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quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Do Livro 1 da Metafísica até o supermercado


Há um bom tempo comecei a ler a Metafísica de Aristóteles. Fi-lo por mim mesmo. Já são anos de leitura - e a tentativa de compreender o primeiro parágrafo. 

Essa insistência ocorre até os dias atuais. No entanto, graças à faculdade, já consigo avançar até o terceiro parágrafo - isso sob bastante interrupção de ordem cognitiva e de ordem natural também.

Pois bem, semana passada, estava lá, eu, inquieto, lendo o Livro I da Metafísica do querido filósofo. Algumas pausas para reflexão - tipo, “não entendi esta frase” -; algumas outras pausas por conta de um casal de bem-te-vis que reside em frente à minha janela. Enquanto eles discutiam quem ia à caça para alimentar seu filhote, eu discutia comigo mesmo: putz! um pãozinho agora ia bem…


Ok! Voltei-me à leitura. Porém, o fazia no mesmo rito de décadas atrás, me destraindo com algo e, momentos depois, retomando à obra. Eis que diante de muito esforço consegui ler algo que dizia o filósofo "[980b 25] Assim, os outros animais vivem com as aparências e com as recordações, mas compartilham pouco da experiência... (tive nova distração com o casal de bem-te-vis); o gênero dos homens, por sua vez, vive também com técnica e raciocínios... (interrupção para lembrar que menos de 10% dos humanos são assim).


Desci mais um parágrafo e parei novamente… Quando dei por mim, estava no corredor de laticínios escolhendo atum enlatado ao óleo. Não havia portal mágico, nem viagem no tempo, nem sequer feitiço ou mera imaginação. Era apenas o cérebro humano, essa máquina brilhante de procrastinação sofisticada - e esfomeada - que levou meus pés e pernas caminharem até lá. O cérebro escolhe o que há de mais importante e urgente no dia e, quietamente, diz: Agora não! Tem coisa melhor para fazer, como excluir aplicativos inúteis do smartphone.


Você, leitor, deve estar pensando (ou procrastinando como eu), “ler deve ser muito chato para você. Definitivamente, você não tem paciência com leituras”. No entanto, não é esse o caso. Sempre tive vontade de ler. A vontade é superior, porque se eu não a tivesse, aí sim seria justo dizer que é chato. Por exemplo, Gosto tanto que tenho até uma pequena biblioteca em casa! — não daquelas decorativas, com livros marxistas que nunca foram abertos, mas uma coleção honesta de obras que me olham com a expectativa de um flamenguista numa cobrança de pênalti do seu time. Outro paradigma conta com meu falecido pai. Ele vendia livros, além de ler muito. Então cresci cercado por enciclopédias, dicionários, jornais e revistas. A leitura era inevitável, quase genética. Assim sendo, é perceptível, por ora, saber que o problema não é o caso de eu não gostar de leituras.


Puxa, como é bom dialogar com autores, viajar mentalmente por mundos e ideias — principalmente com a Filosofia. Mas há aqui um detalhe técnico: sou impaciente, muito inquieto, hiperativo. Meu cérebro não funciona em modo "leitura densa" diante de 3 horas ininterruptas de percepção sensível visual - princpalmente diante de telas iluminadas (mesmo que seja um Kindle). Meu cérebrbo funciona em modo Twitter existencial, com seus 280 caracteres - acredito que boa parcela do mundo funciona dessa maneira atualmente.


Diante disso, com costumaz percepção filosófica, apresentarei alguns paradoxos, apenas para se ter ideia de como é chato se prestar a ler uma obra, que o autor levou décadas para excrevê-la, mas que em 5 minutos você a deixa de lado por qualquer distração. Primeiro, como eu posso declarar gostar tanto de ler, sendo que eu não consigo passar de um parágrafo ou capítulo de uma leitura fácil e agradavél? Tipo, adiquiri o livro caro, arrumei um espaço tranquilo para lê-lo, mas passados 5 minutos eu prefiri deixar a leitura para ir arear uma panela?


Ou seja, como pode a Metafísica de Aristóteles — um assunto caríssimo, pelo qual dedicaria toda a vida — perder a batalha para a vontade súbita de fazer embaixadinhas com objetos avulsos? Como pode um pensamento aleatório sobre “suco de tomate” ser mais interessante que os modos de conhecimentos dos animais - incluindo o mosquito da dengue - ou que as características das quatro causas de tudo o que existe?


A resposta a seguir não se refere a estas antigas questões supracitadas. Na verdade é até uma resposta simples e tão deprimente quanto arear panela. O cérebro humano é um mestre em evitar o difícil escolhendo o trivial; largar o pesado e se agarrar ao mais frágil. Será que é mais fácil ir ao supermercado comprar batata rostie do que enfrentar a densidade de uma obra que exige paciência, foco e a renúncia temporária do ego? 


