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terça-feira, 27 de outubro de 2026

A democracia e a libebrdade acabaram; agora estamos todos ocupados odiando uns aos outros



Uma amiga me relatou algumas situações envolvendo disputas político-ideológicas nas redes sociais e manifestações nas ruas. Depois de descrever o espetáculo, resumiu sua impressão em poucas palavras: está constrangedor, decepcionante e vergonhoso até mesmo admitir em quem se vota. Não porque o voto seja um segredo de Estado, mas porque, aparentemente, declarar preferência por um candidato se tornou uma espécie de confissão psiquiátrica, seguida de julgamento moral e, em casos mais graves, de um linchamento coletivo.


Antigamente, perguntavam se a pessoa gostava de forró, se preferia açúcar ou adoçante, se preferia Silvio Santos ou Faustão. Hoje, antes de servirem um risole, as pessoas precisam descobrir em quem você votou. É uma questão de segurança. Afinal, ninguém quer servir a um fascista ou tomar um capuccino com um comunista, especialmente porque ambos podem estar escondidos dentro de alguém aparentemente normal, que paga impostos, toma banho nu e antes de sair diz bom-dia ao porteiro. São indícios preocupantes de dissimulação.


O cidadão já não pode simplesmente discordar. Precisa discordar com a expressão facial apropriada, a indignação regulamentar e o repertório de insultos aprovado pelo departamento de ressentimento de sua bolha política. Uma opinião moderada, hoje, é recebida com a mesma desconfiança que um homem entrando numa reunião de alcoólicos anônimos com uma garrafa de uísque e dizendo que veio apenas observar a metodologia.


O mais fascinante é a transformação da política numa espécie de religião sem a vantagem do silêncio nos templos e da vida eterna pós-morte. Cada grupo possui seus santos, seus demônios, suas escrituras sagradas, seus profetas de YouTube, X e TikTok e seus hereges. A diferença é que, nas religiões tradicionais, pelo menos existe a possibilidade de morrer e descobrir que você estava errado. Nas redes sociais, não. Você morre errado, seus inimigos fazem uma montagem com sua pior fotografia e o algoritmo providencia a ressurreição da sua vergonha a cada seis meses.


Convenhamos, já está insuportável o pânico social fabricado por militantes e grupos político-ideológicos; o desespero, os gritos e o fanatismo; o tribalismo das ruas, as brigas familiares e as amizades desfeitas em nome de disputas políticas. Os dilemas morais artificiais, produzidos e alimentados por robôs, já bastam! Também é incompreensível o ódio abstrato dirigido a partidos ou a pessoas com quem jamais se trocou um olhar.


Pergunta: você já percebeu que existe uma celeridade e um empenho hercúleo para mobilizar, dividir, transformar adversários em inimigos e manter indivíduos permanentemente submetidos ao terrorismo eleitoral, sob à sensação de ameaça? Há eficiência para gerar pânico, não precisando ser espontâneos para produzir efeitos reais. Isso, quando fabricado ou deliberadamente amplificado, pode converter-se em instrumento de poder - e isso ficou bem claro nas últimas eleições. E, convenhamos, poucos instrumentos são tão eficientes quanto convencer alguém de que o mundo acabará na próxima terça-feira, desde que o candidato adversário vença a eleição. Na quarta-feira, caso o mundo continue inconvenientemente no mesmo lugar, basta anunciar que o apocalipse foi adiado por queda de energia, mas que ainda está pairando sobre nós.


A indústria da indignação descobriu uma fonte inesgotável de energia: pessoas que precisam estar furiosas o tempo inteiro. O petróleo acaba, as florestas desaparecem, a água potável vira artigo de luxo, mas a indignação política é renovável. Uma publicação mal interpretada produz raiva; a raiva produz compartilhamentos; os compartilhamentos produzem audiência; a audiência produz dinheiro; o dinheiro compra votos e, depois de eleito, o poder corrompe o judiciário. No fim, alguém compra um apartamento em Miami explicando que está salvando a democracia, enquanto você perde seis horas de sono discutindo com um desconhecido cujo nome parece uma senha de Wi-Fi e um avatar do Dragon Ball Z.


É uma forma de exploração inédita e bastante elegante. Nas fábricas do século XIX, o trabalhador entregava a força dos braços. Na economia contemporânea da indignação, entrega a atenção, a paz de espírito e, ocasionalmente, o relacionamento com a própria mãe. O produto final é o mesmo: alguém trabalha muito, alguém lucra o suficiente para se manter e alguém termina o dia exausto sem saber exatamente o que produziu.


