu Dahbi com potência e ato.

Primeiramente, a POTÊNCIA, sabe como é, né? É aquela capacidade latente de algo poder vir a ser, tipo a semente que sonha em ser árvore sem nunca ter visto um gari da Comlurb - quiçá a Fundação Parques e Jardins. Depois, o ATO é a atualização plena dessa capacidade, o estado realizado e completo, onde o que era só possível agora existe em plenitude, como uma árvore adulta (porém já como potência para vir a ser uma escrivaninha ou uma cama beliche sendo anunciada pelo "velho da Havan". Coitada!).

No dia seguinte, saí de casa potencialmente às sete, mas em ato às nove e meia. Potência pura: meu corpo como possibilidade de chegar ao trabalho, minhas pernas em potência de correr uma maratona, minha vida como capacidade de não virar estatística do OTT.

Todavia, veio o que muitos já esperam das ruas do Rio de Janeiro, né? Na esquina de uma rua próxima, dois caras de bondes rivais trocavam tiros como se fossem figurinhas da Copa do Mundo. "Ei, Juremo!", gritou o Mohamed, meu vizinho, que em potência é médico, mas em ato é olheiro do Comando. "Corre pro ato, irmão, que o devir tá feio hoje!". Eu pensei: sim, o movimento está sinistro hoje! Ele costuma atualizar em potência armada ameaçando qualquer possibilidade de eu procriar e gerar herdeiros. Corri, tropeçando em um cachorro vira-lata que, em potência, era um enorme lobo, mas em ato era só um monte de pelos caramelos.

Chegando na outra esquina, em frente à padaria, o pão em potência de ser quentinho atualizou-se em farinha no chão – tiroteio de novo, agora com a PMERJ chegando para atualizar a potência de paz em ato de caos redobrado.

Eu me joguei atrás do balcão, suando como Sócrates após a cicuta, e o padeiro, seo Dierre, um sujeito barbudo que lê Schopenhauer nas horas vagas - e até mesmo enquanto atende os clientes -, me disse: "Juremo, na verdade isso é o devir hegeliano, só que com fuzil e objetos de calibre .762! Neste cenário, a tese do tráfico encontra a antítese da polícia na síntese de buraco no peito". "Não, não!", retruquei, enquanto uma granada em potência de explodir se atualizava a treze metros: "É aristotélico: o narcotráfico em potência de paraíso virando ato de inferno, com o kinesis e todo o seu movimento guiado pelo tráfico como causa final – afinal, quem precisa de Deus quando se tem o Comando no controle, não é?".

E eu lá… Entre pães, cavacas e farinhas, rindo daquilo tudo junto com o padeiro, acabei me flagrando imaginando a minha tese de doutorado sobre enteléquia, hilemorfismo e aitia sendo interrompida por um "pah-pum… É nós, filho da puta!" que atualiza minha potência de filósofo em ato de presunto sabor pólvora.

Eis que chego na estação do metrô, lotado como a alma de um niilista em feriado religioso, um assaltante em potência de vítima da sociedade me atualizou para o ato de trouxa: "Perdeu, mané! Me dê o celular, ou o devir do teu story vira eternidade!". Expliquei pra ele, entre o pavor e o delírio, que eu era um mero professor: "Mas irmão, isso é só kinesis, i.e., é só agitação, movimentação. Tudo bem! Tudo bem… Minha potência financeira está no banco, mas em ato ela está no teu trinta e oito!". Ele riu – riu mesmo, como se eu fosse o Woody Allen – e me devolveu o celular: "Em potência sou suspeito, mas em ato sou senso de humor. Tu és engraçado, cara! Vá dar tua aula, professor".

Saí na Cinelândia pensando: será que Aristóteles previu isso? O devir teleológico do carioca é virar herói de filme de quinta categoria, florescendo não em árvore, mas em escudo humano entre gangues do narcotráfico.

No fim do dia, de volta ao meu bairro, vi minha namorada, que em potência era psiquiatra, mas em ato era chapeira do Estagira Lanches. "Juremo, você tá vivo? Que enteléquia é essa de suar frio?". Abracei-na, sentindo o ato pleno da nossa potência amorosa – até o som de fritura em meio às retumbantes pás de um helicóptero atualizarem-me em pânico.

