terça-feira, 27 de outubro de 2026

A democracia e a libebrdade acabaram; agora estamos todos ocupados odiando uns aos outros



Uma amiga me relatou algumas situações envolvendo disputas político-ideológicas nas redes sociais e manifestações nas ruas. Depois de descrever o espetáculo, resumiu sua impressão em poucas palavras: está constrangedor, decepcionante e vergonhoso até mesmo admitir em quem se vota. Não porque o voto seja um segredo de Estado, mas porque, aparentemente, declarar preferência por um candidato se tornou uma espécie de confissão psiquiátrica, seguida de julgamento moral e, em casos mais graves, de um linchamento coletivo.


Antigamente, perguntavam se a pessoa gostava de forró, se preferia açúcar ou adoçante, se preferia Silvio Santos ou Faustão. Hoje, antes de servirem um risole, as pessoas precisam descobrir em quem você votou. É uma questão de segurança. Afinal, ninguém quer servir a um fascista ou tomar um capuccino com um comunista, especialmente porque ambos podem estar escondidos dentro de alguém aparentemente normal, que paga impostos, toma banho nu e antes de sair diz bom-dia ao porteiro. São indícios preocupantes de dissimulação.


O cidadão já não pode simplesmente discordar. Precisa discordar com a expressão facial apropriada, a indignação regulamentar e o repertório de insultos aprovado pelo departamento de ressentimento de sua bolha política. Uma opinião moderada, hoje, é recebida com a mesma desconfiança que um homem entrando numa reunião de alcoólicos anônimos com uma garrafa de uísque e dizendo que veio apenas observar a metodologia.


O mais fascinante é a transformação da política numa espécie de religião sem a vantagem do silêncio nos templos e da vida eterna pós-morte. Cada grupo possui seus santos, seus demônios, suas escrituras sagradas, seus profetas de YouTube, X e TikTok e seus hereges. A diferença é que, nas religiões tradicionais, pelo menos existe a possibilidade de morrer e descobrir que você estava errado. Nas redes sociais, não. Você morre errado, seus inimigos fazem uma montagem com sua pior fotografia e o algoritmo providencia a ressurreição da sua vergonha a cada seis meses.


Convenhamos, já está insuportável o pânico social fabricado por militantes e grupos político-ideológicos; o desespero, os gritos e o fanatismo; o tribalismo das ruas, as brigas familiares e as amizades desfeitas em nome de disputas políticas. Os dilemas morais artificiais, produzidos e alimentados por robôs, já bastam! Também é incompreensível o ódio abstrato dirigido a partidos ou a pessoas com quem jamais se trocou um olhar.


Pergunta: você já percebeu que existe uma celeridade e um empenho hercúleo para mobilizar, dividir, transformar adversários em inimigos e manter indivíduos permanentemente submetidos ao terrorismo eleitoral, sob à sensação de ameaça? Há eficiência para gerar pânico, não precisando ser espontâneos para produzir efeitos reais. Isso, quando fabricado ou deliberadamente amplificado, pode converter-se em instrumento de poder - e isso ficou bem claro nas últimas eleições. E, convenhamos, poucos instrumentos são tão eficientes quanto convencer alguém de que o mundo acabará na próxima terça-feira, desde que o candidato adversário vença a eleição. Na quarta-feira, caso o mundo continue inconvenientemente no mesmo lugar, basta anunciar que o apocalipse foi adiado por queda de energia, mas que ainda está pairando sobre nós.


A indústria da indignação descobriu uma fonte inesgotável de energia: pessoas que precisam estar furiosas o tempo inteiro. O petróleo acaba, as florestas desaparecem, a água potável vira artigo de luxo, mas a indignação política é renovável. Uma publicação mal interpretada produz raiva; a raiva produz compartilhamentos; os compartilhamentos produzem audiência; a audiência produz dinheiro; o dinheiro compra votos e, depois de eleito, o poder corrompe o judiciário. No fim, alguém compra um apartamento em Miami explicando que está salvando a democracia, enquanto você perde seis horas de sono discutindo com um desconhecido cujo nome parece uma senha de Wi-Fi e um avatar do Dragon Ball Z.


É uma forma de exploração inédita e bastante elegante. Nas fábricas do século XIX, o trabalhador entregava a força dos braços. Na economia contemporânea da indignação, entrega a atenção, a paz de espírito e, ocasionalmente, o relacionamento com a própria mãe. O produto final é o mesmo: alguém trabalha muito, alguém lucra o suficiente para se manter e alguém termina o dia exausto sem saber exatamente o que produziu.


Os robôs, naturalmente, tornaram tudo mais sofisticado. Antes, para destruir uma amizade, era necessário um mal-entendido muito grande, uma traição ou uma dívida não paga. Agora, basta um perfil sem fotografia, criado há três semanas, publicar que o seu amigo é moralmente responsável pela destruição da civilização ocidental desde o império romano. O amigo compartilha a publicação. Você compartilha uma refutação. Um terceiro publica um vídeo de 22 segundos com música de suspense. Em duas horas, a amizade está morta, a família dividida e a civilização ocidental continua funcionando, embora o grupo de WhatsApp esteja sob intervenção humanitária de um senhor cuja associação fonética lembra a banda punk Ramones.


Há algo de particularmente cômico na autoridade moral dessas criaturas digitais. O sujeito não sabe distinguir o Congresso do Supremo Tribunal Federal, acredita que a inflação é uma conspiração internacional e precisa consultar o “Gugo” para descobrir a capital de um estado brasileiro. Entretanto, quando o assunto é a degeneração moral da humanidade, fala com a segurança de um profeta que acaba de receber as tábuas da lei diretamente de Deus — por mensagem encaminhada.


A cada ano que se passa, as coisas ficam sempre urgentes. Tudo é urgente. A democracia está acabando, a liberdade está acabando, a família está acabando, a religião “foi pro saco”, o país está sendo destruído, “vai todo mundo se foder”. Curiosamente, nunca acaba a conexão com a internet, o funcionamento do aplicativo de mensagens ou a disposição para gravar mais um vídeo denunciando o fim das coisas. O sujeito anuncia o colapso da civilização enquanto escolhe um filtro para melhorar a iluminação do rosto. É o equivalente filosófico de gritar “o avião está caindo!” enquanto procura o melhor ângulo para uma selfie no corredor da aeronave.