Os robôs, naturalmente, tornaram tudo mais sofisticado. Antes, para destruir uma amizade, era necessário um mal-entendido muito grande, uma traição ou uma dívida não paga. Agora, basta um perfil sem fotografia, criado há três semanas, publicar que o seu amigo é moralmente responsável pela destruição da civilização ocidental desde o império romano. O amigo compartilha a publicação. Você compartilha uma refutação. Um terceiro publica um vídeo de 22 segundos com música de suspense. Em duas horas, a amizade está morta, a família dividida e a civilização ocidental continua funcionando, embora o grupo de WhatsApp esteja sob intervenção humanitária de um senhor cuja associação fonética lembra a banda punk Ramones.


Há algo de particularmente cômico na autoridade moral dessas criaturas digitais. O sujeito não sabe distinguir o Congresso do Supremo Tribunal Federal, acredita que a inflação é uma conspiração internacional e precisa consultar o “Gugo” para descobrir a capital de um estado brasileiro. Entretanto, quando o assunto é a degeneração moral da humanidade, fala com a segurança de um profeta que acaba de receber as tábuas da lei diretamente de Deus — por mensagem encaminhada.


A cada ano que se passa, as coisas ficam sempre urgentes. Tudo é urgente. A democracia está acabando, a liberdade está acabando, a família está acabando, a religião “foi pro saco”, o país está sendo destruído, “vai todo mundo se foder”. Curiosamente, nunca acaba a conexão com a internet, o funcionamento do aplicativo de mensagens ou a disposição para gravar mais um vídeo denunciando o fim das coisas. O sujeito anuncia o colapso da civilização enquanto escolhe um filtro para melhorar a iluminação do rosto. É o equivalente filosófico de gritar “o avião está caindo!” enquanto procura o melhor ângulo para uma selfie no corredor da aeronave.


O pânico também tem uma vantagem comercial: dispensa argumentos. Quem está apavorado não precisa compreender; precisa obedecer. Não precisa investigar; precisa compartilhar. Não precisa distinguir uma evidência de uma insinuação; precisa descobrir de que lado está o inimigo. Depois disso há que se refletir: estamos vivendo entre humanos ou os robôs humanóides já estão entre nós e não notamos ainda? A dúvida, que durante séculos foi considerada uma das condições do pensamento¹, tornou-se uma espécie de traição. A dúvida hiperbólica de Descartes atualmente seria um crime contra a humanidade. Pensar com cautela é suspeito. Pedir fontes é uma provocação. Reconhecer que o adversário tem razão em alguma questão é praticamente solicitar sua execução sumária.

¹ Descartes, Na Segunda Meditação, percebe que, mesmo que esteja sendo enganado, não pode duvidar de sua existência enquanto está pensando: para ser enganado, é necessário existir enquanto sujeito do pensamento.

A política, que deveria ser uma atividade humana destinada a organizar a vida coletiva, converte-se assim num campeonato de pureza moral. Cada lado acredita representar a linha tênue entre a humanidade e a barbárie. Nenhum se considera apenas uma parcela da sociedade com interesses, propostas e limitações. Todos são a própria encarnação do Bem em sua plenitude, enquanto o adversário é uma mistura de criminoso, ignorante, psicopata e ameaça metafísica… Ou melhor... resumindo: o adversário sempre será um fascista.


É uma coincidência extraordinária: bilhões de pessoas, distribuídas por diferentes países, culturas e classes sociais, conseguiram chegar à mesma conclusão sobre si mesmas. Todos são modestamente justos; todos os seus adversários são monstros a serem abatidos. Se a humanidade realmente fosse tão virtuosa quanto sugere o conjunto de suas publicações políticas, os filósofos teriam encerrado suas atividades há séculos, os psicólogos estariam desempregados e os tribunais precisariam funcionar apenas como museus de uma época em que ainda existiam pessoas ruins.


Mas o tribalismo não exige coerência. Exige lealdade². A mesma conduta que, praticada pelo adversário, comprova a decadência moral do país, quando praticada pelo aliado, torna-se uma reação compreensível às circunstâncias. A agressividade do outro é intolerância; a nossa é resistência. A mentira do outro é manipulação; a nossa é uma simplificação necessária. O autoritarismo do outro é uma ameaça à democracia; o nosso é uma medida excepcional para protegê-la.

² George Orwell, sobre o modo como a identificação com uma causa política pode comprometer a avaliação imparcial dos fatos e dos julgamentos morais. ORWELL, George. Notes on Nationalism. 1945.

A moral, nesse sistema, funciona como um daqueles guarda-chuvas baratos que só abrem quando não está chovendo. Ela não orienta a conduta; acompanha a conveniência. Não existe propriamente um princípio moral, mas uma equipe de advogados trabalhando em tempo integral para absolver o próprio lado. Se fosse possível transformar essa capacidade de racionalização em energia elétrica, o Brasil finalmente resolveria seus problemas energéticos e ainda exportaria excedentes para países vizinhos.


