Introdução
Existe um bordão imortal da torcida do Flamengo: "Deixou chegar, fudeu!". Para os rubro-negros, é a soberba em forma de um axioma — o Mengão, vindo aos trancos e barrancos, tropeçando em suas próprias pernas ao longo do campeonato, de repente acorda na final e aí, meu caro, não tem pra ninguém. Chegou à decisão? Adversários chorando e flamenguistas comemorando. Título clássico da Gávea, onde a superação vira massacre.
Transponhamos essa pérola futebolística para o circo sócio-político contemporâneo, e o que temos? Uma metáfora de fazer inveja a qualquer cronista esportivo. Nas últimas décadas, alguns movimentos sociais e alguns ativistas das causas minoritárias (os “greenpeacers” ou fundamentalistas ideológicos) vêm brotando como erva daninha em todos os cantos institucionais: universidades, arte, cultura, mídia, big techs, sistema político e, claro, o sagrado Judiciário. Começaram como militância barulhenta nas redes sociais, ganharam as ruas, infiltraram-se na cultura como um vírus sorrateiro e, passo a passo, conquistaram o poder de ditar regras. Deixaram chegar, crescer e se alastrar. Agora, no topo, fudeu!
É uma cultura incutida a ferro e fogo na cabeça do brasileiro — e não só dele, espalhando tentáculos mundo afora — a cultura woke. A sociedade civil, os poderes públicos, todos dançando um malabarismo patético para escapar dos julgamentos desses novos "greenpeacers" de plantão, prontos para boicotar, cancelar ou processar ao menor sinal de dissenso. A título de ilustração deliciosamente irônica, vejam as gigantes globais: Disney, Netflix, Nike, Apple, Google e o império de Hollywood, com sua máquina cinematográfica onipotente. Passaram a engolir a agenda "woke" — diversidade forçada, narrativas identitárias em cada frame, neologismos e pronomes inventados obrigatórios nos créditos. Para os devotos, é o pináculo da evolução moral, o paraíso da inclusão - O PROGRESSO SÓCIO-CULTURAL. Para os dotados de senso crítico, é só uma “hype” curioso: ativismo cultural metamorfoseado em política institucional, dobrando joelhos ante as vontades histéricas de uma minoria barulhenta que, enfim, descobriu como transformar birra em lei. Deixou chegar, Fudeu!
Quando opinião política virou teste de caráter.
O Brasil descobriu recentemente um método revolucionário para avaliar pessoas e classificar seus status. Durante séculos, insistimos em critérios antiquados: competência, caráter, honestidade, grandes feitos etc. Felizmente progredimos - olha que legal! Agora, basta uma pergunta simples e eficiente, que não precisa pensar muito em sua resposta: “Você votou em quem?”.
Vejamos. Se um engenheiro brilhante votou em Jair, está claro que não presta. Provavelmente suas pontes irão tombar, seus cálculos estarão errados e, se tiver filhos, devem ser todos fascistinhas de merda. Por outro lado, se a melhor bióloga do planeta declarou voto em Inácio ou simpatia por Ciro, também há motivos para desconfiança de suas pesquisas e descobertas - sejam elas quais forem em benefício da humanidade. Quem escolhe o candidato “errado” dificilmente saberá descobrir a cura para um problema que afeta um grupo de pessoas.
É… Atualmente, é assim que funciona o novo método científico brasileiro: substituímos a análise, tentativas e erros, investimentos financeiros, revisão dos pares, por uma coisa única e certa: alinhamento político-ideológico.
Quando tudo vira um teste ideológico.
Essa lógica woke é tão eficiente que poderia facilmente se expandir para outras áreas. Imagine a Confederação Brasileira de Judô para as Olimpíadas. Antes de avaliar quem faz mais ippons, quem detém a maior resistência e agilidade, seria prudente perguntar: você apoia a legalização da maconha? Qual sua posição sobre aborto? Você acredita que o narcotráfico é vítima do usuário? Dependendo da resposta, o atleta pode ser liberado para competir — ou condenado à exclusão do esporte por insuficiência moral. O que será dos novos ídolos? Aquele cara que nunca perdeu uma luta, ou aquele atleta que ao menos tem consciência de classes?
Eis uma atualização do sistema meritocrático, apenas com um detalhe: o mérito passou a ser “pensar exatamente como a tribo”.
O Movimento.
Essa transformação não aconteceu por acaso. Durante anos, movimentos políticos e sociais avançaram silenciosamente por universidades, meios culturais, TV, empresas e instituições públicas. Agora, ocupam posições influentes e foram desvelando instrumentos muito úteis ao longo de suas experiências: o cancelamento. No entanto, não satisfeitos com isso somente, evoluíram para à punição; agora utilizando o Estado como ferramenta de justiça pessoal.