O pânico também tem uma vantagem comercial: dispensa argumentos. Quem está apavorado não precisa compreender; precisa obedecer. Não precisa investigar; precisa compartilhar. Não precisa distinguir uma evidência de uma insinuação; precisa descobrir de que lado está o inimigo. Depois disso há que se refletir: estamos vivendo entre humanos ou os robôs humanóides já estão entre nós e não notamos ainda? A dúvida, que durante séculos foi considerada uma das condições do pensamento¹, tornou-se uma espécie de traição. A dúvida hiperbólica de Descartes atualmente seria um crime contra a humanidade. Pensar com cautela é suspeito. Pedir fontes é uma provocação. Reconhecer que o adversário tem razão em alguma questão é praticamente solicitar sua execução sumária.

¹ Descartes, Na Segunda Meditação, percebe que, mesmo que esteja sendo enganado, não pode duvidar de sua existência enquanto está pensando: para ser enganado, é necessário existir enquanto sujeito do pensamento.

A política, que deveria ser uma atividade humana destinada a organizar a vida coletiva, converte-se assim num campeonato de pureza moral. Cada lado acredita representar a linha tênue entre a humanidade e a barbárie. Nenhum se considera apenas uma parcela da sociedade com interesses, propostas e limitações. Todos são a própria encarnação do Bem em sua plenitude, enquanto o adversário é uma mistura de criminoso, ignorante, psicopata e ameaça metafísica… Ou melhor... resumindo: o adversário sempre será um fascista.


É uma coincidência extraordinária: bilhões de pessoas, distribuídas por diferentes países, culturas e classes sociais, conseguiram chegar à mesma conclusão sobre si mesmas. Todos são modestamente justos; todos os seus adversários são monstros a serem abatidos. Se a humanidade realmente fosse tão virtuosa quanto sugere o conjunto de suas publicações políticas, os filósofos teriam encerrado suas atividades há séculos, os psicólogos estariam desempregados e os tribunais precisariam funcionar apenas como museus de uma época em que ainda existiam pessoas ruins.


Mas o tribalismo não exige coerência. Exige lealdade². A mesma conduta que, praticada pelo adversário, comprova a decadência moral do país, quando praticada pelo aliado, torna-se uma reação compreensível às circunstâncias. A agressividade do outro é intolerância; a nossa é resistência. A mentira do outro é manipulação; a nossa é uma simplificação necessária. O autoritarismo do outro é uma ameaça à democracia; o nosso é uma medida excepcional para protegê-la.

² George Orwell, sobre o modo como a identificação com uma causa política pode comprometer a avaliação imparcial dos fatos e dos julgamentos morais. ORWELL, George. Notes on Nationalism. 1945.

A moral, nesse sistema, funciona como um daqueles guarda-chuvas baratos que só abrem quando não está chovendo. Ela não orienta a conduta; acompanha a conveniência. Não existe propriamente um princípio moral, mas uma equipe de advogados trabalhando em tempo integral para absolver o próprio lado. Se fosse possível transformar essa capacidade de racionalização em energia elétrica, o Brasil finalmente resolveria seus problemas energéticos e ainda exportaria excedentes para países vizinhos.


Enquanto isso, a vida real permanece abandonada do lado de fora da tela. O aluguel vence, o salário não acompanha o custo de vida, os hospitais continuam precisando de recursos, a merda da fila do SisReg não anda, a educação necessita ser educada e o transporte público permanece sendo uma experiência alucinógena aos limites da mente humana. Mas nada disso parece tão interessante quanto descobrir que um desconhecido curtiu uma publicação politicamente suspeita.


É compreensível que a política desperte paixões. Decisões políticas afetam direitos, liberdades, oportunidades e condições materiais de existência. Há conflitos legítimos, injustiças reais e divergências que não podem ser resolvidas com um abraço coletivo e uma fotografia fazendo sinal de vitória diante do espelho do elevador do condomínio. O problema não é discordar intensamente. É transformar a discordância numa licença para abandonar o pensamento, o senso lógico, a honestidade intelectual e o respeito elementar pelos outros.


Também não se trata de exigir neutralidade diante de toda questão moral ou política. Existem situações em que tomar posição é necessário, sim. Mas tomar posição não exige transformar cada conversa num tribunal revolucionário, cada divergência numa ameaça existencial e cada eleição numa batalha entre os Cavaleiros Templários contra os Cavaleiros que Dizem Ni. A realidade já é suficientemente complicada sem que precisemos contratar roteiristas de catástrofes para torná-la insuportável.


Talvez a pergunta mais incômoda seja esta: quem se beneficia quando pessoas comuns passam a odiar umas às outras com uma intensidade que jamais dedicariam a examinar os próprios problemas? Quem lucra quando a ansiedade substitui a reflexão, quando o ressentimento ocupa o lugar do debate e quando a identidade política se torna mais importante do que a própria experiência de viver?


Certamente não é o sujeito que deixa de falar com o irmão. Tampouco é a mulher que perde uma amizade de vinte anos porque alguém publicou um “reels” sobre uma passagem bíblica. Muito menos o cidadão que passa a dormir mal, convencido de que a sobrevivência da espécie depende de convencer um estranho no Facebook de que ele está errado.


Essas pessoas não estão necessariamente participando de uma grande batalha histórica. Às vezes, estão apenas alimentando uma máquina que aprendeu a monetizar sua infelicidade³.

³ Lanier não demonstra que toda discussão política nas redes seja artificial ou que toda indignação seja manipulada. Sua crítica se dirige aos incentivos e mecanismos de plataformas cujo modelo de negócio favorece a modificação do comportamento e o engajamento. LANIER, Jaron. Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais. Tradução de Bruno Casotti. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018. 192 p. ISBN 978-85-510-0395-4

E há algo de tragicômico nisso. Passamos anos desenvolvendo a ciência, a filosofia, a literatura e as instituições políticas para, finalmente, utilizar toda essa herança intelectual a fim de produzir vídeos curtos em que pessoas gritam umas com as outras sobre assuntos que mal compreendem. Aristóteles investigou as causas primeiras; Kant procurou os fundamentos da moral; Hannah Arendt examinou as condições da vida política. Nós, seus herdeiros, descobrimos que a finalidade superior da razão é escrever “gado” ou utilizar um emoticon vomitando nos comentários de uma publicação alheia.


Talvez o verdadeiro triunfo da propaganda contemporânea não seja convencer alguém de que determinada ideologia está correta. Seja convencê-lo de que precisa estar permanentemente indignado, permanentemente ameaçado e permanentemente em guerra. Aquela ideia de que existe um opressor em algum lugar e você, coitado, é o oprimido. Porque uma pessoa que pensa pode mudar de opinião. Uma pessoa que duvida pode reconsiderar suas crenças. Mas uma pessoa apavorada está sempre procurando alguém que prometa protegê-la do monstro que acabou de descrever.


