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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Se a vida é um sonho, o problema é estar acordado.

 

Tenho começado a desconfiar que dormir é uma atividade intelectualmente superior a viver. Digo isso, porque, é apenas dormindo que se pode sonhar, né?

No sonho, por exemplo, ninguém exige coerência. Você pode estar sendo entrevistado pelo falecido Jô Soares na estação do metrô e, cinco minutos depois, se deparar com um grupo de cavaleiros templários atacando pombos. E tudo parece perfeitamente maravilhoso. Você aceita a situação com a serenidade de quem compreendeu alguma coisa sobre a geopolítica atual no ICL.

Na vigília, não. Na vigília, tudo precisa fazer sentido. Você precisa pagar contas, votar no PT, ouvir Oruam, cumprir prazos, socializar e demonstrar alguma estabilidade emocional enquanto o motorista não para o ônibus quando você faz sinal na rua.

Em contrapartida, o sonho é democrático. Você pode entrar no avião do Vorcaro sem saber para onde ele vai, descobrir que o piloto é um dos filhos do Bolsonaro e, ainda assim, continuar a viagem como se tivesse apenas retornando de férias com amigos; você também pode acordar em um mundo comunista completamente desprovido de desigualdade: todos vivem igualmente na rua e o objeto mais valioso deste mundo é uma galinha. O cérebro simplesmente informa: “É assim mesmo”. E nós aceitamos.

Agora, experimente fazer isso acordado! Entre em um colóquio de Educação ou Filosofia e anuncie o IDH de Israel, que é considerado muito alto. Em menos de três minutos você estará fora do estabelecimento sob vaias e empurrões.

Talvez seja essa a grande vantagem do sonho: ninguém fica tentando verificar os fatos, se esperneando com palavras de ordem e tentando cancelar até o oxigênio - por possuir “gênio” em um dos radicais da palavra.

A vida desperta, ao contrário, tornou-se uma espécie de pesadelo com excelente conexão de internet. Violência gratuita, assalto, tiroteio, corrupção, pandemia, guerra, vídeos de quinze segundos e especialistas instantâneos, com um pessoal discutindo política sem possuir ética alguma de um lado e, do outro, um pessoal como se tivessem sido pessoalmente nomeadas pelo Espírito Santo para fiscalizar a humanidade. Tudo precisa ser reduzido a duas opções: esquerda ou direita. Como se o universo fosse uma porta giratória de banco.

Você lê uma notícia normal sobre a economia atual e, antes de terminar o segundo parágrafo, alguém já explicou, em trinta segundos, que aquilo aconteceu por causa da esquerda. Ou da direita. E é atemporal! Algo errado feito há 25 anos cai no colo de algum agente de hoje em dia como um fato inédito.

Às vezes tenho a impressão de que, se um asteroide for anunciado que vai atingir a Terra amanhã, haverá imediatamente alguém no TikTok dizendo:

— Isso é claramente culpa da extrema-direita.
E outro:
— Não. Isso é claramente coisa de comunista.
Enquanto isso, o apolítico asteróide vem, serenamente, destruir o planeta. Diante disso, nós:
Olhe para cima;
Não olhe para cima;
Olhe sim;
Não!
Não será mais um asteróide. Pelo contrário, será um vírus:
Fique em casa;
Não tome vacina;
Tome sim;
Não!

E então existem, na vigília, na prática mesmo, o YouTube, o TikTok e toda essa maravilhosa indústria de transformar qualquer ser humano em comentarista de absolutamente tudo - e não só!, há sempre o indignado que se propõe a resolver os problemas da humanidade em um espaço para 280 caracteres ou em um vídeo de poucos segundos. Antigamente, uma pessoa precisava ter, ao menos, anos de reflexão, de escrita, discussão. Hoje uma câmera frontal e Internet. Basta ter qualquer coisa para dizer.

O resultado é uma espécie de vigília virtual: estamos acordados, mas ninguém parece exatamente presente. Talvez por isso o sonho esteja tão interessante.

Primeiramente, no sonho, posso cometer uma quantidade extraordinária de erros sem consequências jurídicas - tipo desviar 10 reais de cada aposentado (eles nem darão conta mesmo). Posso tomar decisões absurdas, entrar em lugares impossíveis, influenciar promotores, supremos juízes e, se tudo der errado, simplesmente acordo.

Segundo, não há boleto! É uma sociedade perfeita!, pois não há grupo de WhatsApp - afinal, quem sonharia com o WhatsApp? Não há atualização obrigatória de aplicativo ou de sistema operacional; não é preciso antivírus (e nem de camisinha); muito menos sair em um lindo e ensolarado domingo para votar. Não!

