sábado, 24 de outubro de 2026

O Dois Pesos, Duas Medidas e Duas Asas Angelicais

 


Existe uma categoria muito peculiar de pessoas que poderíamos classificar como Querubins. São indivíduos com alta capacidade intelectual que detém a fórmula da superioridade moral e, desde então, caminham pelo mundo com a expressão de quem acabou de flagrar Deus procurando seu smartphone usando a lanterna do seu próprio smartphone.

E qual o problema desse pessoal? É que eles têm princípios. Muitos princípios, aliás. Princípios para cada dia da semana, cuidadosamente selecionados conforme a opinião política de quem está sendo julgado.

Começa quando o Nantes ofende o Luiz. Fazendo um trocadilho com sua pequena amputação. Nesse momento, os Querubins entram em estado de emergência. Há discursos inflamados, declarações de repúdio, tratados sobre a decadência da civilização e, em casos mais graves, a exigência de que o responsável seja banido da sociedade e condenado a passar a eternidade assistindo aos cursos do ICL.

Mas eis que, algum tempo antes, Nantes sofrera um ataque muito mais grave. Levou uma facada. E o que fizeram os Querubins? Riram. Fizeram piada. Compartilharam memes. Chegaram a dizer que foi tudo mentira: fake! Outros, mais sofisticados, reconheceram que o ataque havia acontecido, mas explicaram que a vítima, afinal, foi culpada pelo atentado.

Ah! O Nantes não morreu. Porém, ficou com sequelas.

Aparentemente, a dignidade humana possui um sistema de assinatura de podcasts. Para alguns, o plano é “Love Premium”, um pacote integral de arrogância e prepotência contendo dezenas de ofensas, humilhações e comentários desagradáveis para usar contra o fascismo. Para os outros, a infernal versão gratuita: o pobre, o pequeno MEI, que inclui regras de empatia, frases de solidariedade, mas leva também o direito a não ser levado a sério - somente em Outubro, de quatro em quatro anos.

Os Querubins também possuem uma extraordinária habilidade para distinguir entre a violência hiperbólica e a violência do bem. Por exemplo, quando movimentos ou lideranças angelicais ocupam prédios públicos ou fazem atos contra decisões judiciais que desfavorecem seus líderes, são atos de resistência, democracia ou manifestação da vontade popular. Agora, se você profere “aquela mulher está grávida”, os Querubins vão lhe cancelar, segundo a novilíngua, por transformar a biologia básica em um crime contra a humanidade.

A moral, nesse ambiente, opera como uma balança desregulada: pesa cada grama de erro dos outros, mas ignora as toneladas de falhas dos seus camaradas.

Nesta semana surgiu o curioso fenômeno da checagem seletiva dos fatos. Chegaram ao nível de criarem um exército de checagem de notícias falsas que noticia falsamente suas checagens.

Acontece, de modo parecido, quando uma acusação desfavorece um adversário, basta um relato indignado nas redes sociais e a convicção de alguém que conhece o primo de alguém que estava virtualmente presente. A verdade está estabelecida: fascista! Agora, quando a acusação atinge sua legião: fake! Além disso, exigem documentos, perícias, testemunhas independentes, registros audiovisuais, reconhecimento internacional e, se possível, uma declaração assinada pelo próprio acusado.

Além do mais, há ainda a solidariedade por conveniência. Os Querubins defendem apaixonadamente o direito de todos serem respeitados, desde que o respeito seja uma Av. Brasil de mão única. Nesse caso, a solidariedade fica sem gasolina, a consciência se tranca na garagem e a coragem moral encalha na mecânica, como as verbas públicas para saúde, educação e segurança pública.

Quando confrontados com a contradição - e isso se dá com frequência, porque os Querubins não possuem senso lógico -, raramente admitem que aplicam critérios diferentes a pessoas diferentes. Preferem explicar que os casos não são comparáveis, que a ciência está equivocada, que a verdade é relativa. E talvez tenham razão, porque, quando o confronto acontece com uma de suas querubinas, a vítima pertence ao grupo certo; em contrapartida, outra mulher qualquer cometeu o imperdoável pecado de ser a vítima errada.

É uma espécie de relativismo moral de conveniência: quando lhes convém, relativismo. Ou seja, lançam mão de um recurso retórico de proteção à turma angelical. Contra os demais (Recua! Fascista, recua…), generalização, banalização, terrorismo e pânico social.

Naturalmente, ninguém está livre de contradições. Eu mesmo desconfio que, se a coerência moral fosse um requisito para a entrada no paraíso, boa parte da humanidade teria de aguardar na fila do SisReg. O problema não é falhar, hesitar ou reconhecer que temos preferências. O problema é transformar nossas preferências em princípios universais e depois fingir surpresa e se vitimizar quando alguém percebe a fraude.

A hipocrisia mais eficiente, afinal, não é aquela que esconde a própria moral. É aquela que usa a moral como uma muleta… Não. Melhor: como uma espada.

O hipócrita não precisa abandonar o discurso da justiça; basta reservar a justiça para os seus e injustiça contra os outros. Não precisa negar a importância da empatia; basta decidir antecipadamente quem merece recebê-la. Não precisa rejeitar a verdade; basta exigir que ela compareça apenas quando não atrapalhar seus interesses celestiais.

E assim os Querubins continuam sua missão civilizatória, indignando-se seletivamente, distribuindo absolvições entre amigos e condenações perpétuas entre adversários. Tudo em nome de princípios nobres, naturalmente. “Estou do lado do bem” - proferem -, “o amor venceu!”. Afinal, seria muito constrangedor admitir que, por trás de tanta virtude proclamada, existe apenas uma preferência tribal sob a égide do virtual general Jones Danones: rachador, assediador e violento.

No fim, talvez a pergunta mais incômoda não seja por que Nantes ofendeu o Luiz amputado, nem por que a ex-mulher de Jones foi atacada por ele. Mas esta: se os nomes fossem trocados, os princípios permaneceriam os mesmos? Se a resposta for não, não estamos diante de um mínimo de ética. Estamos sim diante de um exército de querubins que atualizou a novilíngua (de 1984) em pleno 2026 - e “ai” de quem não segui-la. E, convenhamos, poucas coisas são tão perigosas quanto alguém que confunde a própria lealdade com a justiça e ainda exige aplausos pela descoberta.

O Dois Pesos, Duas Medidas e Duas Asas Angelicais

  Existe uma categoria muito peculiar de pessoas que poderíamos classificar como Querubins. São indivíduos com alta capacidade intelectual q...