Nossa… Que constatação! Será que o Guanabara, além de seu propósito como supermercados, soa como uma zona de conforto filosófico? Uma espécie de Jardim de Epicuro ou de Aristóteles?


Assim eu me encontrava: prestes a abrir uma das obras mais icônicas da história da humanidade, e em vez disso estava comparando preços de “caldo de ossos”. Não foi um acidente. Foi uma fuga calculada da mente, burlando para não encarar um titã grego encarnado num livro pesado. Sim! Estudar pode ser similar a dor. Só que o nosso querido cérebro, em sua sabedoria evolutiva, decidiu que era mais seguro enfrentar os preços do supermercado do que encarar a Metafísica. 


Afinal, no supermercado ninguém pergunta "o que é a Substância?” ou “quem gerou o primeiro Ser?" No supermercado, o Ser é claramente definido: é o que está em promoção no clube do assinante! E a única pergunta coerente e mais objetiva é "cartão ou pix, senhor?". "No crébito", respondo.


O mais engraçado — ou trágico, dependendo do do ponto de vista — é que um lanche durante uma leitura é importante. Comer um sanduíche de presunto enquanto se lê o Diário de Anne Frank é bem legal... Mas quando o lanche se torna o evento principal e a leitura vira o intervalo entre as compras, algo deu errado no fim último do Ser.


Aristóteles diria que isso é um exemplo perfeito de akrasia — agir contra o próprio julgamento, contra si próprio. Ora, eu sei que devo ler, sei que a leitura é importante, porém, lá vou eu, novamente, ao supermercado, porque o pão com mortadela é mais imediato, mais tangível, mais... palatável do que a questão sobre a Substância. 


Enfim, assim, entre uma compra e outra, entre uma página e outra, percebo que a verdadeira metafísica não está nos livros, mas na capacidade humana de transformar uma tarde de leitura em uma expedição gastronômica reflexiva. Aristóteles mesmo acreditava que se pensava melhor passeando - eis os peripatéticos! Talvez eu tenha herdado esse DNA a respeito do conhecimento aliado à grande vontade de fazer um lanche.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Justiça requer tempo: eis o julgamento na era da celeridade digital



Na tradição filosófica clássica, especialmente em Aristóteles, a justiça não é tratada como um ato imediato ou impulsivo, mas como uma virtude que exige deliberação racional e equilíbrio. Este tema pode ser observado em três âmbitos: pessoal, social e no poder público. No entanto, será jogada luz apenas na esfera pessoal e social - cabendo também como reflexão para a esfera superior do poder público.

Primeiramente, não se pode ignorar o fato de que a capacidade de julgar corretamente em situações concretas - prudência - constitui elemento central desse processo, pois permite ao agente ponderar circunstâncias particulares e agir de modo adequado ao bem. Ademais, a ética aristotélica compreende a virtude como hábito - que é uma disposição a ser adquirida ao longo do tempo -, o que implica que a formação moral depende de um processo contínuo, de experiências concretas, e não de reações instantâneas, impulsivas. Todavia, no momento presente, especialmente com o advento da Internet e das redes sociais, observa-se uma celeridade dos julgamentos sociais, frequentemente desvinculados desse tempo necessário à reflexão ética. 


Nesse contexto, sustenta-se que a celeridade dos julgamentos na esfera digital compromete a própria ideia de justiça, pois elimina o tempo necessário ao arrependimento e à deliberação prudencial, transformando o juízo moral em mera reação impulsiva.


Em primeiro lugar, a justiça em geral pressupõe tempo para a ocorrência do arrependimento e da prudência - isto é, sabedoria prática. Isso porque a prudência não opera de forma abstrata, mas se orienta pelas circunstâncias particulares, práxis, exigindo análise cuidadosa de cada situação concreta. Sem esse intervalo temporal, não há espaço para a revisão de ações, tampouco para a integração adequada das paixões à razão. Assim, quando o julgamento ocorre de forma instantânea, como nas dinâmicas virais das redes sociais, suprime-se a possibilidade de correção moral e de aperfeiçoamento ético, reduzindo a justiça a um ato completamente precipitado. 


Além disso, a ética aristotélica concebe a virtude como um meio-termo entre extremos - como, por exemplo, o equilíbrio entre a apatia e a agressividade -, o que implica moderação e equilíbrio. A ausência de tempo, nesse caso, favorece o predomínio de excessos, como a ira desmedida, que substitui o julgamento racional por reações emocionais sem qualquer virtude. Nesse cenário, o que se denomina “justiça” passa a assumir caráter punitivo e vingativo, afastando-se de sua finalidade ética: realização do bem e da excelência moral. Logo, a celeridade não apenas distorce o processo de julgamento, mas também corrompe sua finalidade, convertendo-o em instrumento de ostracismo imediato e de vingança, não de transformação moral.