E o monstro, por coincidência, costuma ser o adversário político de quem vende a proteção.


No fim, resta uma imagem bastante deprimente: milhões de pessoas, cada uma diante de uma pequena tela luminosa, sentindo-se heroínas de uma guerra histórica, enquanto discutem com desconhecidos que provavelmente também estão sentados de pijama, comendo biscoitos e adiando a tarefa de lavar a louça. Ambos acreditam estar salvando o país. Nenhum consegue sequer salvar o seu próprio dia entediante.


Talvez devêssemos experimentar uma forma mais modesta de participação política: estudar os problemas, avaliar as propostas, cobrar resultados, reconhecer erros e desconfiar do pânico social: daquele que precisa nos manter aterrorizados para conservar nossa atenção. E, ocasionalmente, desligar o telefone para descobrir se ainda somos capazes de conversar com alguém sem exigir seu posicionamento sobre o destino da civilização.


Não é uma solução revolucionária. Não renderá milhões de visualizações, não produzirá uma legião de 10 milhões seguidores no grupo do Whatsapp e provavelmente não será celebrada como um acontecimento histórico. Mas pode evitar que você perca uma grande amizade, uma bela noite de sono ou a vontade de continuar vivendo num mundo em que ninguém consegue simplesmente discordar de você sobre o preço do pimentão.


A democracia com base na liberdade não exige que sejamos amigos. Exige que possamos coexistir sem tratar cada adversário como um inimigo a ser eliminado. E a inteligência não exige que abandonemos nossas convicções. Exige, no mínimo, que não as confundamos com revelações divinas.


Quanto ao pânico, convém lembrar que ele é um péssimo conselheiro, um excelente vendedor e um péssimo companheiro de jantar.


Se alguém insistir em anunciar o fim do mundo durante a sobremesa, talvez a melhor resposta seja perguntar, “em primeiro lugar, você já pagou a conta do plano de assistência funeral?”.


Afinal, se a civilização realmente estiver prestes a desmoronar, seria desagradável descobrir que, além de tudo, teremos de dividir a despesa com alguém que vota diferente.

sábado, 24 de outubro de 2026

O Dois Pesos, Duas Medidas e Duas Asas Angelicais

 


Existe uma categoria muito peculiar de pessoas que poderíamos classificar como Querubins. São indivíduos com alta capacidade intelectual que detém a fórmula da superioridade moral e, desde então, caminham pelo mundo com a expressão de quem acabou de flagrar Deus procurando seu smartphone usando a lanterna do seu próprio smartphone.

E qual o problema desse pessoal? É que eles têm princípios. Muitos princípios, aliás. Princípios para cada dia da semana, cuidadosamente selecionados conforme a opinião política de quem está sendo julgado.

Começa quando o Nantes ofende o Luiz. Fazendo um trocadilho com sua pequena amputação. Nesse momento, os Querubins entram em estado de emergência. Há discursos inflamados, declarações de repúdio, tratados sobre a decadência da civilização e, em casos mais graves, a exigência de que o responsável seja banido da sociedade e condenado a passar a eternidade assistindo aos cursos do ICL.

Mas eis que, algum tempo antes, Nantes sofrera um ataque muito mais grave. Levou uma facada. E o que fizeram os Querubins? Riram. Fizeram piada. Compartilharam memes. Chegaram a dizer que foi tudo mentira: fake! Outros, mais sofisticados, reconheceram que o ataque havia acontecido, mas explicaram que a vítima, afinal, foi culpada pelo atentado.

Ah! O Nantes não morreu. Porém, ficou com sequelas.

Aparentemente, a dignidade humana possui um sistema de assinatura de podcasts. Para alguns, o plano é “Love Premium”, um pacote integral de arrogância e prepotência contendo dezenas de ofensas, humilhações e comentários desagradáveis para usar contra o fascismo. Para os outros, a infernal versão gratuita: o pobre, o pequeno MEI, que inclui regras de empatia, frases de solidariedade, mas leva também o direito a não ser levado a sério - somente em Outubro, de quatro em quatro anos.

Os Querubins também possuem uma extraordinária habilidade para distinguir entre a violência hiperbólica e a violência do bem. Por exemplo, quando movimentos ou lideranças angelicais ocupam prédios públicos ou fazem atos contra decisões judiciais que desfavorecem seus líderes, são atos de resistência, democracia ou manifestação da vontade popular. Agora, se você profere “aquela mulher está grávida”, os Querubins vão lhe cancelar, segundo a novilíngua, por transformar a biologia básica em um crime contra a humanidade.

A moral, nesse ambiente, opera como uma balança desregulada: pesa cada grama de erro dos outros, mas ignora as toneladas de falhas dos seus camaradas.

Nesta semana surgiu o curioso fenômeno da checagem seletiva dos fatos. Chegaram ao nível de criarem um exército de checagem de notícias falsas que noticia falsamente suas checagens.

Acontece, de modo parecido, quando uma acusação desfavorece um adversário, basta um relato indignado nas redes sociais e a convicção de alguém que conhece o primo de alguém que estava virtualmente presente. A verdade está estabelecida: fascista! Agora, quando a acusação atinge sua legião: fake! Além disso, exigem documentos, perícias, testemunhas independentes, registros audiovisuais, reconhecimento internacional e, se possível, uma declaração assinada pelo próprio acusado.

Além do mais, há ainda a solidariedade por conveniência. Os Querubins defendem apaixonadamente o direito de todos serem respeitados, desde que o respeito seja uma Av. Brasil de mão única. Nesse caso, a solidariedade fica sem gasolina, a consciência se tranca na garagem e a coragem moral encalha na mecânica, como as verbas públicas para saúde, educação e segurança pública.

Quando confrontados com a contradição - e isso se dá com frequência, porque os Querubins não possuem senso lógico -, raramente admitem que aplicam critérios diferentes a pessoas diferentes. Preferem explicar que os casos não são comparáveis, que a ciência está equivocada, que a verdade é relativa. E talvez tenham razão, porque, quando o confronto acontece com uma de suas querubinas, a vítima pertence ao grupo certo; em contrapartida, outra mulher qualquer cometeu o imperdoável pecado de ser a vítima errada.

É uma espécie de relativismo moral de conveniência: quando lhes convém, relativismo. Ou seja, lançam mão de um recurso retórico de proteção à turma angelical. Contra os demais (Recua! Fascista, recua…), generalização, banalização, terrorismo e pânico social.