Enquanto isso, a vida real permanece abandonada do lado de fora da tela. O aluguel vence, o salário não acompanha o custo de vida, os hospitais continuam precisando de recursos, a merda da fila do SisReg não anda, a educação necessita ser educada e o transporte público permanece sendo uma experiência alucinógena aos limites da mente humana. Mas nada disso parece tão interessante quanto descobrir que um desconhecido curtiu uma publicação politicamente suspeita.


É compreensível que a política desperte paixões. Decisões políticas afetam direitos, liberdades, oportunidades e condições materiais de existência. Há conflitos legítimos, injustiças reais e divergências que não podem ser resolvidas com um abraço coletivo e uma fotografia fazendo sinal de vitória diante do espelho do elevador do condomínio. O problema não é discordar intensamente. É transformar a discordância numa licença para abandonar o pensamento, o senso lógico, a honestidade intelectual e o respeito elementar pelos outros.


Também não se trata de exigir neutralidade diante de toda questão moral ou política. Existem situações em que tomar posição é necessário, sim. Mas tomar posição não exige transformar cada conversa num tribunal revolucionário, cada divergência numa ameaça existencial e cada eleição numa batalha entre os Cavaleiros Templários contra os Cavaleiros que Dizem Ni. A realidade já é suficientemente complicada sem que precisemos contratar roteiristas de catástrofes para torná-la insuportável.


Talvez a pergunta mais incômoda seja esta: quem se beneficia quando pessoas comuns passam a odiar umas às outras com uma intensidade que jamais dedicariam a examinar os próprios problemas? Quem lucra quando a ansiedade substitui a reflexão, quando o ressentimento ocupa o lugar do debate e quando a identidade política se torna mais importante do que a própria experiência de viver?


Certamente não é o sujeito que deixa de falar com o irmão. Tampouco é a mulher que perde uma amizade de vinte anos porque alguém publicou um “reels” sobre uma passagem bíblica. Muito menos o cidadão que passa a dormir mal, convencido de que a sobrevivência da espécie depende de convencer um estranho no Facebook de que ele está errado.


Essas pessoas não estão necessariamente participando de uma grande batalha histórica. Às vezes, estão apenas alimentando uma máquina que aprendeu a monetizar sua infelicidade³.

³ Lanier não demonstra que toda discussão política nas redes seja artificial ou que toda indignação seja manipulada. Sua crítica se dirige aos incentivos e mecanismos de plataformas cujo modelo de negócio favorece a modificação do comportamento e o engajamento. LANIER, Jaron. Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais. Tradução de Bruno Casotti. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018. 192 p. ISBN 978-85-510-0395-4

E há algo de tragicômico nisso. Passamos anos desenvolvendo a ciência, a filosofia, a literatura e as instituições políticas para, finalmente, utilizar toda essa herança intelectual a fim de produzir vídeos curtos em que pessoas gritam umas com as outras sobre assuntos que mal compreendem. Aristóteles investigou as causas primeiras; Kant procurou os fundamentos da moral; Hannah Arendt examinou as condições da vida política. Nós, seus herdeiros, descobrimos que a finalidade superior da razão é escrever “gado” ou utilizar um emoticon vomitando nos comentários de uma publicação alheia.


Talvez o verdadeiro triunfo da propaganda contemporânea não seja convencer alguém de que determinada ideologia está correta. Seja convencê-lo de que precisa estar permanentemente indignado, permanentemente ameaçado e permanentemente em guerra. Aquela ideia de que existe um opressor em algum lugar e você, coitado, é o oprimido. Porque uma pessoa que pensa pode mudar de opinião. Uma pessoa que duvida pode reconsiderar suas crenças. Mas uma pessoa apavorada está sempre procurando alguém que prometa protegê-la do monstro que acabou de descrever.


E o monstro, por coincidência, costuma ser o adversário político de quem vende a proteção.


No fim, resta uma imagem bastante deprimente: milhões de pessoas, cada uma diante de uma pequena tela luminosa, sentindo-se heroínas de uma guerra histórica, enquanto discutem com desconhecidos que provavelmente também estão sentados de pijama, comendo biscoitos e adiando a tarefa de lavar a louça. Ambos acreditam estar salvando o país. Nenhum consegue sequer salvar o seu próprio dia entediante.


Talvez devêssemos experimentar uma forma mais modesta de participação política: estudar os problemas, avaliar as propostas, cobrar resultados, reconhecer erros e desconfiar do pânico social: daquele que precisa nos manter aterrorizados para conservar nossa atenção. E, ocasionalmente, desligar o telefone para descobrir se ainda somos capazes de conversar com alguém sem exigir seu posicionamento sobre o destino da civilização.