No Rio, a metafísica não é abstração; é o devir diário onde a potência de um dia normal floresce em ato de tragédia. E eu, ansioso-TOC-hiperativo-hipertenso como sempre, só penso: se o Aristóteles visse isso, escreveria uma nova “Parva Naturalia - edição para cariocas" e ganharia outro Prêmio Nobel póstumo. Mas quem sou eu pra julgar? Amanhã o devir continua – teleológico, irônico e com farta munição.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

QUANDO O LEVIATÃ DORME, O LOBO ATACA.

Produzido por Gemini I.A.

A cada novo tiroteio, barricada ou bairro dominado, o Rio de Janeiro parece confirmar uma antiga profecia filosófica. Thomas Hobbes, pensador inglês do século XVII, afirmava em sua obra LEVIATÃ (capítulo XIII) que, quando o poder soberano se enfraquece, a sociedade retorna ao estado de natureza — uma condição em que os indivíduos, movidos pelo medo de perderem suas vidas e pelo desejo de poder, agem apenas segundo seus próprios interesses. Nessa ausência de leis e de autoridade legítima, instala-se inevitavelmente a guerra de todos contra todos. Assim, de modo quase literal, o Rio de Janeiro de hoje se assemelha ao retrato contemporâneo dessa selva hobbesiana, onde o caos substitui o contrato social e o medo volta a governar.

Hobbes viveu em meio à Guerra Civil Inglesa e viu o que acontece quando ninguém teme mais o Estado - o poder que o povo delegou a um soberano. Para o filósofo inglês, de fato, esse Estado nasce quando as pessoas renunciam a parte de sua liberdade em troca de segurança, concedendo poder absoluto a seu representante - no nosso caso, por voto popular. Mas quando o medo de facções criminosas supera o medo da lei, o pacto social pode ser declarado impotente.

Eis o que vemos: o Estado perdeu o monopólio da força e, nesse vácuo, novos senhores da guerra ocuparam-se. A título de exemplo, facções e milícias não pedem votos — impõem obediência. Não prometem justiça — vendem “proteção”. Criam-se assim microestados dentro do Estado, cada um com suas LEIS, TRIBUTOS E, COMO SANÇÃO, EXECUÇÃO. Hobbes chamaria isso de “a dissolução do contrato social”.

Para ele, a política nasce do medo da morte e não de virtude; do receio de alguém lhe atacar a qualquer momento e não a de se querer o bem ao próximo. Sendo assim, onde a lei oficial do Estado se enfraquece e já não é capaz de impor respeito por meio de suas sanções e de sua autoridade, em seu lugar emerge a lei do fuzil — a única que ainda inspira temor e obediência. O cidadão comum, entre a polícia ausente e o poder das facções presentes, volta a ser súdito do medo. Porém, de um medo aliado a um sujeito sem direitos acordados no contrato social, muito menos de DIREITOS CIVIS.

A ironia é cruel: o mesmo medo que criou o Estado agora o destrói e erege outro mais temível ainda sem legitimidade alguma. Quando o governo oficial eleito aparece só com operações espetaculares — sem escola, hospital e justiça — o povo é submetido a outros protetores que não foram eleitos e que impõem sua força, queiram ou não. 

O remédio hobbesiano é duro, mas claro: só um Estado forte (no nosso caso, de direito e democrático), pode restaurar a paz. Não o monstro que devora liberdades, mas o Estado que cumpre com o contrato, impondo e exercendo leis (por meio da vontade dos cidadãos), que ocupa seus territórios com instituições e áreas de lazer. Pois, onde o Estado se ausenta, o lobo volta a atacar; seu instinto é o poder e a glória, seus caninos são pontudos como os fuzis.

Talvez seja essa a lição amarga de Hobbes ao Rio: enquanto o poder público hesitar, as facções e milícias continuarão legislando à ferro e pólvora, jogando os corpos dos seus súditos desviados e rivais pelas ruas e praças como demonstração de poder.

E nós, pobres eleitores, acuados entre o medo extremo e a indiferença, continuaremos sonhando com um Leviatã que PROTEJA, e não aquele deglutidor de direitos; seguimos impingidos, de quando em quando, com gesto de memória muscular, exercendo nosso papel de cidadão elegendo aquele que nos promete (e que facilmente não cumpre) - refazendo o velho cíclo de Estado ausente e facções presentes.