Depois, não há ninguém dizendo, insistentemente, “precisamos dialogar”, “precisamos normalizar”. Você não ouvirá mais palavras como “resistência” - somente engenheiros, eletricistas ou de áreas similares; “todas, todos e todes” - sim, sempre proferem as três palavras juntas em começo de qualquer fala; você não lerá mais “interseccionalidade” - puro neologismo; não ouvirá falar em “corpos” de maneira intelectual, acadêmica - mais parece que todo esse pessoal trabalha no IML, no cemitério ou em funerária.

Além do mais, enfim, mesmo quando se é um pesadelo, existe uma certa honestidade nele, ética. O monstro quer me devorar e não finge que está preocupado com a minha condição financeira ou se sou contra ou a favor de Bolsa Família.

A vigília, em contrapartida, é mais sofisticada. Ela nos devora com mensagens e propagandas político-ideológicas; com alertas sobre o clima da misantropia, além das chamadas de golpistas bandidos no celular.

Ainda assim, além de toda essa chatice, existe uma coisa que preserva a dignidade e a felicidade plena na vida acordada: Flamengo. Não porque o Flamengo torne a realidade mais racional — Deus nos livre de exigir tanto de um clube de futebol —, mas porque há algo reconfortante na sua capacidade de transformar noventa minutos em uma experiência maravilhosamente metafísica.

Você começa o jogo acreditando que está assistindo futebol. Termina questionando a existência, a causalidade, o livre-arbítrio e suas próprias escolhas; passa a entender sobre estratégias, medicina, nutrição, física, química, matemática, economia e história... É talvez a única área da vigília em que o absurdo continua funcionando com método.

Por isso, ultimamente, tenho pensado que dormir não é exatamente fugir da realidade. Talvez seja apenas mudar para uma realidade onde as regras são honestas e a realidade é mais aprazível. Porque, no sonho, tudo é absurdo e ninguém esconde isso. Já na vigília, tudo é uma hipérbole absurda e ainda chamamos de “normal”.

E, sinceramente, entre ter aulas de Jiu-Jitsu com Aristóteles na fila da farmácia por um lado e, por outro, passar mais de três horas lendo discussões políticas na internet, começo a considerar seriamente a hipótese de que a vida/realidade acontece, definitivamente, durante o sono.

Boa noite!

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Do Livro 1 da Metafísica até o supermercado


Há um bom tempo comecei a ler a Metafísica de Aristóteles. Fi-lo por mim mesmo. Já são anos de leitura - e a tentativa de compreender o primeiro parágrafo. 

Essa insistência ocorre até os dias atuais. No entanto, graças à faculdade, já consigo avançar até o terceiro parágrafo - isso sob bastante interrupção de ordem cognitiva e de ordem natural também.

Pois bem, semana passada, estava lá, eu, inquieto, lendo o Livro I da Metafísica do querido filósofo. Algumas pausas para reflexão - tipo, “não entendi esta frase” -; algumas outras pausas por conta de um casal de bem-te-vis que reside em frente à minha janela. Enquanto eles discutiam quem ia à caça para alimentar seu filhote, eu discutia comigo mesmo: putz! um pãozinho agora ia bem…


Ok! Voltei-me à leitura. Porém, o fazia no mesmo rito de décadas atrás, me destraindo com algo e, momentos depois, retomando à obra. Eis que diante de muito esforço consegui ler algo que dizia o filósofo "[980b 25] Assim, os outros animais vivem com as aparências e com as recordações, mas compartilham pouco da experiência... (tive nova distração com o casal de bem-te-vis); o gênero dos homens, por sua vez, vive também com técnica e raciocínios... (interrupção para lembrar que menos de 10% dos humanos são assim).


Desci mais um parágrafo e parei novamente… Quando dei por mim, estava no corredor de laticínios escolhendo atum enlatado ao óleo. Não havia portal mágico, nem viagem no tempo, nem sequer feitiço ou mera imaginação. Era apenas o cérebro humano, essa máquina brilhante de procrastinação sofisticada - e esfomeada - que levou meus pés e pernas caminharem até lá. O cérebro escolhe o que há de mais importante e urgente no dia e, quietamente, diz: Agora não! Tem coisa melhor para fazer, como excluir aplicativos inúteis do smartphone.


Você, leitor, deve estar pensando (ou procrastinando como eu), “ler deve ser muito chato para você. Definitivamente, você não tem paciência com leituras”. No entanto, não é esse o caso. Sempre tive vontade de ler. A vontade é superior, porque se eu não a tivesse, aí sim seria justo dizer que é chato. Por exemplo, Gosto tanto que tenho até uma pequena biblioteca em casa! — não daquelas decorativas, com livros marxistas que nunca foram abertos, mas uma coleção honesta de obras que me olham com a expectativa de um flamenguista numa cobrança de pênalti do seu time. Outro paradigma conta com meu falecido pai. Ele vendia livros, além de ler muito. Então cresci cercado por enciclopédias, dicionários, jornais e revistas. A leitura era inevitável, quase genética. Assim sendo, é perceptível, por ora, saber que o problema não é o caso de eu não gostar de leituras.


