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terça-feira, 21 de abril de 2026

Justiça requer tempo: eis o julgamento na era da celeridade digital



Na tradição filosófica clássica, especialmente em Aristóteles, a justiça não é tratada como um ato imediato ou impulsivo, mas como uma virtude que exige deliberação racional e equilíbrio. Este tema pode ser observado em três âmbitos: pessoal, social e no poder público. No entanto, será jogada luz apenas na esfera pessoal e social - cabendo também como reflexão para a esfera superior do poder público.

Primeiramente, não se pode ignorar o fato de que a capacidade de julgar corretamente em situações concretas - prudência - constitui elemento central desse processo, pois permite ao agente ponderar circunstâncias particulares e agir de modo adequado ao bem. Ademais, a ética aristotélica compreende a virtude como hábito - que é uma disposição a ser adquirida ao longo do tempo -, o que implica que a formação moral depende de um processo contínuo, de experiências concretas, e não de reações instantâneas, impulsivas. Todavia, no momento presente, especialmente com o advento da Internet e das redes sociais, observa-se uma celeridade dos julgamentos sociais, frequentemente desvinculados desse tempo necessário à reflexão ética. 


Nesse contexto, sustenta-se que a celeridade dos julgamentos na esfera digital compromete a própria ideia de justiça, pois elimina o tempo necessário ao arrependimento e à deliberação prudencial, transformando o juízo moral em mera reação impulsiva.


Em primeiro lugar, a justiça em geral pressupõe tempo para a ocorrência do arrependimento e da prudência - isto é, sabedoria prática. Isso porque a prudência não opera de forma abstrata, mas se orienta pelas circunstâncias particulares, práxis, exigindo análise cuidadosa de cada situação concreta. Sem esse intervalo temporal, não há espaço para a revisão de ações, tampouco para a integração adequada das paixões à razão. Assim, quando o julgamento ocorre de forma instantânea, como nas dinâmicas virais das redes sociais, suprime-se a possibilidade de correção moral e de aperfeiçoamento ético, reduzindo a justiça a um ato completamente precipitado. 


Além disso, a ética aristotélica concebe a virtude como um meio-termo entre extremos - como, por exemplo, o equilíbrio entre a apatia e a agressividade -, o que implica moderação e equilíbrio. A ausência de tempo, nesse caso, favorece o predomínio de excessos, como a ira desmedida, que substitui o julgamento racional por reações emocionais sem qualquer virtude. Nesse cenário, o que se denomina “justiça” passa a assumir caráter punitivo e vingativo, afastando-se de sua finalidade ética: realização do bem e da excelência moral. Logo, a celeridade não apenas distorce o processo de julgamento, mas também corrompe sua finalidade, convertendo-o em instrumento de ostracismo imediato e de vingança, não de transformação moral.


Dessa forma, conclui-se que a justiça, para manter seu caráter ético, requer necessariamente tempo para reflexão, arrependimento de uma das partes e deliberação prudencial. A lógica da celeridade digital, ao eliminar esse intervalo, inviabiliza a formação da virtude e compromete a própria ideia de julgamento pleno. Portanto, preservar o tempo, literalmente, como condição da ética é indispensável para evitar que a justiça se degrade em mera reação coletiva, impulsiva, desprovida de racionalidade e finalidade moral.



Bibliografia:


sábado, 21 de março de 2026

Que Neurose!




Deus – deus fluido –, por que eu, Woody Allen, branco, homem, hétero, judeu, hipocondríaco de Manhattan com medo de sol, venho gravar na “cidade maravilhosa” e me deparo com uma cultura “woke” no Rio de Janeiro? Lá em Ipanema, mulheres cis (sic) ofendem mais por fazerem “topless” do que um assalto à mão armada; eu suaria frio: "O ‘Y’ do meu cromossoma é transfobia!?". Relativismo moral no Rio? Vejam! A verdade não existe - exceto o Samba da G.R.E.S. Acadêmicos de Niterói e a importância da primeira dama do Brasil no cenário geopolítico.


No Rio, sorrateiramente, se comenta: “‘mulher biológica’ vira crime pior que feminicídio”. “Erika Hilton processaria meu biquíni ‘fio dental’, ainda que seja da Shein”. “'CIS' soa como “Comissão Internacional Socialista”, não tem nada a ver com ser homem ou mulher”. 