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Apolítica


Um ato de violência política não revela apenas um crime de uma ação isolada. Ele expõe a fragilidade de nossas crenças políticas.

Depois dos tristes fatos ocorridos na política global, entre guerras, assassinatos e violências diversas, viu-se uma debandada - agora da esquerda - não por julgarem a oposição superior, mas porque descobriram que ambas as tribos partilham da mesma capacidade de desumanizar. O choque não foi contra o outro, mas contra a própria ilusão de pertencer a uma comunidade moralmente pura.

Durante muito tempo, a crença sustentava que “o nosso lado” era o da empatia, da justiça, da liberdade - enfim, do amor. Essa crença conferia identidade e sentido. Mas, ao assistir a desumanização de indivíduos não como antagonistas de ideias, mas como ser humano, a ilusão caiu. Descobriu-se que a tribo da moralidade superior também se deixa guiar pela mesma cegueira que acusa no adversário.

Esse despertar é assustador. Ele obriga a perceber que construímos parte de nós em torno de uma mentira coletiva. Pois, não é possível carregar uma narrativa por muito tempo. Alguma contradição sempre aparece. Com isso, ou mente-se para sempre - criando malabarismos para justificar-se - ou leva um susto e muda. Mas o susto carrega uma promessa: a de libertar-se da lógica tribal. Pois se nenhuma comunidade possui o monopólio da moralidade, a liberdade começa quando nos tornamos capazes de pensar sem as correntes ideológico-partidárias.

É preciso lembrar que renunciar às identidades tribais não é renunciar à política, muito menos à própria identidade. Ao contrário, é o caminho para reencontrar o espaço público como lugar plural, onde o outro não é inimigo, mas oposição - quer discorde dele, quer não. Assim sendo, nota-se que a verdadeira liberdade nasce dessa renúncia: quando o pensamento deixa de ser ditado pelo medo de trair a tribo e se abre para a condição humana comum.

Logo, se há um legado possível diante da violência, talvez seja este: a consciência de que nenhuma tribo nos salvará. Apenas nós, em nossa capacidade de agir sem ilusões de superioridade, podemos reconquistar a liberdade da mente e o sentido da política.

domingo, 17 de agosto de 2025

ATUALIZAÇÃO BETA v.5.7.0: AGORA MEUS ELETRODOMÉSTICOS SÃO PÓS-ESTRUTURALISTAS

Dizem, os pós-estruturalistas, que a linguagem constrói a realidade. Isso é ótimo, exceto nos dias em que eu preferiria que minha realidade viesse pirateada, com todas as etapas e funções desbloqueadas, atualizadas e traduzidas para o grego, enquanto eu descansava em minha mansão de frente para o mar Egeu.

De volta ao Oceano Atlântico, mais precisamente à Baía da Guanabara, é de se admirar tamanha ousadia: o pós-estruturalismo nos prega situações dignas de… se amar. Sabe-se que tem aquele cara que é viciado em leitura — e até aí, tudo bem. Mas, convenhamos… Passar 24 horas por dia agarrado às brochuras dos cânones franceses pós-modernos, como se a retina estivesse em ininterrupta sociedade com a benzoilmetilecgonina, é dose! Essas e outras situações foram constatadas, pelo menos nos últimos 4 anos, que tais indivíduos chegavam a níveis transcendentais a ponto de uma socialista-psicóloga ter que consultar a bibliografia inteira de Michel Foucault antes de postar que o verbo “vencer” é opressor demais para ser enunciado.

Se Foucault estivesse vivo, provavelmente teria um canal no YouTube e uma conta no Instagram para explicar como o poder opera por meio dos stories e reels.

O pós-estruturalismo oferece ótimas ferramentas para desvelar o mundo como ele é e escancarar toda sua complexidade fluida - e asquerosa. Imaginem só, um mundo moldado por uma pessoa que não para de tagarelar coisas aleatórias? Numa hora tu estás diante do belíssimo Estádio do Flamengo lotado por sua torcida. Daí, você se vira. Poucos segundos depois, quando você olha de volta, dá de cara com uma imponente mesquita com arquitetura da “Magic Kingdom” da Disney World; ao fundo uma imensa roda-gigante, enquanto que os líderes religiosos vestidos de Mickey Mouse, MC Pipokinha, Bumblebee e Optimus Prime, andam pra lá e pra cá pregando aos berros: Meditem! Meditem!