Não é uma solução revolucionária. Não renderá milhões de visualizações, não produzirá uma legião de 10 milhões seguidores no grupo do Whatsapp e provavelmente não será celebrada como um acontecimento histórico. Mas pode evitar que você perca uma grande amizade, uma bela noite de sono ou a vontade de continuar vivendo num mundo em que ninguém consegue simplesmente discordar de você sobre o preço do pimentão.


A democracia com base na liberdade não exige que sejamos amigos. Exige que possamos coexistir sem tratar cada adversário como um inimigo a ser eliminado. E a inteligência não exige que abandonemos nossas convicções. Exige, no mínimo, que não as confundamos com revelações divinas.


Quanto ao pânico, convém lembrar que ele é um péssimo conselheiro, um excelente vendedor e um péssimo companheiro de jantar.


Se alguém insistir em anunciar o fim do mundo durante a sobremesa, talvez a melhor resposta seja perguntar, “em primeiro lugar, você já pagou a conta do plano de assistência funeral?”.


Afinal, se a civilização realmente estiver prestes a desmoronar, seria desagradável descobrir que, além de tudo, teremos de dividir a despesa com alguém que vota diferente.

sábado, 24 de outubro de 2026

O Dois Pesos, Duas Medidas e Duas Asas Angelicais

 


Existe uma categoria muito peculiar de pessoas que poderíamos classificar como Querubins. São indivíduos com alta capacidade intelectual que detém a fórmula da superioridade moral e, desde então, caminham pelo mundo com a expressão de quem acabou de flagrar Deus procurando seu smartphone usando a lanterna do seu próprio smartphone.

E qual o problema desse pessoal? É que eles têm princípios. Muitos princípios, aliás. Princípios para cada dia da semana, cuidadosamente selecionados conforme a opinião política de quem está sendo julgado.

Começa quando o Nantes ofende o Luiz. Fazendo um trocadilho com sua pequena amputação. Nesse momento, os Querubins entram em estado de emergência. Há discursos inflamados, declarações de repúdio, tratados sobre a decadência da civilização e, em casos mais graves, a exigência de que o responsável seja banido da sociedade e condenado a passar a eternidade assistindo aos cursos do ICL.

Mas eis que, algum tempo antes, Nantes sofrera um ataque muito mais grave. Levou uma facada. E o que fizeram os Querubins? Riram. Fizeram piada. Compartilharam memes. Chegaram a dizer que foi tudo mentira: fake! Outros, mais sofisticados, reconheceram que o ataque havia acontecido, mas explicaram que a vítima, afinal, foi culpada pelo atentado.

Ah! O Nantes não morreu. Porém, ficou com sequelas.

Aparentemente, a dignidade humana possui um sistema de assinatura de podcasts. Para alguns, o plano é “Love Premium”, um pacote integral de arrogância e prepotência contendo dezenas de ofensas, humilhações e comentários desagradáveis para usar contra o fascismo. Para os outros, a infernal versão gratuita: o pobre, o pequeno MEI, que inclui regras de empatia, frases de solidariedade, mas leva também o direito a não ser levado a sério - somente em Outubro, de quatro em quatro anos.

Os Querubins também possuem uma extraordinária habilidade para distinguir entre a violência hiperbólica e a violência do bem. Por exemplo, quando movimentos ou lideranças angelicais ocupam prédios públicos ou fazem atos contra decisões judiciais que desfavorecem seus líderes, são atos de resistência, democracia ou manifestação da vontade popular. Agora, se você profere “aquela mulher está grávida”, os Querubins vão lhe cancelar, segundo a novilíngua, por transformar a biologia básica em um crime contra a humanidade.

A moral, nesse ambiente, opera como uma balança desregulada: pesa cada grama de erro dos outros, mas ignora as toneladas de falhas dos seus camaradas.

Nesta semana surgiu o curioso fenômeno da checagem seletiva dos fatos. Chegaram ao nível de criarem um exército de checagem de notícias falsas que noticia falsamente suas checagens.

Acontece, de modo parecido, quando uma acusação desfavorece um adversário, basta um relato indignado nas redes sociais e a convicção de alguém que conhece o primo de alguém que estava virtualmente presente. A verdade está estabelecida: fascista! Agora, quando a acusação atinge sua legião: fake! Além disso, exigem documentos, perícias, testemunhas independentes, registros audiovisuais, reconhecimento internacional e, se possível, uma declaração assinada pelo próprio acusado.

Além do mais, há ainda a solidariedade por conveniência. Os Querubins defendem apaixonadamente o direito de todos serem respeitados, desde que o respeito seja uma Av. Brasil de mão única. Nesse caso, a solidariedade fica sem gasolina, a consciência se tranca na garagem e a coragem moral encalha na mecânica, como as verbas públicas para saúde, educação e segurança pública.