O mecanismo é simples. Alguém diz algo supostamente ofensivo. A frase é recortada, viraliza e, em poucas horas, forma-se um tribunal digital. A sentença costuma ser rápida: demissão, ostracismo, perda de seguidores… Só que ao longo do tempo, isso escalonou para perda de cargos, de seu sustento, além de afastamento das pessoas mais próximas.
Exemplo 1: Rodrigo Bocardi, jornalista da Globo e âncora do Bom Dia São Paulo, foi acusado de racismo por militantes fundamentalistas e parou a Internet. O jornalista foi cancelado, tido como racista e teve prejuízos pessoais. Isso tudo porque Bocardi perguntou a um jovem se ele era “gandula” do clube de tênis onde ele frequentava, em uma entrevista em seu telejornal. Após o fato, o jornalista se encontrou pessoalmente com o jovem no clube e tudo ficou resolvido. O rapaz, a “vítima”, disse que não se ofendeu com a pergunta e, pelo contrário, “fiquei famoso e conheci diversas ‘gatas’ no Instagram” - brincou o jovem.
Eis o poder.
Atualmente, com as instituições estatais de poder ocupada por membros desses movimentos, você ser contra uma mera opinião pode lhe custar a liberdade, quiçá a vida: pessoas vão presas ou passam por longos processos jurídicos, perdem seus míseros dinheiros com honorários, ida e vinda de audiências - além de muito esgotamento emocional -, para provarem que, por exemplo, não houve dolo em suas declarações.
Exemplo 2: No Facebook, um indivíduo comentou sobre desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. Ele declarou que o desfile da G.R.E.S. Beija-Flor de Nilópolis estava com seu enredo emitindo fatos não condizentes com a história pregressa da África. Diante disso, lhe foi infligido racismo por milhares de usuários da rede social. Fato: não pôde afirmar que o Egito não é um país com genótipo 100% negro (subssariano). Vejam, isso, para fundamentalistas ideológicos, é crime.
A discordância deixou de ser um debate. Virou uma infração moral. Naturalmente, antes, esse “tribunal” precisava cancelar, demitir, humilhar, etc.; atualmente, ele parece um glutão: necessita de crimes.
Exemplo 3: Humor como paradigma. Ele virou um dos principais focos. Basta um comediante contar uma piada envolvendo um cadeirante, uma obesa ou um autista para surgir uma mobilização épica nas redes sociais e posteriormente no Ministério Público. Pedem retratações públicas, cancelamento de shows e, se possível, prisão preventiva do humorista — afinal, piadas podem ser altamente nocivas, muito perigosas para um coletivo invisível, porque, quem esteve presente no show, e que possuia tais características das piadas, não se ofendeu. Muitos cadeirantes, autistas, nordestinos e demais alvos do humor já declararam publicamente que gostam de serem inseridos e se sentem bem de certa forma. Isso é o que o humor proporciona. E não prisão e assassinato de reputação do humorista.
Na minha religião, Deus é o Presidente do país.
Estamos em um país onde políticos que estão envolvidos em crimes graves de corrupção e envolvimento com facções criminosas ficam impunes. E incrível! São sempre os mesmos políticos, ou os mesmos partidos, mas pasmem, são cada vez mais venerados pelos militantes e movimentos sociais.
Aqui surge a parte mais fascinante da história. Grande parte desses fundamentalistas, promotores da moral pública, faz sua militância sentada diante de um elegante MacBook, ou de seu iPhone, digitando indignação seletiva enquanto ouve playlists repletas de músicas que descrevem, sem qualquer constrangimento, tráfico de drogas, assassinatos, latrocínios e exploração sexual. São vários os gêneros musicais contemporâneos desse cunho. Criminosos aparecem como heróis urbanos. O traficante vira protagonista épico. O assalto vira metáfora de sucesso e ostentação. A violência vira estética. E, curiosamente, isso raramente provoca campanhas exigindo prisão de narcotraficantes e seus apologistas. O estranho é que isso não incomoda, nem gera revolta.
A lógica moral contemporânea parece funcionar assim: piadas e/ou xingamentos são intoleráveis; corrupção é inexplicavelmente negada e crimes estilizados em música são expressões culturais; no assalto há uma lógica louvável; já o narcotráfico, a culpa é do usuário; e o “meu presidente nunca cometeu crime algum". Na verdade, "ele foi vítima de um golpe”.
Ah, ainda tem a dopamina!