Partindo disso e admitindo que o discurso constrói a realidade, temo que o meu mundo tenha sido erguido sobre fundamentos linguísticos por ordens diretas do tipo “Vai chupar um canavial de rola”. O resultado seria uma civilização peculiar, em que o setor primário da economia teria forte apelo oral e as aulas de geografia envolveriam mapas agrícolas extremamente constrangedores. Imaginem! Até uma Bolsa de Valores de commodities, só que com cotações baseadas em produção de… Bem, prossigamos.

O pós-estruturalismo já nos avisou também: não existe significado fixo, permanente. O que há, de fato, é só um jogo infinito de interpretações. Traduzindo para a vida prática: você nunca sabe se a pessoa disse “Vá chupar cana” ou “Vá chupar rola”. E ainda tem gente que acha que isso é um problema moderno. Não, é um problema antigo. Desde a época das primeiras civilizações, dos nossos antepassados longínquos. Evidentemente, o vulgar “vá chupar um canavial de rola” já foi proferido pelos mais diversos idiomas, pelas mais remotas civilizações. Só que agora as redes sociais deram ao discurso o equivalente a um megafone interplanetário.

Pois é! Vivemos em um tempo onde o discurso não é apenas o que você diz à algumas pessoas, mas o que você posta e o mundo inteiro lê ou vê imediatamente - e, mais recente ainda, agora o mundo inteiro fica perplexo diante das conflitantes peripécias que a Inteligência Artificial produz. Sem contar o fato de que o que você posta não é exatamente o que você quer dizer, mas o que você acha que ficará bonito com um filtro e a mesma dancinha de sempre, é claro! É a “vida líquida” - conceito de Zygmunt Bauman; já eu, chamo de “mundo rosa” -, aquele em que todos estão felizes, são inteligentes e incrivelmente bem iluminados. E o que ilustra muito bem são o Instagram e o TikTok. Eis a nova Metafísica: todos têm uma essência muito próspera e meticulosamente editada por filtros, efeitos e, claro, discursos/ linguagens vazias sob uma dancinha asquerosa.

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

SOMOS VERDADEIRAMENTE HUMANOS? REFLEXÕES SOBRE O TRABALHO EM MARX


Há algo profundamente inquietante no modo como vivemos, trabalhamos e existimos em sociedade. Essa inquietude silenciosa e muitas vezes invisível impingiu o filósofo e economista alemão Karl Marx (1818 — 1883) a desenvolver uma das críticas mais profundas à condição humana na modernidade. Em seus “Manuscritos Econômico-Filosóficos” de 1844 — publicados em 1923 — , Marx nos convida a refletir não apenas sobre o funcionamento da economia, mas sobre algo muito mais íntimo: o que nos torna verdadeiramente humanos?

Neste contexto, Marx rompe com noções econômicas de sua época, advindas, principalmente, do economista Adam Smith (1723 — 1790). Ademais, o filósofo alemão dialoga com outro filósofo conterrâneo, Friedrich Hegel (1770 — 1831) sobre concepções tradicionais — tanto metafísicas quanto teológicas. Além destes dois principais, tanto o economista quanto o filósofo, Marx se destacava diante dos demais pensadores que viam a natureza humana como uma essência fixa, imutável, criada por Deus ou moldada puramente pela razão. Contra essa visão, ele defende uma concepção dinâmica e histórica: o ser humano não nasce pronto, ele se faz, e esse processo se dá, sobretudo, através do trabalho. Trabalhar, para Marx, não é apenas uma prática visando a preservação do indivíduo ou, simplesmente, sobrevivência: o trabalho é um ato criativo, vital, existencial. É pelo trabalho (práxis) que transformamos a natureza e, ao mesmo tempo, nos transformamos — revelando que homem e natureza formam, na verdade, uma só unidade.”