Quando confrontados com a contradição - e isso se dá com frequência, porque os Querubins não possuem senso lógico -, raramente admitem que aplicam critérios diferentes a pessoas diferentes. Preferem explicar que os casos não são comparáveis, que a ciência está equivocada, que a verdade é relativa. E talvez tenham razão, porque, quando o confronto acontece com uma de suas querubinas, a vítima pertence ao grupo certo; em contrapartida, outra mulher qualquer cometeu o imperdoável pecado de ser a vítima errada.

É uma espécie de relativismo moral de conveniência: quando lhes convém, relativismo. Ou seja, lançam mão de um recurso retórico de proteção à turma angelical. Contra os demais (Recua! Fascista, recua…), generalização, banalização, terrorismo e pânico social.

Naturalmente, ninguém está livre de contradições. Eu mesmo desconfio que, se a coerência moral fosse um requisito para a entrada no paraíso, boa parte da humanidade teria de aguardar na fila do SisReg. O problema não é falhar, hesitar ou reconhecer que temos preferências. O problema é transformar nossas preferências em princípios universais e depois fingir surpresa e se vitimizar quando alguém percebe a fraude.

A hipocrisia mais eficiente, afinal, não é aquela que esconde a própria moral. É aquela que usa a moral como uma muleta… Não. Melhor: como uma espada.

O hipócrita não precisa abandonar o discurso da justiça; basta reservar a justiça para os seus e injustiça contra os outros. Não precisa negar a importância da empatia; basta decidir antecipadamente quem merece recebê-la. Não precisa rejeitar a verdade; basta exigir que ela compareça apenas quando não atrapalhar seus interesses celestiais.

E assim os Querubins continuam sua missão civilizatória, indignando-se seletivamente, distribuindo absolvições entre amigos e condenações perpétuas entre adversários. Tudo em nome de princípios nobres, naturalmente. “Estou do lado do bem” - proferem -, “o amor venceu!”. Afinal, seria muito constrangedor admitir que, por trás de tanta virtude proclamada, existe apenas uma preferência tribal sob a égide do virtual general Jones Danones: rachador, assediador e violento.

No fim, talvez a pergunta mais incômoda não seja por que Nantes ofendeu o Luiz amputado, nem por que a ex-mulher de Jones foi atacada por ele. Mas esta: se os nomes fossem trocados, os princípios permaneceriam os mesmos? Se a resposta for não, não estamos diante de um mínimo de ética. Estamos sim diante de um exército de querubins que atualizou a novilíngua (de 1984) em pleno 2026 - e “ai” de quem não segui-la. E, convenhamos, poucas coisas são tão perigosas quanto alguém que confunde a própria lealdade com a justiça e ainda exige aplausos pela descoberta.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Do Livro 1 da Metafísica até o supermercado


Há um bom tempo comecei a ler a Metafísica de Aristóteles. Fi-lo por mim mesmo. Já são anos de leitura - e a tentativa de compreender o primeiro parágrafo. 

Essa insistência ocorre até os dias atuais. No entanto, graças à faculdade, já consigo avançar até o terceiro parágrafo - isso sob bastante interrupção de ordem cognitiva e de ordem natural também.

Pois bem, semana passada, estava lá, eu, inquieto, lendo o Livro I da Metafísica do querido filósofo. Algumas pausas para reflexão - tipo, “não entendi esta frase” -; algumas outras pausas por conta de um casal de bem-te-vis que reside em frente à minha janela. Enquanto eles discutiam quem ia à caça para alimentar seu filhote, eu discutia comigo mesmo: putz! um pãozinho agora ia bem…


Ok! Voltei-me à leitura. Porém, o fazia no mesmo rito de décadas atrás, me destraindo com algo e, momentos depois, retomando à obra. Eis que diante de muito esforço consegui ler algo que dizia o filósofo "[980b 25] Assim, os outros animais vivem com as aparências e com as recordações, mas compartilham pouco da experiência... (tive nova distração com o casal de bem-te-vis); o gênero dos homens, por sua vez, vive também com técnica e raciocínios... (interrupção para lembrar que menos de 10% dos humanos são assim).


Desci mais um parágrafo e parei novamente… Quando dei por mim, estava no corredor de laticínios escolhendo atum enlatado ao óleo. Não havia portal mágico, nem viagem no tempo, nem sequer feitiço ou mera imaginação. Era apenas o cérebro humano, essa máquina brilhante de procrastinação sofisticada - e esfomeada - que levou meus pés e pernas caminharem até lá. O cérebro escolhe o que há de mais importante e urgente no dia e, quietamente, diz: Agora não! Tem coisa melhor para fazer, como excluir aplicativos inúteis do smartphone.


