Por Venerável Juremo.
Eu estava lá, sentado no balanço da praça do meu bairro, pensando em algumas questões filosóficas. Seguia tentando entender Aristóteles enquanto uma adolescente berrava retumbantemente o nome do seu filho perto da minha orelha como um Kraken com tesão por filosofia.
Gente, eu sou um cara comum, professor de cursinho pré-vestibular que vive sonhando com enteléquias em vez de ocupar meus pensamentos com ônibus lotados, e naquele dia decidi que ia aplicar a metafísica na vida real – porque, afinal, se o Estagirita resolveu o universo com quatro causas, eu ia resolver meu trajeto até Abu Dahbi com potência e ato.
Primeiramente, a POTÊNCIA, sabe como é, né? É aquela capacidade latente de algo poder vir a ser, tipo a semente que sonha em ser árvore sem nunca ter visto um gari da Comlurb - quiçá a Fundação Parques e Jardins. Depois, o ATO é a atualização plena dessa capacidade, o estado realizado e completo, onde o que era só possível agora existe em plenitude, como uma árvore adulta (porém já como potência para vir a ser uma escrivaninha ou uma cama beliche sendo anunciada pelo "velho da Havan". Coitada!).
No dia seguinte, saí de casa potencialmente às sete, mas em ato às nove e meia. Potência pura: meu corpo como possibilidade de chegar ao trabalho, minhas pernas em potência de correr uma maratona, minha vida como capacidade de não virar estatística do OTT.
Todavia, veio o que muitos já esperam das ruas do Rio de Janeiro, né? Na esquina de uma rua próxima, dois caras de bondes rivais trocavam tiros como se fossem figurinhas da Copa do Mundo. "Ei, Juremo!", gritou o Mohamed, meu vizinho, que em potência é médico, mas em ato é olheiro do Comando. "Corre pro ato, irmão, que o devir tá feio hoje!". Eu pensei: sim, o movimento está sinistro hoje! Ele costuma atualizar em potência armada ameaçando qualquer possibilidade de eu procriar e gerar herdeiros. Corri, tropeçando em um cachorro vira-lata que, em potência, era um enorme lobo, mas em ato era só um monte de pelos caramelos.
Chegando na outra esquina, em frente à padaria, o pão em potência de ser quentinho atualizou-se em farinha no chão – tiroteio de novo, agora com a PMERJ chegando para atualizar a potência de paz em ato de caos redobrado.
Eu me joguei atrás do balcão, suando como Sócrates após a cicuta, e o padeiro, seo Dierre, um sujeito barbudo que lê Schopenhauer nas horas vagas - e até mesmo enquanto atende os clientes -, me disse: "Juremo, na verdade isso é o devir hegeliano, só que com fuzil e objetos de calibre .762! Neste cenário, a tese do tráfico encontra a antítese da polícia na síntese de buraco no peito". "Não, não!", retruquei, enquanto uma granada em potência de explodir se atualizava a treze metros: "É aristotélico: o narcotráfico em potência de paraíso virando ato de inferno, com o kinesis e todo o seu movimento guiado pelo tráfico como causa final – afinal, quem precisa de Deus quando se tem o Comando no controle, não é?".
E eu lá… Entre pães, cavacas e farinhas, rindo daquilo tudo junto com o padeiro, acabei me flagrando imaginando a minha tese de doutorado sobre enteléquia, hilemorfismo e aitia sendo interrompida por um "pah-pum… É nós, filho da puta!" que atualiza minha potência de filósofo em ato de presunto sabor pólvora.
Eis que chego na estação do metrô, lotado como a alma de um niilista em feriado religioso, um assaltante em potência de vítima da sociedade me atualizou para o ato de trouxa: "Perdeu, mané! Me dê o celular, ou o devir do teu story vira eternidade!". Expliquei pra ele, entre o pavor e o delírio, que eu era um mero professor: "Mas irmão, isso é só kinesis, i.e., é só agitação, movimentação. Tudo bem! Tudo bem… Minha potência financeira está no banco, mas em ato ela está no teu trinta e oito!". Ele riu – riu mesmo, como se eu fosse o Woody Allen – e me devolveu o celular: "Em potência sou suspeito, mas em ato sou senso de humor. Tu és engraçado, cara! Vá dar tua aula, professor".
Saí na Cinelândia pensando: será que Aristóteles previu isso? O devir teleológico do carioca é virar herói de filme de quinta categoria, florescendo não em árvore, mas em escudo humano entre gangues do narcotráfico.
No fim do dia, de volta ao meu bairro, vi minha namorada, que em potência era psiquiatra, mas em ato era chapeira do Estagira Lanches. "Juremo, você tá vivo? Que enteléquia é essa de suar frio?". Abracei-na, sentindo o ato pleno da nossa potência amorosa – até o som de fritura em meio às retumbantes pás de um helicóptero atualizarem-me em pânico.
No Rio, a metafísica não é abstração; é o devir diário onde a potência de um dia normal floresce em ato de tragédia. E eu, ansioso-TOC-hiperativo-hipertenso como sempre, só penso: se o Aristóteles visse isso, escreveria uma nova “Parva Naturalia - edição para cariocas" e ganharia outro Prêmio Nobel póstumo. Mas quem sou eu pra julgar? Amanhã o devir continua – teleológico, irônico e com farta munição.
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