Imagine, por exemplo, um artesão moldando a madeira para criar um violino. Cada curva esculpida, cada detalhe é mais do que técnica: é a expressão de sua subjetividade, de seu tempo, de sua história. Nesse processo, o ser humano se objetiva: coloca algo de si no mundo. O objeto criado carrega sua marca, seu gesto, seu gosto, sua humanidade. Porém, e se esse violino, ao invés de ser expressão humana e natural, tornasse-se uma mercadoria imposta, feita em série por máquinas, alheia ao artesão que o produziu? Eis aí o estranhamento — a essência do drama que Marx denuncia.

Nesse cenário, o capitalismo surge como um véu que encobre essa potência humana. Na chamada “economia política tradicional”, o trabalho deixa de ser uma atividade plena e passa a ser apenas um meio de subsistência. O trabalhador não se reconhece mais no que faz, não emprega mais sua história, sua cultura, o seu DNA (no sentido figurado, óbvio). O que deveria ser a mais profunda realização de sua humanidade torna-se uma prisão cotidiana, onde o indivíduo não pode mais, livremente, conceber os percursos da sua vida. O produto do trabalho já não lhe pertence. Ele se torna estranho diante daquilo que criou, como um pai que não pode reconhecer e cuidar do próprio filho.

Marx descreve esse fenômeno com dois conceitos centrais: alienação e fetichismo da mercadoria. De acordo com o filósofo a alienação é o distanciamento entre o trabalhador e sua obra. O trabalho, antes expressão de liberdade, vira uma obrigação mecânica, tornando-o banal — um “ganha-pão”. O trabalho (práxis) aliado à própria natureza, que deveria ser o espelho da criatividade humana, converte-se em instrumento de opressão. Diante disso, o homem perde a si mesmo no ato de produzir. O fetichismo da mercadoria, por sua vez, é talvez um dos mais trágicos disfarces da modernidade: os produtos criados pelo trabalho humano ganham “vida própria”, são adorados, valorizados, comprados e vendidos como se tivessem poder em si mesmos — enquanto o trabalhador, criador de tudo isso, permanece invisível, descartável. Em outras palavras, a mercadoria brilha, o ser humano se apaga.

Neste processo, o capitalismo inverte a lógica da existência humana: transforma sujeitos em objetos, e objetos em sujeitos. Os que detêm os meios de produção — os capitalistas — acumulam riqueza, enquanto os trabalhadores são reduzidos a números, a peças em uma engrenagem impessoal e insaciável. A famosa passagem do Manifesto Comunista ecoa com força aqui: “Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, opressor e oprimido…” — essas oposições revelam a perpetuação de uma luta que desumaniza.

Marx nos obriga a encarar uma verdade desconfortável: vivemos em um sistema que nos afasta de nós mesmos. E mais do que uma constatação teórica, isso é um grito. Um grito que vem do trabalhador exausto, da mãe que trabalha dobrado para sustentar os filhos, do jovem que não se vê no que faz. O trabalho — que deveria ser fonte de dignidade — é transformado em rotina opressiva, em alienação existencial.

Contudo, essa crítica não é um fim em si. Marx aponta para um horizonte. Ele acredita que essa realidade pode ser superada. Pois o ser humano, ao contrário das demais espécies, possui a capacidade singular de criar com consciência, de produzir não apenas para si, mas para os outros, em liberdade e solidariedade. Enquanto os animais produzem por instinto, o homem produz com intencionalidade, sensibilidade e propósito universal.

Assim, compreender a natureza humana, segundo Marx, é entender que ela se realiza na práxis, ou seja, na ação transformadora sobre o mundo. A humanidade não é uma condição pronta: ela é um processo histórico e coletivo. É na criação de ferramentas, de arte, de cultura, de linguagem e de relações que o ser humano se descobre — e se redescobre.

Enfim, ao olharmos para nossas mãos calejadas, nossos rostos cansados após o expediente, para nossas angústias diante de um mundo que nos exige produtividade constante, talvez possamos entender um pouco do que Marx quis dizer. Não estamos apenas sendo explorados economicamente — estamos sendo privados de nossa própria humanidade. No entanto, a esperança não foi extinta. Porquanto, se somos feitos históricos, também podemos nos refazer e nos readequar, transformando nossos destinos mais dignos e mais humanizados. Além do mais, a luta histórica em que nos encontramos não é apenas por salários mais altos ou melhores condições — é por um novo modo de ser no mundo. Um mundo onde o trabalho não estranhe, mas que agregue; não oprima, mas liberte. Talvez o maior legado de Marx seja esse: lembrar-nos de que ainda somos humanos — e que, apesar de tudo, podemos nos tornar plenamente aquilo que somos.