Você, leitor, deve estar pensando (ou procrastinando como eu), “ler deve ser muito chato para você. Definitivamente, você não tem paciência com leituras”. No entanto, não é esse o caso. Sempre tive vontade de ler. A vontade é superior, porque se eu não a tivesse, aí sim seria justo dizer que é chato. Por exemplo, Gosto tanto que tenho até uma pequena biblioteca em casa! — não daquelas decorativas, com livros marxistas que nunca foram abertos, mas uma coleção honesta de obras que me olham com a expectativa de um flamenguista numa cobrança de pênalti do seu time. Outro paradigma conta com meu falecido pai. Ele vendia livros, além de ler muito. Então cresci cercado por enciclopédias, dicionários, jornais e revistas. A leitura era inevitável, quase genética. Assim sendo, é perceptível, por ora, saber que o problema não é o caso de eu não gostar de leituras.


Puxa, como é bom dialogar com autores, viajar mentalmente por mundos e ideias — principalmente com a Filosofia. Mas há aqui um detalhe técnico: sou impaciente, muito inquieto, hiperativo. Meu cérebro não funciona em modo "leitura densa" diante de 3 horas ininterruptas de percepção sensível visual - princpalmente diante de telas iluminadas (mesmo que seja um Kindle). Meu cérebrbo funciona em modo Twitter existencial, com seus 280 caracteres - acredito que boa parcela do mundo funciona dessa maneira atualmente.


Diante disso, com costumaz percepção filosófica, apresentarei alguns paradoxos, apenas para se ter ideia de como é chato se prestar a ler uma obra, que o autor levou décadas para excrevê-la, mas que em 5 minutos você a deixa de lado por qualquer distração. Primeiro, como eu posso declarar gostar tanto de ler, sendo que eu não consigo passar de um parágrafo ou capítulo de uma leitura fácil e agradavél? Tipo, adiquiri o livro caro, arrumei um espaço tranquilo para lê-lo, mas passados 5 minutos eu prefiri deixar a leitura para ir arear uma panela?


Ou seja, como pode a Metafísica de Aristóteles — um assunto caríssimo, pelo qual dedicaria toda a vida — perder a batalha para a vontade súbita de fazer embaixadinhas com objetos avulsos? Como pode um pensamento aleatório sobre “suco de tomate” ser mais interessante que os modos de conhecimentos dos animais - incluindo o mosquito da dengue - ou que as características das quatro causas de tudo o que existe?


A resposta a seguir não se refere a estas antigas questões supracitadas. Na verdade é até uma resposta simples e tão deprimente quanto arear panela. O cérebro humano é um mestre em evitar o difícil escolhendo o trivial; largar o pesado e se agarrar ao mais frágil. Será que é mais fácil ir ao supermercado comprar batata rostie do que enfrentar a densidade de uma obra que exige paciência, foco e a renúncia temporária do ego? 


Nossa… Que constatação! Será que o Guanabara, além de seu propósito como supermercados, soa como uma zona de conforto filosófico? Uma espécie de Jardim de Epicuro ou de Aristóteles?


Assim eu me encontrava: prestes a abrir uma das obras mais icônicas da história da humanidade, e em vez disso estava comparando preços de “caldo de ossos”. Não foi um acidente. Foi uma fuga calculada da mente, burlando para não encarar um titã grego encarnado num livro pesado. Sim! Estudar pode ser similar a dor. Só que o nosso querido cérebro, em sua sabedoria evolutiva, decidiu que era mais seguro enfrentar os preços do supermercado do que encarar a Metafísica. 


Afinal, no supermercado ninguém pergunta "o que é a Substância?” ou “quem gerou o primeiro Ser?" No supermercado, o Ser é claramente definido: é o que está em promoção no clube do assinante! E a única pergunta coerente e mais objetiva é "cartão ou pix, senhor?". "No crébito", respondo.


O mais engraçado — ou trágico, dependendo do do ponto de vista — é que um lanche durante uma leitura é importante. Comer um sanduíche de presunto enquanto se lê o Diário de Anne Frank é bem legal... Mas quando o lanche se torna o evento principal e a leitura vira o intervalo entre as compras, algo deu errado no fim último do Ser.


Aristóteles diria que isso é um exemplo perfeito de akrasia — agir contra o próprio julgamento, contra si próprio. Ora, eu sei que devo ler, sei que a leitura é importante, porém, lá vou eu, novamente, ao supermercado, porque o pão com mortadela é mais imediato, mais tangível, mais... palatável do que a questão sobre a Substância. 


Enfim, assim, entre uma compra e outra, entre uma página e outra, percebo que a verdadeira metafísica não está nos livros, mas na capacidade humana de transformar uma tarde de leitura em uma expedição gastronômica reflexiva. Aristóteles mesmo acreditava que se pensava melhor passeando - eis os peripatéticos! Talvez eu tenha herdado esse DNA a respeito do conhecimento aliado à grande vontade de fazer um lanche.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Justiça requer tempo: eis o julgamento na era da celeridade digital



Na tradição filosófica clássica, especialmente em Aristóteles, a justiça não é tratada como um ato imediato ou impulsivo, mas como uma virtude que exige deliberação racional e equilíbrio. Este tema pode ser observado em três âmbitos: pessoal, social e no poder público. No entanto, será jogada luz apenas na esfera pessoal e social - cabendo também como reflexão para a esfera superior do poder público.