Dessa forma, conclui-se que a justiça, para manter seu caráter ético, requer necessariamente tempo para reflexão, arrependimento de uma das partes e deliberação prudencial. A lógica da celeridade digital, ao eliminar esse intervalo, inviabiliza a formação da virtude e compromete a própria ideia de julgamento pleno. Portanto, preservar o tempo, literalmente, como condição da ética é indispensável para evitar que a justiça se degrade em mera reação coletiva, impulsiva, desprovida de racionalidade e finalidade moral.



Bibliografia:


domingo, 17 de agosto de 2025

ATUALIZAÇÃO BETA v.5.7.0: AGORA MEUS ELETRODOMÉSTICOS SÃO PÓS-ESTRUTURALISTAS

Dizem, os pós-estruturalistas, que a linguagem constrói a realidade. Isso é ótimo, exceto nos dias em que eu preferiria que minha realidade viesse pirateada, com todas as etapas e funções desbloqueadas, atualizadas e traduzidas para o grego, enquanto eu descansava em minha mansão de frente para o mar Egeu.

De volta ao Oceano Atlântico, mais precisamente à Baía da Guanabara, é de se admirar tamanha ousadia: o pós-estruturalismo nos prega situações dignas de… se amar. Sabe-se que tem aquele cara que é viciado em leitura — e até aí, tudo bem. Mas, convenhamos… Passar 24 horas por dia agarrado às brochuras dos cânones franceses pós-modernos, como se a retina estivesse em ininterrupta sociedade com a benzoilmetilecgonina, é dose! Essas e outras situações foram constatadas, pelo menos nos últimos 4 anos, que tais indivíduos chegavam a níveis transcendentais a ponto de uma socialista-psicóloga ter que consultar a bibliografia inteira de Michel Foucault antes de postar que o verbo “vencer” é opressor demais para ser enunciado.

Se Foucault estivesse vivo, provavelmente teria um canal no YouTube e uma conta no Instagram para explicar como o poder opera por meio dos stories e reels.

O pós-estruturalismo oferece ótimas ferramentas para desvelar o mundo como ele é e escancarar toda sua complexidade fluida - e asquerosa. Imaginem só, um mundo moldado por uma pessoa que não para de tagarelar coisas aleatórias? Numa hora tu estás diante do belíssimo Estádio do Flamengo lotado por sua torcida. Daí, você se vira. Poucos segundos depois, quando você olha de volta, dá de cara com uma imponente mesquita com arquitetura da “Magic Kingdom” da Disney World; ao fundo uma imensa roda-gigante, enquanto que os líderes religiosos vestidos de Mickey Mouse, MC Pipokinha, Bumblebee e Optimus Prime, andam pra lá e pra cá pregando aos berros: Meditem! Meditem!

Partindo disso e admitindo que o discurso constrói a realidade, temo que o meu mundo tenha sido erguido sobre fundamentos linguísticos por ordens diretas do tipo “Vai chupar um canavial de rola”. O resultado seria uma civilização peculiar, em que o setor primário da economia teria forte apelo oral e as aulas de geografia envolveriam mapas agrícolas extremamente constrangedores. Imaginem! Até uma Bolsa de Valores de commodities, só que com cotações baseadas em produção de… Bem, prossigamos.

O pós-estruturalismo já nos avisou também: não existe significado fixo, permanente. O que há, de fato, é só um jogo infinito de interpretações. Traduzindo para a vida prática: você nunca sabe se a pessoa disse “Vá chupar cana” ou “Vá chupar rola”. E ainda tem gente que acha que isso é um problema moderno. Não, é um problema antigo. Desde a época das primeiras civilizações, dos nossos antepassados longínquos. Evidentemente, o vulgar “vá chupar um canavial de rola” já foi proferido pelos mais diversos idiomas, pelas mais remotas civilizações. Só que agora as redes sociais deram ao discurso o equivalente a um megafone interplanetário.

Pois é! Vivemos em um tempo onde o discurso não é apenas o que você diz à algumas pessoas, mas o que você posta e o mundo inteiro lê ou vê imediatamente - e, mais recente ainda, agora o mundo inteiro fica perplexo diante das conflitantes peripécias que a Inteligência Artificial produz. Sem contar o fato de que o que você posta não é exatamente o que você quer dizer, mas o que você acha que ficará bonito com um filtro e a mesma dancinha de sempre, é claro! É a “vida líquida” - conceito de Zygmunt Bauman; já eu, chamo de “mundo rosa” -, aquele em que todos estão felizes, são inteligentes e incrivelmente bem iluminados. E o que ilustra muito bem são o Instagram e o TikTok. Eis a nova Metafísica: todos têm uma essência muito próspera e meticulosamente editada por filtros, efeitos e, claro, discursos/ linguagens vazias sob uma dancinha asquerosa.

Trasímaco tinha razão

  No Livro I da República, de Platão, a discussão sobre a justiça rapidamente deixa de ser uma investigação abstrata para assumir uma dimens...