Esse fenômeno tem nomes, mas estou confuso entre “narco cultura”, inversão de valores ou burrice mesmo. Na verdade, o nome ideal para isso se chama “vício em sinalizar virtudes”. Por exemplo, nas redes sociais, demonstrar revolta virou uma forma de capital moral - e também “bomba de dopamina”. Não é necessário resolver problemas complexos. Basta pagar de bom sujeito, bom samaritano. Cancelar um comediante e pedir sua prisão é perfeito para isso: o vídeo existe, a piada já está pronta, recorta-se o trecho, aponta o grupo lesado pela piada e a indignação já está no engajamento rendendo curtidas e um viciante prazer inenarrável.
Discutir e descortinar por que a cultura pop glorifica violência real já é bem mais complicado. Envolve mercado musical, estética cultural, questões sociais... Dá trabalho. Muito melhor, mais fácil e prazeroso atacar um humorista. Assim rio dessa própria piada com pura satisfação e livre de qualquer culpa.
Eles chegaram!
O passo seguinte é ainda mais curioso: transformar conflitos culturais em casos de polícia. Hoje não é raro ver pedidos de prisão por piadas, comentários infelizes ou agressões verbais no calor da discussão. A ironia é que muitas dessas demandas vêm de grupos que também criticam o sistema carcerário por ser punitivo demais. Há uma grupo desses fundamentalistas wokes que defende a política de desencarceramento. Alguns países que já aplicaram essa ideia estão colhendo os frutos agora. Caos: falência de estabelecimentos comerciais e de serviços, terror na vizinhança, submissão à narcotraficantes e gangues armadas se expandido. Problema financeiro real.
O ridículo.
O que dizer da ridícula declaração da professora, antropóloga, Jacqueline Muniz, especialista em segurança pública da UFF? Durante uma entrevista após a mega operação nos complexos da Penha e do Alemão no Rio de Janeiro — que deixou 121 narco traficantes mortos, além de cinco policiais em serviço —, ela afirmou que um criminoso com fuzil pode ser "facilmente neutralizado até por uma pedrada na cabeça", deixando subentendido que o armamento pesado é inútil em contextos urbanos. Militantes como essa professora propagam pelas universidades do país que policiais cumpram mandados contra facções criminosas sem um equipamento de salvaguarda. Implicitamente (?), ela estaria mandando os policiais baterem suas botas? Pois, do outro lado, sabe quem está adorando essa narrativa? O traficante, o assaltante, o "cria 157" que explode miolos nos espaços urbanos Brasil afora. Além de isso, leva a sensação de impunidade ao criminosos, incentivando-os a cometerem crimes cada vez mais absurdos contra os moradores locais e a expandirem seu terror geograficamente.
Exemplo 4: A magnífica e exemplar policial! Na lógica dos movimentos ideológicos o lugar de fala (locus de enunciação) é aquilo que encerra o assunto; dá, a quem tem autoridade, a segurança de argumentar diante da pauta em questão. Isso é comumente dito sobre aquilo que "lacra". "Fulana lacrou!". Sabe-se que as minorias devem ser ouvidas, devem ser inseridas nas questões políticas e sociais. Isso é um inegável - salvo os exageros e alucinações que se vê por aí. Diante disso, surge A policial militar. Uma mulher, uma representante da minoria, e que esteve na Operação Contenção no dia 28 de outubro de 2025. A PM Munique Busson, portanto, veio à público, em seu perfil de rede social, refutar a declaração horrível da professora da UFF e pôr uma pá de cal nessas narrativas que só favorecem os traficantes e os fortalecem de todas as formas.
Somente a polícia comentou.
Agora, sobre os cinco policiais mortos pelos "meninos", não se viu nenhum texto ou discussão nos canais convencionais de notícias. Sobre os traficantes assassinos? Justiça, direitos humanos e toda força narrativa da grande mídia, de movimentos ideológicos e políticos em prol dos criminosos. Diante dessa guerra de informações, quem perde são os cidadãos que vão e vem nesses espaços urbanos; são os pais de família, bem como os bons policiais cumprindo seu dever contra o crime organizado.
Valores invertidos.
Exemplo 5: “EUA é permitido roubar, com leis e autoridades condescendentes. Em Nova Iorque, furtos em lojas aumentaram 81% e a fuga de lojas de rua reflete a decadência em áreas centrais de grandes cidades com crime liberado.” O estado da Califórnia também é um deles. Nos E.U.A, até 2000 dólares não é considerado roubo para pegar cana. Aqui no Brasil existe assaltos de rua, “saidinha de banco”, associação ao tráfico, saídas temporárias de presos de crimes hediondos, narcotraficantes e etc, além da liberação do criminoso na audiência de custódia; muitos presos por crimes hediondos e por associação ao narcotráfico com mais de dezenas de passagens pela polícia estão nas ruas cometendo crimes.