Primeiramente, não se pode ignorar o fato de que a capacidade de julgar corretamente em situações concretas - prudência - constitui elemento central desse processo, pois permite ao agente ponderar circunstâncias particulares e agir de modo adequado ao bem. Ademais, a ética aristotélica compreende a virtude como hábito - que é uma disposição a ser adquirida ao longo do tempo -, o que implica que a formação moral depende de um processo contínuo, de experiências concretas, e não de reações instantâneas, impulsivas. Todavia, no momento presente, especialmente com o advento da Internet e das redes sociais, observa-se uma celeridade dos julgamentos sociais, frequentemente desvinculados desse tempo necessário à reflexão ética. 


Nesse contexto, sustenta-se que a celeridade dos julgamentos na esfera digital compromete a própria ideia de justiça, pois elimina o tempo necessário ao arrependimento e à deliberação prudencial, transformando o juízo moral em mera reação impulsiva.


Em primeiro lugar, a justiça em geral pressupõe tempo para a ocorrência do arrependimento e da prudência - isto é, sabedoria prática. Isso porque a prudência não opera de forma abstrata, mas se orienta pelas circunstâncias particulares, práxis, exigindo análise cuidadosa de cada situação concreta. Sem esse intervalo temporal, não há espaço para a revisão de ações, tampouco para a integração adequada das paixões à razão. Assim, quando o julgamento ocorre de forma instantânea, como nas dinâmicas virais das redes sociais, suprime-se a possibilidade de correção moral e de aperfeiçoamento ético, reduzindo a justiça a um ato completamente precipitado. 


Além disso, a ética aristotélica concebe a virtude como um meio-termo entre extremos - como, por exemplo, o equilíbrio entre a apatia e a agressividade -, o que implica moderação e equilíbrio. A ausência de tempo, nesse caso, favorece o predomínio de excessos, como a ira desmedida, que substitui o julgamento racional por reações emocionais sem qualquer virtude. Nesse cenário, o que se denomina “justiça” passa a assumir caráter punitivo e vingativo, afastando-se de sua finalidade ética: realização do bem e da excelência moral. Logo, a celeridade não apenas distorce o processo de julgamento, mas também corrompe sua finalidade, convertendo-o em instrumento de ostracismo imediato e de vingança, não de transformação moral.


Dessa forma, conclui-se que a justiça, para manter seu caráter ético, requer necessariamente tempo para reflexão, arrependimento de uma das partes e deliberação prudencial. A lógica da celeridade digital, ao eliminar esse intervalo, inviabiliza a formação da virtude e compromete a própria ideia de julgamento pleno. Portanto, preservar o tempo, literalmente, como condição da ética é indispensável para evitar que a justiça se degrade em mera reação coletiva, impulsiva, desprovida de racionalidade e finalidade moral.



Bibliografia:


segunda-feira, 11 de agosto de 2025

SOMOS VERDADEIRAMENTE HUMANOS? REFLEXÕES SOBRE O TRABALHO EM MARX


Há algo profundamente inquietante no modo como vivemos, trabalhamos e existimos em sociedade. Essa inquietude silenciosa e muitas vezes invisível impingiu o filósofo e economista alemão Karl Marx (1818 — 1883) a desenvolver uma das críticas mais profundas à condição humana na modernidade. Em seus “Manuscritos Econômico-Filosóficos” de 1844 — publicados em 1923 — , Marx nos convida a refletir não apenas sobre o funcionamento da economia, mas sobre algo muito mais íntimo: o que nos torna verdadeiramente humanos?

Neste contexto, Marx rompe com noções econômicas de sua época, advindas, principalmente, do economista Adam Smith (1723 — 1790). Ademais, o filósofo alemão dialoga com outro filósofo conterrâneo, Friedrich Hegel (1770 — 1831) sobre concepções tradicionais — tanto metafísicas quanto teológicas. Além destes dois principais, tanto o economista quanto o filósofo, Marx se destacava diante dos demais pensadores que viam a natureza humana como uma essência fixa, imutável, criada por Deus ou moldada puramente pela razão. Contra essa visão, ele defende uma concepção dinâmica e histórica: o ser humano não nasce pronto, ele se faz, e esse processo se dá, sobretudo, através do trabalho. Trabalhar, para Marx, não é apenas uma prática visando a preservação do indivíduo ou, simplesmente, sobrevivência: o trabalho é um ato criativo, vital, existencial. É pelo trabalho (práxis) que transformamos a natureza e, ao mesmo tempo, nos transformamos — revelando que homem e natureza formam, na verdade, uma só unidade.”