Naturalmente, ninguém está livre de contradições. Eu mesmo desconfio que, se a coerência moral fosse um requisito para a entrada no paraíso, boa parte da humanidade teria de aguardar na fila do SisReg. O problema não é falhar, hesitar ou reconhecer que temos preferências. O problema é transformar nossas preferências em princípios universais e depois fingir surpresa e se vitimizar quando alguém percebe a fraude.

A hipocrisia mais eficiente, afinal, não é aquela que esconde a própria moral. É aquela que usa a moral como uma muleta… Não. Melhor: como uma espada.

O hipócrita não precisa abandonar o discurso da justiça; basta reservar a justiça para os seus e injustiça contra os outros. Não precisa negar a importância da empatia; basta decidir antecipadamente quem merece recebê-la. Não precisa rejeitar a verdade; basta exigir que ela compareça apenas quando não atrapalhar seus interesses celestiais.

E assim os Querubins continuam sua missão civilizatória, indignando-se seletivamente, distribuindo absolvições entre amigos e condenações perpétuas entre adversários. Tudo em nome de princípios nobres, naturalmente. “Estou do lado do bem” - proferem -, “o amor venceu!”. Afinal, seria muito constrangedor admitir que, por trás de tanta virtude proclamada, existe apenas uma preferência tribal sob a égide do virtual general Jones Danones: rachador, assediador e violento.

No fim, talvez a pergunta mais incômoda não seja por que Nantes ofendeu o Luiz amputado, nem por que a ex-mulher de Jones foi atacada por ele. Mas esta: se os nomes fossem trocados, os princípios permaneceriam os mesmos? Se a resposta for não, não estamos diante de um mínimo de ética. Estamos sim diante de um exército de querubins que atualizou a novilíngua (de 1984) em pleno 2026 - e “ai” de quem não segui-la. E, convenhamos, poucas coisas são tão perigosas quanto alguém que confunde a própria lealdade com a justiça e ainda exige aplausos pela descoberta.

sábado, 26 de setembro de 2026

Trasímaco tinha razão

 

No Livro I da República, de Platão, a discussão sobre a justiça rapidamente deixa de ser uma investigação abstrata para assumir uma dimensão muito mais incômoda: a justiça existe por si mesma ou é apenas o nome que os poderosos dão aos próprios interesses?

Em diálogo com Sócrates, o sofista Trasímaco de Calcedônia não se dispõe a investigar o que seja a justiça. Ele não fornece uma resposta objetiva sobre o tema. Na verdade, ele apresenta uma tese. E o faz de maneira provocadora. “Ouve então. Afirmo que a justiça não é outra coisa senão a conveniência do mais forte”. (PLATÃO. A República, Livro I. [338c]. Fundação Calouste Gulbenkian).

Para ele, não há grande mistério. Em cada cidade, aqueles que detêm o poder estabelecem as leis de acordo com os próprios interesses e, consequentemente, como leis justas. A forma do regime pode mudar, mas a lógica permanece: os governantes definem como justo apenas aquilo que lhes convém, ou seja, preservam sua autoridade e favorecem sua posição. Expõe Trasímaco:

“Ora, em cada Estado, não é o governo que detém a força? (Sócrates concorda) [...] Certamente que cada governo estabelece as leis de acordo com a sua conveniência: a democracia, leis democráticas; a monarquia, monárquicas; e os outros, da mesma maneira.” [338d].


Assim sendo, os governados obedecem porque não possuem força suficiente para fazer o contrário - os que tentam, geralmente sucumbem. A justiça, nesse sentido, não seria uma natureza intrínseca do humano, muito menos uma realidade moral independente do poder, mas o resultado de uma relação de forças, de interesses mútuos.

A título de exemplo, peguemos o mundo atual - mas em pequena escala. Pensemos em um condomínio com mais de quinhentas famílias convivendo e dividindo os espaços privativos a eles. Para todos os blocos do condomínio, existe apenas um grande espaço para festas. Como regra, o salão de festas do condomínio não pode ser livre, estar aberto às famílias a qualquer hora. Diante disso, por que precisa-se requerer o uso do espaço com antecedência? Por que existe essa regra para um horário estipulado a um requerente? Justamente, para que não haja famílias se programando no mesmo dia e horário. Nesse caso, mas sem a norma do condomínio, qual família iria pegar o horário para si? Quem possui mais direito que o outro para fazer uso do salão? Resumindo, imaginando tudo civilizadamente, as famílias iriam discutir entre si, apresentar seus argumentos a fim de convencerem-se umas às outras.

Agora, em um mundo em que não possui regras pré-definidas, nem sequer muita ética, como as coisas se dariam nesse caso de conflito de interesses? Não é necessário, portanto, perguntar o que a justiça deveria ser; basta observar como as sociedades efetivamente funcionam. Ora, a família mais justa, com os melhores e sinceros argumentos e mais coerente com a ética, ia merecer realizar seu festejo? Ou, será que outra família mais forte que ela - seja fisicamente, seja por status social -, com maior número de pessoas, iria conseguir o espaço? A resposta mais ideal, embora não diretamente, a esta questão seria, “veja o mundo como ele é”. Isso que parece dizer Trasímaco no diálogo com Sócrates. E, sob essa perspectiva, a própria experiência cotidiana parece fornecer argumentos a seu favor.

Saindo dessa simulação entre vizinhos de condomínio e voltando ao mundo em larga escala, além do mais, afirma Trasímaco - enquanto Sócrates e os demais no diálogo ouvem-no atentamente -, a pessoa justa encontra-se frequentemente em desvantagem diante da injusta.

Não só o interlocutor de Sócrates, mas a grande maioria do povo grego pensava dessa forma. Isso pode ser demonstrado que quando duas pessoas fazem negócios, aquela que age injustamente pode obter vantagens que a pessoa justa, por escrúpulo, recusa. Quando pagam impostos, o justo cumpre suas obrigações, enquanto o injusto procura escapar delas, obtendo maiores vantagens econômicas. Uns jogam as regras do jogo visando um mundo de convivência razoável para com a vizinhança; outros preferem burlá-la, se lixando para o fim que a sociedade irá tomar. Quando ocupam cargos públicos, o justo pode sacrificar seus próprios interesses em nome da função, do coletivo, ao passo que o injusto transforma o cargo em instrumento de vantagem, enriquecimento pessoal.