Conclusão. Temos uma equação curiosa aqui: para crimes violentos, saques e latrocínios, compreensão sociológica; para humor e desavenças pessoais, repressão penal imediata - sem qualquer alívio da lei.
Exemplo 5: Vejamos a bomba que chegou ao judiciário. Segundo a lógica dos wokes fundamentalistas então é "mais benéfico" para o criminoso matar uma mulher preta do que xingá-la racionalmente (ou seja, ser racista). Por quê? As leis anti-racismo endureceram, como a atualização da Lei 7.716/1989 via decisões do STF, que equiparam injúria racial a crimes hediondos não prescritíveis. A título de informação, em 2025, o STF decidiu que racismo não prescreve, enquanto homicídio, latrocínio ou estupro SIM — após 20 anos, um xingamento pode render prisão severa, mas um estupro à mesma vítima… Impunidade.
O que é dito aqui, é comumente visto nas redes sociais e comentários por parte de alguns partidos de esquerda e movimentos sociais. Porque, nota-se que no mesmo instante em que esses militantes gritam contra a superlotação carcerária defendendo o não-punitivismo para latrocínio ou narcotráfico, em contrapartida, pedem cadeia por "trollagem", humoristas e por matérias jornalísticas que vão de encontro aos seus ideais.
Exemplo 7: Ironicamente, repudiaram a severa punição para uma trans que estuprou e matou uma criança, merecendo "abraço fraterno" em reportagens, mas pediram a morte da Lígia Diniz, publicada na revista Quatro Cinco Um. Uma mulher que, como crítica literária, apontou alguns pontos negativos na obra “Salvar o Fogo”, de Itamar Vieira Junior. Em suma, a crítica destacou um tratamento étnico maniqueísta, além de uma narrativa didática e moralizante, que, segundo Diniz, reduz a complexidade humana e prioriza a transmissão de mensagens ideológicas em detrimento da imaginação do leitor. Bingo! - o próprio escritor criticado rebateu-nas como discurso de ódio e racista. Ou seja, racismo é crime. Logo, a crítica literária tem que ir presa.
Com efeito, quem clama detenção por críticas, xingamentos e piadas ignora a jornada prisional: adeus liberdade, emprego, reputação, “ganha pão”, família, intimidade, humanidade. A lógica agora é punir “estupidez verbal” mais que uma violência física - quiçá um estupro? Os indivíduos dos exemplos supracitados erraram? Suponhamos que sim. Fizeram comentários infelizes? Sim. Sem contar outros casos, como o da Lígia Diniz, que apenas exerceu o seu ofício: criticou. Agora, processá-los por comentários como graves ameaças ou incitações? É o Estado virando censor de afetos — que delícia de "progresso". É o tal progressismo à moda stalinista que muitos pregam e defendem por aí.
Um último parágrafo com exemplo real: o ápice irônico! Um homem biológico, a deputada trans Erika Hilton, recentemente foi eleita como representante maior dos direitos das mulheres. Inegavelmente homem. Cientificamente e biologicamente. Então, como argumento, em subterfúgio da realidade, a deputada argui invalidando a ciência: "Biologia não é autoridade" (em discurso na Câmara, 2026). (Agora a ciência não presta, né?). Negacionismo radical: fundamentalismo identitário acima de tudo, acima de todos. Isso se alastra...
Nesse ambiente, portanto, a política deixou de ser apenas disputa por políticas públicas, tipo, os problemas na educação, na geração de empregos, na segurança pública, economia… Ela virou uma revolução cultural mais ambiciosa: um grande tribunal moral permanente. Neste tribunal, reputações são compartilhadas, julgadas e condenadas em tempo real, divergências e críticas viram acusações de crime e posições políticas funcionam como certificado de virtude - algo que beira a religião.
Aqui, todos dizem lutar pela democracia. O problema é que a democracia exige algo profundamente desconfortável: conviver com pessoas que pensam diferente de você; que se aborrecem e xingam as vezes; que tecem críticas conforme sua visão de mundo e segundo seu ofício; que entendem que o assassino de seus filhos deve estar na cadeia e não no noticiário trocando tiro com a polícia e fazendo barricadas ou incendiando ônibus a mando do traficante. Pois é… Quando uma sociedade como essa, alastrada de fundamentalistas, começa a pedir prisão por piadas enquanto canta alegremente letras que glorificam criminosos narcotraficantes ou que exaltam políticos corruptos e que desejam a morte do próximo por ser de espectro político antagônico ao seu, talvez não estejamos vivendo o progressismo como um renascimento cultural ou moral... Vive-se uma terrível ditadura. Um autoritarismo desses partidos e movimentos sociais mancomunados. Afinal, deixou chegar, fudeu!