Reflito algo. Sei que Foucault já esteve no Rio de Janeiro. Deu palestras, relativizou a feiúra e posou diante do Pão de Açúcar: "A VERDADE (pausa dramática), aquela que muitos dizem ser inconteste, NA VERDADE é uma construção". Logo, a construção é uma construção - entrará no roteiro. Filosófico isso. Gostei!


A biologia é negada, da mesma maneira que minha alvi epiderme nova-iorquina esteja recém bronzeada. Piada: no Rio, a fórmula de Bhaskara - que é indiano - é "matemática racista"; eu ligo pro terapeuta: "Doutor, sou fluido ou estou derretendo nesse calor carioca?".


Teoria do conflito no Rio: opressor na favela ou no Leblon? Eu, turista branco nova-iorquino, carrego uma "dívida histórica" por pedir feijoada completa para duas pessoas. Quem seria a outra? Zumbi, Dandara ou algum aluno de Serviços Sociais da UERJ? Tá, vamos lá! Sou o vilão branco judeu-neurótico, com dívidas históricas por… rir de mim mesmo. Ah, confesso: tenho ansiedade por acordar homem. 


Li sobre Paulo Freire. Li também uma de suas obras. Ele radicaliza com uma educação conectada ao cotidiano dos alunos e as suas experiências – no Rio, seria interessante educar em meio à invasão de uma facção à outra; educar em pleno “Jacaré x Jardim de Alah” em um domingo de sol. Piada curta: "Freire no Brasil: eduque revolucionários; eduque em consonância com marxismo. No Rio: eduque para responder aos processos do PSOL". Racismo estrutural? Meu sotaque gringo é "supremacia sionista" na Lapa.


Li que a Deputada Erika Hilton encontra-se caçando dissidentes, na capital do país. No Rio, às vítimas da sociedade, foi garantida a caça mediante posse de armas, além da concessão do direito de cometer quaisquer crimes - afinal, eles são vítimas. 


Outro fato: Isadora Borges processada por ser, digamos, biologista? Outra lá, dedicada mãe e simples mulher - não trans - presa por escrever com batom numa estátua. Com batom? Deve ter sido um lindo poema, de fato. Batom me remete às doces lembranças dos arredores de Manhattan. Diferentemente do que meus país judeus diziam: Em nossa época, quando víamos tinta escrita em nossos portões de casa, tínhamos que passar a viver no porão - por isso que você é calvo e tem 1,63 de altura.


No divã carioca, confesso: sobrevivo ao calor intenso, sobrevivo à Érika Hilton falando aos berros e também continuo vivo sendo hiperativo no calçadão de Copacabana. Amanhã, outro pavor: seria eu woke ou só um gringo perdido no Fashion Mall?". Riam da miséria, sim! No Rio, rir é resistência.


terça-feira, 4 de novembro de 2025

QUANDO O LEVIATÃ DORME, O LOBO ATACA.

Produzido por Gemini I.A.

A cada novo tiroteio, barricada ou bairro dominado, o Rio de Janeiro parece confirmar uma antiga profecia filosófica. Thomas Hobbes, pensador inglês do século XVII, afirmava em sua obra LEVIATÃ (capítulo XIII) que, quando o poder soberano se enfraquece, a sociedade retorna ao estado de natureza — uma condição em que os indivíduos, movidos pelo medo de perderem suas vidas e pelo desejo de poder, agem apenas segundo seus próprios interesses. Nessa ausência de leis e de autoridade legítima, instala-se inevitavelmente a guerra de todos contra todos. Assim, de modo quase literal, o Rio de Janeiro de hoje se assemelha ao retrato contemporâneo dessa selva hobbesiana, onde o caos substitui o contrato social e o medo volta a governar.

Hobbes viveu em meio à Guerra Civil Inglesa e viu o que acontece quando ninguém teme mais o Estado - o poder que o povo delegou a um soberano. Para o filósofo inglês, de fato, esse Estado nasce quando as pessoas renunciam a parte de sua liberdade em troca de segurança, concedendo poder absoluto a seu representante - no nosso caso, por voto popular. Mas quando o medo de facções criminosas supera o medo da lei, o pacto social pode ser declarado impotente.

Eis o que vemos: o Estado perdeu o monopólio da força e, nesse vácuo, novos senhores da guerra ocuparam-se. A título de exemplo, facções e milícias não pedem votos — impõem obediência. Não prometem justiça — vendem “proteção”. Criam-se assim microestados dentro do Estado, cada um com suas LEIS, TRIBUTOS E, COMO SANÇÃO, EXECUÇÃO. Hobbes chamaria isso de “a dissolução do contrato social”.