A injustiça, levada à sua forma mais perfeita, tampouco se apresenta, necessariamente, como crime. Seu exemplo máximo é o tirano: aquele que conquista uma cidade inteira, apodera-se de bens alheios, elimina ou escraviza seus adversários e, apesar disso, é celebrado como poderoso, bem-sucedido e até feliz. O problema, então, torna-se ainda mais perturbador: se o injusto consegue triunfar em escala suficiente, talvez deixe de ser chamado de injusto. Isto é, o que era eticamente errado, naturalmente, passa a ser o certo. Expõe Trasímaco, "Assim, ó Sócrates, a injustiça, quando chega a um certo ponto, é mais potente, mais livre e mais despótica do que a justiça." [344c].

É justamente aí que a crítica de Trasímaco atinge sua dimensão mais profunda, e não menos radical. Diz ele, agora apontando para uma espécie de desvio cognitivo-comportamental daqueles que se propagam justos, “É que aqueles que criticam a injustiça não a criticam por recearem praticá-la, mas por temerem sofrê-la.” [344c]. Isto é, que as pessoas não condenariam a injustiça porque ela é intrinsecamente má, mas porque temem ser suas vítimas. O que chamamos de justiça seria, nessa perspectiva, menos uma exigência moral do que um pacto entre os fracos para limitar aqueles que possuem força suficiente para tomar aquilo que desejam. A justiça, nesse caso - eticamente falando -, seria uma espécie de trégua social. Um acordo produzido pela impotência daqueles que não conseguem impor sua própria vontade.

O argumento é desconfortável porque toca em uma possibilidade que a filosofia política jamais deixou de enfrentar: e se aquilo que chamamos de ética estiver, em alguma medida, ligado às relações de poder? E se as normas que parecem universais forem, em determinadas circunstâncias, apenas a linguagem por meio da qual grupos dominantes legitimam seus próprios interesses?

Trasímaco formula, assim, uma suspeita que ultrapassa o próprio diálogo de Platão: a de que o poder não apenas produz leis, mas também pode produzir a própria definição do que conta como justiça. É uma situação que, atualmente, qualquer indivíduo anseia abolir: seja um déspota, seja um pequeno grupo do poder executivo, legislativo ou do judiciário, nenhuma família ou indivíduo sequer desejaria viver sob tais circunstâncias. Porque, em hipótese, em caso de abuso quem irá fiscalizar esse suposto poder? Quem irá punir esse suposto déspota? Quem se arriscaria em criticar ou discordar de tal ou tal lei? Os próprios tiranos iriam julgar-se a si mesmos?

É nesse ponto que sua tese deixa de ser uma simples defesa da injustiça e se transforma em uma crítica da ordem política. Não se trata apenas de afirmar que alguns indivíduos são maldosos injustos, e do outro lado sofridos justos, mas de perguntar se a própria sociedade não pode estruturar-se de modo que a injustiça, quando exercida pelos suficientemente poderosos, adquira a aparência de legitimidade.

Essa perspectiva ajuda a compreender também a política imperial de Atenas. Em sua relação com cidades mais fracas, a questão nem sempre era saber o que seria justo em si mesmo, mas que Atenas possuía força suficiente para impor aos demais. Este trecho do Livro I, portanto, parece dar à provocação de Trasímaco uma dimensão histórica: entre os Estados, assim como entre os indivíduos, a linguagem da justiça pode conviver com relações de força.

Talvez seja justamente por isso que Trasímaco continue sendo filosoficamente o sofista que gera incômodo. Ele nos obriga a formular uma pergunta que Platão tentará responder ao longo de toda a obra: a justiça é realmente um bem em si mesma ou é apenas o nome que damos àquilo que conseguimos impor — ou àquilo ao qual somos obrigados a aceitar?

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Se a vida é um sonho, o problema é estar acordado.

 

Tenho começado a desconfiar que dormir é uma atividade intelectualmente superior a viver. Digo isso, porque, é apenas dormindo que se pode sonhar, né?

No sonho, por exemplo, ninguém exige coerência. Você pode estar sendo entrevistado pelo falecido Jô Soares na estação do metrô e, cinco minutos depois, se deparar com um grupo de cavaleiros templários atacando pombos. E tudo parece perfeitamente maravilhoso. Você aceita a situação com a serenidade de quem compreendeu alguma coisa sobre a geopolítica atual no ICL.

Na vigília, não. Na vigília, tudo precisa fazer sentido. Você precisa pagar contas, votar no PT, ouvir Oruam, cumprir prazos, socializar e demonstrar alguma estabilidade emocional enquanto o motorista não para o ônibus quando você faz sinal na rua.

Em contrapartida, o sonho é democrático. Você pode entrar no avião do Vorcaro sem saber para onde ele vai, descobrir que o piloto é um dos filhos do Bolsonaro e, ainda assim, continuar a viagem como se tivesse apenas retornando de férias com amigos; você também pode acordar em um mundo comunista completamente desprovido de desigualdade: todos vivem igualmente na rua e o objeto mais valioso deste mundo é uma galinha. O cérebro simplesmente informa: “É assim mesmo”. E nós aceitamos.

Agora, experimente fazer isso acordado! Entre em um colóquio de Educação ou Filosofia e anuncie o IDH de Israel, que é considerado muito alto. Em menos de três minutos você estará fora do estabelecimento sob vaias e empurrões.

Talvez seja essa a grande vantagem do sonho: ninguém fica tentando verificar os fatos, se esperneando com palavras de ordem e tentando cancelar até o oxigênio - por possuir “gênio” em um dos radicais da palavra.

A vida desperta, ao contrário, tornou-se uma espécie de pesadelo com excelente conexão de internet. Violência gratuita, assalto, tiroteio, corrupção, pandemia, guerra, vídeos de quinze segundos e especialistas instantâneos, com um pessoal discutindo política sem possuir ética alguma de um lado e, do outro, um pessoal como se tivessem sido pessoalmente nomeadas pelo Espírito Santo para fiscalizar a humanidade. Tudo precisa ser reduzido a duas opções: esquerda ou direita. Como se o universo fosse uma porta giratória de banco.

Você lê uma notícia normal sobre a economia atual e, antes de terminar o segundo parágrafo, alguém já explicou, em trinta segundos, que aquilo aconteceu por causa da esquerda. Ou da direita. E é atemporal! Algo errado feito há 25 anos cai no colo de algum agente de hoje em dia como um fato inédito.