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Ouvindo: “Don’t blame me”, The Exploited.

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Medicina: Será que um dia iremos nos tornar um jacaré?



Depois da pandemia ouvi relatos de que condições particulares de alguns indivíduos possuíam certas anormalidades e que vinham afetando negativamente, não só seu organismo, como também o que se pode dizer do seu mental. Acalmem-se! Não se trata de uma revisão da Metamorfose, de Franz Kafka. Não está sendo flagrado por aí nenhum Gregor Samsa atualizado para versão réptil. Porém, vem acontecendo quadros clínicos com alguns pequenos detalhes nos prontuários de muitas pessoas. Comigo, inclusive. Notei isso desde a reação da minha primeira dose da vacina contra COVID-19. Tive sintomas que nunca experimentei - incluindo o estado psicológico mais deprimente enquanto doente e sem vontade nenhuma de levantar enquanto acamado.

Sabemos que aqui no Rio de Janeiro possuímos um carma com mosquitos. A dengue (e outras gangues) costuma trazer novidades patológicas, porém, foi depois da COVID-19 que as coisas começaram a ficar estranhas. Uma das coisas que ocorre é febre baixa - ainda que pareça normal -, dores em partes estranhas do corpo e uma condição psicológica diferente mesmo. Nós, portadores da sabedoria popular, estamos estranhando o que vem acontecendo conosco e, graças às redes sociais (e às fofocas também, por que não?), tomamos coragem para expor essas situações com a nossa saúde. Não estão relatando sintomas diferentes, mas estão diferentes a forma como eles aparecem e porque eles aparecem.

Por exemplo, depois da pandemia, por ventura, tive infecção gastrointestinal. Normal, acontece. No entanto, fiquei por três dias sem ter qualquer cólica. Coisa que nunca havia me acontecido. Outro ponto é que fiquei com dores no corpo (especificamente nas pernas), catarro, tosse seca, por cinco dias sem ter muita febre - acontecia exatamente à noite e não passava de 37,9º. Novidade também. Uma coisa interessante é que minha garganta nunca mais inflamou. E quero avisar que quando ela inflamava, eram 5 dias com febre altíssima! Só que, naquela ocasião, eu agia, era mais ativo. Agora, há algo, psicologicamente falando, que prega na cama e enquanto a febre/ gripe não vai embora, não dá disposição. Sequer fome!

Ademais, não diferente dos meus casos pessoais, ouço e leio relatos nesses sentidos também. Logo, não acontece só comigo. Agora, o mais preocupante, é que independentemente de gripe, febre ou doença por infecção, há com certa frequência uma desorientação repentina, um estranhamento consigo mesmo. Um estado psicológico diferente de quando se era acometido por alguma doença. Enfim, parece que o modus operandi das doenças mudou e temos que enfrentar quadros de doenças com outro espírito. Tem-se, portanto, aquela gripe que derruba, não só o físico, como também o psicológico. Pode anotar na lista de remédios, além dos antigripais, antibióticos, também antidepressivos.

Com isso dito, não quero afirmar que por causa da vacina agora estamos diferentes ou que viramos jacaré - muito menos a barata de Gregor Samsa. Não é o caso!!! Contudo, estou querendo apontar que estamos num determinado momento, diante duma situação, que ainda não sabemos de fato o que está acontecendo ou para onde estamos indo. Possivelmente, estejamos já tão abalados psiquicamente que, com o acometimento de um pequeno vírus, tudo o que consideramos mentalmente normal, se torne uma grande torrente nebulosa. Vejam: “Lapsos de memória, depressão e ansiedade podem estar relacionados às sequelas cerebrais da covid-19”, segundo o portal do Conselho Nacional de Enfermagem.

Brasil vive uma segunda pandemia, agora na Saúde Mental. Quadros de ansiedade e depressão aumentaram após a pandemia de covid-19. 