Para ele, a política nasce do medo da morte e não de virtude; do receio de alguém lhe atacar a qualquer momento e não a de se querer o bem ao próximo. Sendo assim, onde a lei oficial do Estado se enfraquece e já não é capaz de impor respeito por meio de suas sanções e de sua autoridade, em seu lugar emerge a lei do fuzil — a única que ainda inspira temor e obediência. O cidadão comum, entre a polícia ausente e o poder das facções presentes, volta a ser súdito do medo. Porém, de um medo aliado a um sujeito sem direitos acordados no contrato social, muito menos de DIREITOS CIVIS.

A ironia é cruel: o mesmo medo que criou o Estado agora o destrói e erege outro mais temível ainda sem legitimidade alguma. Quando o governo oficial eleito aparece só com operações espetaculares — sem escola, hospital e justiça — o povo é submetido a outros protetores que não foram eleitos e que impõem sua força, queiram ou não. 

O remédio hobbesiano é duro, mas claro: só um Estado forte (no nosso caso, de direito e democrático), pode restaurar a paz. Não o monstro que devora liberdades, mas o Estado que cumpre com o contrato, impondo e exercendo leis (por meio da vontade dos cidadãos), que ocupa seus territórios com instituições e áreas de lazer. Pois, onde o Estado se ausenta, o lobo volta a atacar; seu instinto é o poder e a glória, seus caninos são pontudos como os fuzis.

Talvez seja essa a lição amarga de Hobbes ao Rio: enquanto o poder público hesitar, as facções e milícias continuarão legislando à ferro e pólvora, jogando os corpos dos seus súditos desviados e rivais pelas ruas e praças como demonstração de poder.

E nós, pobres eleitores, acuados entre o medo extremo e a indiferença, continuaremos sonhando com um Leviatã que PROTEJA, e não aquele deglutidor de direitos; seguimos impingidos, de quando em quando, com gesto de memória muscular, exercendo nosso papel de cidadão elegendo aquele que nos promete (e que facilmente não cumpre) - refazendo o velho cíclo de Estado ausente e facções presentes.

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Apolítica


Um ato de violência política não revela apenas um crime de uma ação isolada. Ele expõe a fragilidade de nossas crenças políticas.

Depois dos tristes fatos ocorridos na política global, entre guerras, assassinatos e violências diversas, viu-se uma debandada - agora da esquerda - não por julgarem a oposição superior, mas porque descobriram que ambas as tribos partilham da mesma capacidade de desumanizar. O choque não foi contra o outro, mas contra a própria ilusão de pertencer a uma comunidade moralmente pura.

Durante muito tempo, a crença sustentava que “o nosso lado” era o da empatia, da justiça, da liberdade - enfim, do amor. Essa crença conferia identidade e sentido. Mas, ao assistir a desumanização de indivíduos não como antagonistas de ideias, mas como ser humano, a ilusão caiu. Descobriu-se que a tribo da moralidade superior também se deixa guiar pela mesma cegueira que acusa no adversário.

Esse despertar é assustador. Ele obriga a perceber que construímos parte de nós em torno de uma mentira coletiva. Pois, não é possível carregar uma narrativa por muito tempo. Alguma contradição sempre aparece. Com isso, ou mente-se para sempre - criando malabarismos para justificar-se - ou leva um susto e muda. Mas o susto carrega uma promessa: a de libertar-se da lógica tribal. Pois se nenhuma comunidade possui o monopólio da moralidade, a liberdade começa quando nos tornamos capazes de pensar sem as correntes ideológico-partidárias.

É preciso lembrar que renunciar às identidades tribais não é renunciar à política, muito menos à própria identidade. Ao contrário, é o caminho para reencontrar o espaço público como lugar plural, onde o outro não é inimigo, mas oposição - quer discorde dele, quer não. Assim sendo, nota-se que a verdadeira liberdade nasce dessa renúncia: quando o pensamento deixa de ser ditado pelo medo de trair a tribo e se abre para a condição humana comum.

Logo, se há um legado possível diante da violência, talvez seja este: a consciência de que nenhuma tribo nos salvará. Apenas nós, em nossa capacidade de agir sem ilusões de superioridade, podemos reconquistar a liberdade da mente e o sentido da política.

Justiça requer tempo: eis o julgamento na era da celeridade digital

Na tradição filosófica clássica, especialmente em Aristóteles, a justiça não é tratada como um ato imediato ou impulsivo, mas como uma virtu...