Às vezes tenho a impressão de que, se um asteroide for anunciado que vai atingir a Terra amanhã, haverá imediatamente alguém no TikTok dizendo:

— Isso é claramente culpa da extrema-direita.
E outro:
— Não. Isso é claramente coisa de comunista.
Enquanto isso, o apolítico asteróide vem, serenamente, destruir o planeta. Diante disso, nós:
Olhe para cima;
Não olhe para cima;
Olhe sim;
Não!
Não será mais um asteróide. Pelo contrário, será um vírus:
Fique em casa;
Não tome vacina;
Tome sim;
Não!

E então existem, na vigília, na prática mesmo, o YouTube, o TikTok e toda essa maravilhosa indústria de transformar qualquer ser humano em comentarista de absolutamente tudo - e não só!, há sempre o indignado que se propõe a resolver os problemas da humanidade em um espaço para 280 caracteres ou em um vídeo de poucos segundos. Antigamente, uma pessoa precisava ter, ao menos, anos de reflexão, de escrita, discussão. Hoje uma câmera frontal e Internet. Basta ter qualquer coisa para dizer.

O resultado é uma espécie de vigília virtual: estamos acordados, mas ninguém parece exatamente presente. Talvez por isso o sonho esteja tão interessante.

Primeiramente, no sonho, posso cometer uma quantidade extraordinária de erros sem consequências jurídicas - tipo desviar 10 reais de cada aposentado (eles nem darão conta mesmo). Posso tomar decisões absurdas, entrar em lugares impossíveis, influenciar promotores, supremos juízes e, se tudo der errado, simplesmente acordo.

Segundo, não há boleto! É uma sociedade perfeita!, pois não há grupo de WhatsApp - afinal, quem sonharia com o WhatsApp? Não há atualização obrigatória de aplicativo ou de sistema operacional; não é preciso antivírus (e nem de camisinha); muito menos sair em um lindo e ensolarado domingo para votar. Não!

Depois, não há ninguém dizendo, insistentemente, “precisamos dialogar”, “precisamos normalizar”. Você não ouvirá mais palavras como “resistência” - somente engenheiros, eletricistas ou de áreas similares; “todas, todos e todes” - sim, sempre proferem as três palavras juntas em começo de qualquer fala; você não lerá mais “interseccionalidade” - puro neologismo; não ouvirá falar em “corpos” de maneira intelectual, acadêmica - mais parece que todo esse pessoal trabalha no IML, no cemitério ou em funerária.

Além do mais, enfim, mesmo quando se é um pesadelo, existe uma certa honestidade nele, ética. O monstro quer me devorar e não finge que está preocupado com a minha condição financeira ou se sou contra ou a favor de Bolsa Família.

A vigília, em contrapartida, é mais sofisticada. Ela nos devora com mensagens e propagandas político-ideológicas; com alertas sobre o clima da misantropia, além das chamadas de golpistas bandidos no celular.

Ainda assim, além de toda essa chatice, existe uma coisa que preserva a dignidade e a felicidade plena na vida acordada: Flamengo. Não porque o Flamengo torne a realidade mais racional — Deus nos livre de exigir tanto de um clube de futebol —, mas porque há algo reconfortante na sua capacidade de transformar noventa minutos em uma experiência maravilhosamente metafísica.

Você começa o jogo acreditando que está assistindo futebol. Termina questionando a existência, a causalidade, o livre-arbítrio e suas próprias escolhas; passa a entender sobre estratégias, medicina, nutrição, física, química, matemática, economia e história... É talvez a única área da vigília em que o absurdo continua funcionando com método.

Por isso, ultimamente, tenho pensado que dormir não é exatamente fugir da realidade. Talvez seja apenas mudar para uma realidade onde as regras são honestas e a realidade é mais aprazível. Porque, no sonho, tudo é absurdo e ninguém esconde isso. Já na vigília, tudo é uma hipérbole absurda e ainda chamamos de “normal”.

E, sinceramente, entre ter aulas de Jiu-Jitsu com Aristóteles na fila da farmácia por um lado e, por outro, passar mais de três horas lendo discussões políticas na internet, começo a considerar seriamente a hipótese de que a vida/realidade acontece, definitivamente, durante o sono.

Boa noite!

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Do Livro 1 da Metafísica até o supermercado


Há um bom tempo comecei a ler a Metafísica de Aristóteles. Fi-lo por mim mesmo. Já são anos de leitura - e a tentativa de compreender o primeiro parágrafo. 

Essa insistência ocorre até os dias atuais. No entanto, graças à faculdade, já consigo avançar até o terceiro parágrafo - isso sob bastante interrupção de ordem cognitiva e de ordem natural também.

Pois bem, semana passada, estava lá, eu, inquieto, lendo o Livro I da Metafísica do querido filósofo. Algumas pausas para reflexão - tipo, “não entendi esta frase” -; algumas outras pausas por conta de um casal de bem-te-vis que reside em frente à minha janela. Enquanto eles discutiam quem ia à caça para alimentar seu filhote, eu discutia comigo mesmo: putz! um pãozinho agora ia bem…


Ok! Voltei-me à leitura. Porém, o fazia no mesmo rito de décadas atrás, me destraindo com algo e, momentos depois, retomando à obra. Eis que diante de muito esforço consegui ler algo que dizia o filósofo "[980b 25] Assim, os outros animais vivem com as aparências e com as recordações, mas compartilham pouco da experiência... (tive nova distração com o casal de bem-te-vis); o gênero dos homens, por sua vez, vive também com técnica e raciocínios... (interrupção para lembrar que menos de 10% dos humanos são assim).


Desci mais um parágrafo e parei novamente… Quando dei por mim, estava no corredor de laticínios escolhendo atum enlatado ao óleo. Não havia portal mágico, nem viagem no tempo, nem sequer feitiço ou mera imaginação. Era apenas o cérebro humano, essa máquina brilhante de procrastinação sofisticada - e esfomeada - que levou meus pés e pernas caminharem até lá. O cérebro escolhe o que há de mais importante e urgente no dia e, quietamente, diz: Agora não! Tem coisa melhor para fazer, como excluir aplicativos inúteis do smartphone.


Você, leitor, deve estar pensando (ou procrastinando como eu), “ler deve ser muito chato para você. Definitivamente, você não tem paciência com leituras”. No entanto, não é esse o caso. Sempre tive vontade de ler. A vontade é superior, porque se eu não a tivesse, aí sim seria justo dizer que é chato. Por exemplo, Gosto tanto que tenho até uma pequena biblioteca em casa! — não daquelas decorativas, com livros marxistas que nunca foram abertos, mas uma coleção honesta de obras que me olham com a expectativa de um flamenguista numa cobrança de pênalti do seu time. Outro paradigma conta com meu falecido pai. Ele vendia livros, além de ler muito. Então cresci cercado por enciclopédias, dicionários, jornais e revistas. A leitura era inevitável, quase genética. Assim sendo, é perceptível, por ora, saber que o problema não é o caso de eu não gostar de leituras.