Imagine, por exemplo, um artesão moldando a madeira para criar um violino. Cada curva esculpida, cada detalhe é mais do que técnica: é a expressão de sua subjetividade, de seu tempo, de sua história. Nesse processo, o ser humano se objetiva: coloca algo de si no mundo. O objeto criado carrega sua marca, seu gesto, seu gosto, sua humanidade. Porém, e se esse violino, ao invés de ser expressão humana e natural, tornasse-se uma mercadoria imposta, feita em série por máquinas, alheia ao artesão que o produziu? Eis aí o estranhamento — a essência do drama que Marx denuncia.

Nesse cenário, o capitalismo surge como um véu que encobre essa potência humana. Na chamada “economia política tradicional”, o trabalho deixa de ser uma atividade plena e passa a ser apenas um meio de subsistência. O trabalhador não se reconhece mais no que faz, não emprega mais sua história, sua cultura, o seu DNA (no sentido figurado, óbvio). O que deveria ser a mais profunda realização de sua humanidade torna-se uma prisão cotidiana, onde o indivíduo não pode mais, livremente, conceber os percursos da sua vida. O produto do trabalho já não lhe pertence. Ele se torna estranho diante daquilo que criou, como um pai que não pode reconhecer e cuidar do próprio filho.

Marx descreve esse fenômeno com dois conceitos centrais: alienação e fetichismo da mercadoria. De acordo com o filósofo a alienação é o distanciamento entre o trabalhador e sua obra. O trabalho, antes expressão de liberdade, vira uma obrigação mecânica, tornando-o banal — um “ganha-pão”. O trabalho (práxis) aliado à própria natureza, que deveria ser o espelho da criatividade humana, converte-se em instrumento de opressão. Diante disso, o homem perde a si mesmo no ato de produzir. O fetichismo da mercadoria, por sua vez, é talvez um dos mais trágicos disfarces da modernidade: os produtos criados pelo trabalho humano ganham “vida própria”, são adorados, valorizados, comprados e vendidos como se tivessem poder em si mesmos — enquanto o trabalhador, criador de tudo isso, permanece invisível, descartável. Em outras palavras, a mercadoria brilha, o ser humano se apaga.

Neste processo, o capitalismo inverte a lógica da existência humana: transforma sujeitos em objetos, e objetos em sujeitos. Os que detêm os meios de produção — os capitalistas — acumulam riqueza, enquanto os trabalhadores são reduzidos a números, a peças em uma engrenagem impessoal e insaciável. A famosa passagem do Manifesto Comunista ecoa com força aqui: “Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, opressor e oprimido…” — essas oposições revelam a perpetuação de uma luta que desumaniza.

Marx nos obriga a encarar uma verdade desconfortável: vivemos em um sistema que nos afasta de nós mesmos. E mais do que uma constatação teórica, isso é um grito. Um grito que vem do trabalhador exausto, da mãe que trabalha dobrado para sustentar os filhos, do jovem que não se vê no que faz. O trabalho — que deveria ser fonte de dignidade — é transformado em rotina opressiva, em alienação existencial.

Contudo, essa crítica não é um fim em si. Marx aponta para um horizonte. Ele acredita que essa realidade pode ser superada. Pois o ser humano, ao contrário das demais espécies, possui a capacidade singular de criar com consciência, de produzir não apenas para si, mas para os outros, em liberdade e solidariedade. Enquanto os animais produzem por instinto, o homem produz com intencionalidade, sensibilidade e propósito universal.

Assim, compreender a natureza humana, segundo Marx, é entender que ela se realiza na práxis, ou seja, na ação transformadora sobre o mundo. A humanidade não é uma condição pronta: ela é um processo histórico e coletivo. É na criação de ferramentas, de arte, de cultura, de linguagem e de relações que o ser humano se descobre — e se redescobre.

Enfim, ao olharmos para nossas mãos calejadas, nossos rostos cansados após o expediente, para nossas angústias diante de um mundo que nos exige produtividade constante, talvez possamos entender um pouco do que Marx quis dizer. Não estamos apenas sendo explorados economicamente — estamos sendo privados de nossa própria humanidade. No entanto, a esperança não foi extinta. Porquanto, se somos feitos históricos, também podemos nos refazer e nos readequar, transformando nossos destinos mais dignos e mais humanizados. Além do mais, a luta histórica em que nos encontramos não é apenas por salários mais altos ou melhores condições — é por um novo modo de ser no mundo. Um mundo onde o trabalho não estranhe, mas que agregue; não oprima, mas liberte. Talvez o maior legado de Marx seja esse: lembrar-nos de que ainda somos humanos — e que, apesar de tudo, podemos nos tornar plenamente aquilo que somos.

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Ouvindo: “Don’t blame me”, The Exploited.

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