Puxa, como é bom dialogar com autores, viajar mentalmente por mundos e ideias — principalmente com a Filosofia. Mas há aqui um detalhe técnico: sou impaciente, muito inquieto, hiperativo. Meu cérebro não funciona em modo "leitura densa" diante de 3 horas ininterruptas de percepção sensível visual - princpalmente diante de telas iluminadas (mesmo que seja um Kindle). Meu cérebrbo funciona em modo Twitter existencial, com seus 280 caracteres - acredito que boa parcela do mundo funciona dessa maneira atualmente.


Diante disso, com costumaz percepção filosófica, apresentarei alguns paradoxos, apenas para se ter ideia de como é chato se prestar a ler uma obra, que o autor levou décadas para excrevê-la, mas que em 5 minutos você a deixa de lado por qualquer distração. Primeiro, como eu posso declarar gostar tanto de ler, sendo que eu não consigo passar de um parágrafo ou capítulo de uma leitura fácil e agradavél? Tipo, adiquiri o livro caro, arrumei um espaço tranquilo para lê-lo, mas passados 5 minutos eu prefiri deixar a leitura para ir arear uma panela?


Ou seja, como pode a Metafísica de Aristóteles — um assunto caríssimo, pelo qual dedicaria toda a vida — perder a batalha para a vontade súbita de fazer embaixadinhas com objetos avulsos? Como pode um pensamento aleatório sobre “suco de tomate” ser mais interessante que os modos de conhecimentos dos animais - incluindo o mosquito da dengue - ou que as características das quatro causas de tudo o que existe?


A resposta a seguir não se refere a estas antigas questões supracitadas. Na verdade é até uma resposta simples e tão deprimente quanto arear panela. O cérebro humano é um mestre em evitar o difícil escolhendo o trivial; largar o pesado e se agarrar ao mais frágil. Será que é mais fácil ir ao supermercado comprar batata rostie do que enfrentar a densidade de uma obra que exige paciência, foco e a renúncia temporária do ego? 


Nossa… Que constatação! Será que o Guanabara, além de seu propósito como supermercados, soa como uma zona de conforto filosófico? Uma espécie de Jardim de Epicuro ou de Aristóteles?


Assim eu me encontrava: prestes a abrir uma das obras mais icônicas da história da humanidade, e em vez disso estava comparando preços de “caldo de ossos”. Não foi um acidente. Foi uma fuga calculada da mente, burlando para não encarar um titã grego encarnado num livro pesado. Sim! Estudar pode ser similar a dor. Só que o nosso querido cérebro, em sua sabedoria evolutiva, decidiu que era mais seguro enfrentar os preços do supermercado do que encarar a Metafísica. 


Afinal, no supermercado ninguém pergunta "o que é a Substância?” ou “quem gerou o primeiro Ser?" No supermercado, o Ser é claramente definido: é o que está em promoção no clube do assinante! E a única pergunta coerente e mais objetiva é "cartão ou pix, senhor?". "No crébito", respondo.


O mais engraçado — ou trágico, dependendo do do ponto de vista — é que um lanche durante uma leitura é importante. Comer um sanduíche de presunto enquanto se lê o Diário de Anne Frank é bem legal... Mas quando o lanche se torna o evento principal e a leitura vira o intervalo entre as compras, algo deu errado no fim último do Ser.


Aristóteles diria que isso é um exemplo perfeito de akrasia — agir contra o próprio julgamento, contra si próprio. Ora, eu sei que devo ler, sei que a leitura é importante, porém, lá vou eu, novamente, ao supermercado, porque o pão com mortadela é mais imediato, mais tangível, mais... palatável do que a questão sobre a Substância. 


Enfim, assim, entre uma compra e outra, entre uma página e outra, percebo que a verdadeira metafísica não está nos livros, mas na capacidade humana de transformar uma tarde de leitura em uma expedição gastronômica reflexiva. Aristóteles mesmo acreditava que se pensava melhor passeando - eis os peripatéticos! Talvez eu tenha herdado esse DNA a respeito do conhecimento aliado à grande vontade de fazer um lanche.

Se a vida é um sonho, o problema é estar acordado.

  Tenho começado a desconfiar que dormir é uma atividade intelectualmente superior a viver. Digo isso, porque, é apenas dormindo que se pode...