Puxa, como é bom dialogar com autores, viajar mentalmente por mundos e ideias — principalmente com a Filosofia. Mas há aqui um detalhe técnico: sou impaciente, muito inquieto, hiperativo. Meu cérebro não funciona em modo "leitura densa" diante de 3 horas ininterruptas de percepção sensível visual - princpalmente diante de telas iluminadas (mesmo que seja um Kindle). Meu cérebrbo funciona em modo Twitter existencial, com seus 280 caracteres - acredito que boa parcela do mundo funciona dessa maneira atualmente.


Diante disso, com costumaz percepção filosófica, apresentarei alguns paradoxos, apenas para se ter ideia de como é chato se prestar a ler uma obra, que o autor levou décadas para excrevê-la, mas que em 5 minutos você a deixa de lado por qualquer distração. Primeiro, como eu posso declarar gostar tanto de ler, sendo que eu não consigo passar de um parágrafo ou capítulo de uma leitura fácil e agradavél? Tipo, adiquiri o livro caro, arrumei um espaço tranquilo para lê-lo, mas passados 5 minutos eu prefiri deixar a leitura para ir arear uma panela?


Ou seja, como pode a Metafísica de Aristóteles — um assunto caríssimo, pelo qual dedicaria toda a vida — perder a batalha para a vontade súbita de fazer embaixadinhas com objetos avulsos? Como pode um pensamento aleatório sobre “suco de tomate” ser mais interessante que os modos de conhecimentos dos animais - incluindo o mosquito da dengue - ou que as características das quatro causas de tudo o que existe?


A resposta a seguir não se refere a estas antigas questões supracitadas. Na verdade é até uma resposta simples e tão deprimente quanto arear panela. O cérebro humano é um mestre em evitar o difícil escolhendo o trivial; largar o pesado e se agarrar ao mais frágil. Será que é mais fácil ir ao supermercado comprar batata rostie do que enfrentar a densidade de uma obra que exige paciência, foco e a renúncia temporária do ego? 


Nossa… Que constatação! Será que o Guanabara, além de seu propósito como supermercados, soa como uma zona de conforto filosófico? Uma espécie de Jardim de Epicuro ou de Aristóteles?


Assim eu me encontrava: prestes a abrir uma das obras mais icônicas da história da humanidade, e em vez disso estava comparando preços de “caldo de ossos”. Não foi um acidente. Foi uma fuga calculada da mente, burlando para não encarar um titã grego encarnado num livro pesado. Sim! Estudar pode ser similar a dor. Só que o nosso querido cérebro, em sua sabedoria evolutiva, decidiu que era mais seguro enfrentar os preços do supermercado do que encarar a Metafísica. 


Afinal, no supermercado ninguém pergunta "o que é a Substância?” ou “quem gerou o primeiro Ser?" No supermercado, o Ser é claramente definido: é o que está em promoção no clube do assinante! E a única pergunta coerente e mais objetiva é "cartão ou pix, senhor?". "No crébito", respondo.


O mais engraçado — ou trágico, dependendo do do ponto de vista — é que um lanche durante uma leitura é importante. Comer um sanduíche de presunto enquanto se lê o Diário de Anne Frank é bem legal... Mas quando o lanche se torna o evento principal e a leitura vira o intervalo entre as compras, algo deu errado no fim último do Ser.


Aristóteles diria que isso é um exemplo perfeito de akrasia — agir contra o próprio julgamento, contra si próprio. Ora, eu sei que devo ler, sei que a leitura é importante, porém, lá vou eu, novamente, ao supermercado, porque o pão com mortadela é mais imediato, mais tangível, mais... palatável do que a questão sobre a Substância. 


Enfim, assim, entre uma compra e outra, entre uma página e outra, percebo que a verdadeira metafísica não está nos livros, mas na capacidade humana de transformar uma tarde de leitura em uma expedição gastronômica reflexiva. Aristóteles mesmo acreditava que se pensava melhor passeando - eis os peripatéticos! Talvez eu tenha herdado esse DNA a respeito do conhecimento aliado à grande vontade de fazer um lanche.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A Metafísica de Alzheimer

 
Alzheimer

Sempre achei curioso que a filosofia nos ensine a enfrentar a morte com serenidade, mas não tenha produzido um manual convincente sobre o que fazer quando o cérebro resolve se aposentar no meio do percurso árduo e trabalhoso diante de toneladas de papéis - ou bytes - de tratados, ensaios e análises.


Meu medo nunca foi morrer. Morrer é quase elegante - diz aquele que tem intimidade com as obras de Heidegger. Porque a morte é definitiva. Possui um certo rigor lógico, como em Hegel. 


Entretanto, antes disso, meu medo sempre foi o Alzheimer. Não! Não o neuropsiquiatra alemão Alois Alzheimer, que ao menos teve a decência de descobrir alguma coisa - bem diferente de Heidegger, Hegel, Kant ou Schweinsteiger. Meu temor, em suma, refere-se à doença. Aquela que transforma uma biblioteca inteira de Filosofia e Humanidades em um terreno improdutivo assentado pelo Boulos.


Passei quarenta anos lendo filosofia. Quarenta anos!


Meus colegas, que ascenderam socialmente - sim! Alguns já estão morando no Grajaú, outros no Catete -, aprendiam criptomoedas, mídias sociais ou a cantar funk, enquanto eu decorava distinções entre antinomias, a diferença entre potência e ato e perdia tardes inteiras com Schopenhauer - outro alemão! -, conversando “Sobre a quadrúplice raiz do princípio de razão suficiente”


E não só! 

“Li toda a Metafísica, a Física e o De Anima, de Aristóteles.”

“Li a Crítica da Razão Pura, de Kant”.

“Li Ser e  Tempo, de Heidegger”.

“Li estes livros inteiros!”


É uma frase que não impressiona ninguém, porque as únicas pessoas que sabem o que isso significa também perderam a capacidade de sentir qualquer alegria na vida.


O problema é imaginar que, um belo dia, eu acorde, olhe para a estante e pense:

— "Quem escreveu esse livro aqui?"

Alguém responde:

— "Oruam de Nepomuceno."

E eu retruco:

— "Ah, sim... aquele filósofo pré-socrático!"


(Isso me aterroriza).


Não por vaidade intelectual. A essa altura, já aceitei que metade do que li provavelmente entendi errado e a outra metade fingi que entendi. O verdadeiro horror é outro!