Não há provas de uma ligação direta entre um vírus que causa um resfriado com uma eventual depressão ou burnout na pessoa infectada; nem distúrbio no sono ou qualquer outro sintoma de saúde mental. Contudo, os diversos fatores aos quais estamos inseridos, principalmente com o fenômeno pavoroso que foi a pandemia, potencializou questões psicológicas que já lidávamos. Foi o somatório do estresse que já estávamos situados cotidianamente mais uma brusca perda de parentes, amigos, isolamento social e, naturalmente, a imaginação de uma catástrofe brutal com o planeta.

Por conseguinte, a título de conhecimento, as vacinas de COVID-19 aplicadas ao redor do mundo ainda estão em fase observação. Diante disso, acredito que possamos descartar vírus que estejam causando doenças mentais. Os cientistas ainda estão coletando os dados desde a primeira delas, que foi aplicada em Janeiro de 2021. Com isso, é de conhecimento geral que há novos sintomas surgindo em pacientes vacinados contra a COVID-19 e isso gera sempre um alerta, não só na comunidade científica, quanto na população. 

Ademais, uma questão: o paciente - vacinado ou não - é de extrema valia nesta guerra toda contra os vírus. Porque, somente o indivíduo sabe e pode descrever o que está acontecendo consigo, até mesmo diante de um resfriado qualquer: quem sabe o que se passa com seu corpo é o próprio indivíduo, e não o médico. Neste cenário, somente depois dos relatos dos pacientes é que se fazem as análises e se buscam as soluções. Por isso que é de extrema importância procurar um médico e relatar a ele tudo, mas tudo mesmo, o que se passa consigo. Devemos sempre ser pró-ativos e antecipar estas questões à medicina.


É preciso que se reitere: se há sequelas no corpo, há que se buscar atendimento adequado para tal; se há, além disso, problemas de ordem psicológica, o paciente deverá cuidar, além do problema físico, também da saúde mental com um psicólogo/psiquiatra. Pois, como vimos, está tudo ainda muito nas penumbras, além de cada dia surgir algo novo diante da contenda contra os vírus.

Dessa maneira, é notório que estamos como que de braços esticados procurando tatear alguma superfície - sequer temos noção se ela existe ou está próxima. O que há de fato é muito trabalho ainda no campo da saúde a ser realizado - com a ajuda da população - e, com certeza, aliado à alta tecnologia. Não me refiro somente aos melhores remédios e exames operados por I.A. ou robótica, não, mas prevenções e eficiência no remediar das causas.

Vejamos como um conjunto de ações e contribuições de áres distintas podem nos ajudar numa melhor qualidade de vida. Em Março de 2020 - em plena pandemia - o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han escrevia em sua coluna, no El País, que a Ásia já estava com a situação controlada enquanto o Ocidente fechava aeroportos - e só, como medida de “proteção”. Em contrapartida, na China, já se estava trabalhando com detecções dos últimos focos de infectados com ajuda da tecnologia e da eficaz medicina daquele país. Diz Han, “Quando alguém sai da estação de Pequim é captado automaticamente por uma câmera que mede sua temperatura corporal. Se a temperatura é preocupante, todas as pessoas que estavam sentadas no mesmo vagão recebem uma notificação em seus celulares [...] Se alguém rompe clandestinamente a quarentena um drone se dirige voando em sua direção e ordena que regresse à sua casa”. 


Provavelmente, no “mundo de amanhã”, saberemos do que mudou, do que resistiu, do que foi mérito da tecnologia ou do que foi obra da ação individual de cada um. Todavia, é assim que a medicina avança, que nós evoluímos e vamos deixando como legado uma vida sempre melhor e mais saudável diferentemente daquele que nos foi deixado. Neste sentido, até agora viemos sempre encontrando as melhores soluções possíveis para nossos maiores desafios. 


Acredito, por fim, que a medicina fará outra nova revolução no combate às doenças-por-vir e a tecnologia (se não nos destruir [risos]) fornecerá tudo o que precisamos para, inclusive, prevenirmo-nos de quaisquer ameaças microscópicas e também aquelas ameaças invisíveis, que pairam por sobre nossa cabeça nos atormentando, nos deixando ansiosos, depressivos e nos tirando o tranquilo sono de cada noite.

Deixaram elus chegar? Fudeu!

Introdução Existe um bordão imortal da torcida do Flamengo: "Deixou chegar, fudeu!". Para os rubro-negros, é a soberba em forma de...