Imagine esquecer a “Crítica da Razão Pura”, mas lembrar perfeitamente de um comentário aleatório no Twitter dizendo “Lula foi o maior presidente da história, porque acabou com a fome e erradicou a miséria no Brasil” e essa ser a única frase preservada pela minha memória. Quarenta anos de metafísica substituídos por um comentário - sempre escrito depois das 12h - por alguém cuja foto de perfil é do Goku. Isso não é uma doença. É uma tratado pessimista sobre a condição humana. Sempre dizem que o cérebro guarda aquilo que tem maior carga emocional. Putz! Estou ferrado...


Porque, lendo Aristóteles - que não era alemão, mas se o fosse, não faria diferença alguma - nunca senti tanta emoção quanto a uma discussão entre uma velha jornalista e uma jovem influencer brigando por causa de um meme sobre feminismo.


Talvez, no futuro, meu neurologista pergunte:

— "O senhor sabe quem foi Heidegger?"

E eu responda:

— "Não... mas lembro que um sujeito chamado azwhart321 escreveu um fio de cinquenta postagens provando que Nietzsche, outro alemão, era comunista".


O médico anota:

"Memória episódica preservada. Infelizmente." Entretanto, há outro pesadelo. Esquecer todos os filósofos, mas conservar apenas as notas de rodapé. Imagine lembrar exatamente que a Edições Loyola coloca determinada passagem em [980a 21] sem fazer a menor ideia de quem era Aristóteles. É como lembrar o número da sua vaga no estacionamento e descobrir que você sempre andou de ônibus. Ou pior! Passaria os dias defendendo uma posição cuja tese desapareceu. Pensando bem, talvez isso já descreva alguns congressos. Também temo esquecer a filosofia alemã - não o suficiente para deixar de sofrer.


O suficiente para lembrar apenas palavras soltas. "Geworfenheit." "Vorhandenheit." "Zuhandenheit." Sem qualquer significado. Seria como ser assombrado por móveis da IKEA ou ser fotografado pelas câmeras Tekpix. E existe uma ironia particularmente cruel. 


Aristóteles dizia que todos os homens desejam naturalmente conhecer [980a 21]. Imagine desejar conhecer e… esquecer, cinco minutos depois, o que desejava conhecer. É uma tragédia grega escrita por Woody Allen.


Às vezes olho para minha biblioteca e faço um cálculo mórbido. Se um dia eu esquecer tudo, quantos quilos de papel restarão representando aquilo que um dia fui? Talvez a identidade humana seja apenas isso: uma pilha de livros esperando que alguém ainda saiba por que os comprou. No fundo, o medo não é perder Aristóteles, nem Kant, Heidegger e Hegel. É perder a pessoa que levou quarenta anos para encontrá-los. Porque livros podem ser comprados outra vez. A memória, infelizmente, não possui edição revisada. Embora eu admita que existe uma possibilidade ainda mais assustadora: depois de esquecer toda a filosofia, eu finalmente compreenda o Númeno kantiano ou o Dasein heideggeriano.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Justiça requer tempo: eis o julgamento na era da celeridade digital



Na tradição filosófica clássica, especialmente em Aristóteles, a justiça não é tratada como um ato imediato ou impulsivo, mas como uma virtude que exige deliberação racional e equilíbrio. Este tema pode ser observado em três âmbitos: pessoal, social e no poder público. No entanto, será jogada luz apenas na esfera pessoal e social - cabendo também como reflexão para a esfera superior do poder público.

Primeiramente, não se pode ignorar o fato de que a capacidade de julgar corretamente em situações concretas - prudência - constitui elemento central desse processo, pois permite ao agente ponderar circunstâncias particulares e agir de modo adequado ao bem. Ademais, a ética aristotélica compreende a virtude como hábito - que é uma disposição a ser adquirida ao longo do tempo -, o que implica que a formação moral depende de um processo contínuo, de experiências concretas, e não de reações instantâneas, impulsivas. Todavia, no momento presente, especialmente com o advento da Internet e das redes sociais, observa-se uma celeridade dos julgamentos sociais, frequentemente desvinculados desse tempo necessário à reflexão ética. 


Nesse contexto, sustenta-se que a celeridade dos julgamentos na esfera digital compromete a própria ideia de justiça, pois elimina o tempo necessário ao arrependimento e à deliberação prudencial, transformando o juízo moral em mera reação impulsiva.


Em primeiro lugar, a justiça em geral pressupõe tempo para a ocorrência do arrependimento e da prudência - isto é, sabedoria prática. Isso porque a prudência não opera de forma abstrata, mas se orienta pelas circunstâncias particulares, práxis, exigindo análise cuidadosa de cada situação concreta. Sem esse intervalo temporal, não há espaço para a revisão de ações, tampouco para a integração adequada das paixões à razão. Assim, quando o julgamento ocorre de forma instantânea, como nas dinâmicas virais das redes sociais, suprime-se a possibilidade de correção moral e de aperfeiçoamento ético, reduzindo a justiça a um ato completamente precipitado. 


Além disso, a ética aristotélica concebe a virtude como um meio-termo entre extremos - como, por exemplo, o equilíbrio entre a apatia e a agressividade -, o que implica moderação e equilíbrio. A ausência de tempo, nesse caso, favorece o predomínio de excessos, como a ira desmedida, que substitui o julgamento racional por reações emocionais sem qualquer virtude. Nesse cenário, o que se denomina “justiça” passa a assumir caráter punitivo e vingativo, afastando-se de sua finalidade ética: realização do bem e da excelência moral. Logo, a celeridade não apenas distorce o processo de julgamento, mas também corrompe sua finalidade, convertendo-o em instrumento de ostracismo imediato e de vingança, não de transformação moral.


Dessa forma, conclui-se que a justiça, para manter seu caráter ético, requer necessariamente tempo para reflexão, arrependimento de uma das partes e deliberação prudencial. A lógica da celeridade digital, ao eliminar esse intervalo, inviabiliza a formação da virtude e compromete a própria ideia de julgamento pleno. Portanto, preservar o tempo, literalmente, como condição da ética é indispensável para evitar que a justiça se degrade em mera reação coletiva, impulsiva, desprovida de racionalidade e finalidade moral.



Bibliografia:


A democracia e a libebrdade acabaram; agora estamos todos ocupados odiando uns aos outros

Uma amiga me relatou algumas situações envolvendo disputas político-ideológicas nas redes sociais e manifestações nas ruas. Depois de descre...