Sempre achei curioso que a filosofia nos ensine a enfrentar a morte com serenidade, mas não tenha produzido um manual convincente sobre o que fazer quando o cérebro resolve se aposentar no meio do percurso árduo e trabalhoso diante de toneladas de papéis - ou bytes - de tratados, ensaios e análises.
Meu medo nunca foi morrer. Morrer é quase elegante - diz aquele que tem intimidade com as obras de Heidegger. Porque a morte é definitiva. Possui um certo rigor lógico, como em Hegel.
Entretanto, antes disso, meu medo sempre foi o Alzheimer. Não! Não o neuropsiquiatra alemão Alois Alzheimer, que ao menos teve a decência de descobrir alguma coisa - bem diferente de Heidegger, Hegel, Kant ou Schweinsteiger. Meu temor, em suma, refere-se à doença. Aquela que transforma uma biblioteca inteira de Filosofia e Humanidades em um terreno improdutivo assentado pelo Boulos.
Passei quarenta anos lendo filosofia. Quarenta anos!
Meus colegas, que ascenderam socialmente - sim! Alguns já estão morando no Grajaú, outros no Catete -, aprendiam criptomoedas, mídias sociais ou a cantar funk, enquanto eu decorava distinções entre antinomias, a diferença entre potência e ato e perdia tardes inteiras com Schopenhauer - outro alemão! -, conversando “Sobre a quadrúplice raiz do princípio de razão suficiente”
E não só!
“Li toda a Metafísica, a Física e o De Anima, de Aristóteles.”
“Li a Crítica da Razão Pura, de Kant”.
“Li Ser e Tempo, de Heidegger”.
“Li estes livros inteiros!”
É uma frase que não impressiona ninguém, porque as únicas pessoas que sabem o que isso significa também perderam a capacidade de sentir qualquer alegria na vida.
O problema é imaginar que, um belo dia, eu acorde, olhe para a estante e pense:
— "Quem escreveu esse livro aqui?"
Alguém responde:
— "Oruam de Nepomuceno."
E eu retruco:
— "Ah, sim... aquele filósofo pré-socrático!"
(Isso me aterroriza).
Não por vaidade intelectual. A essa altura, já aceitei que metade do que li provavelmente entendi errado e a outra metade fingi que entendi. O verdadeiro horror é outro!
Imagine esquecer a “Crítica da Razão Pura”, mas lembrar perfeitamente de um comentário aleatório no Twitter dizendo “Lula foi o maior presidente da história, porque acabou com a fome e erradicou a miséria no Brasil” e essa ser a única frase preservada pela minha memória. Quarenta anos de metafísica substituídos por um comentário - sempre escrito depois das 12h - por alguém cuja foto de perfil é do Goku. Isso não é uma doença. É uma tratado pessimista sobre a condição humana. Sempre dizem que o cérebro guarda aquilo que tem maior carga emocional. Putz! Estou ferrado...
Porque, lendo Aristóteles - que não era alemão, mas se o fosse, não faria diferença alguma - nunca senti tanta emoção quanto a uma discussão entre uma velha jornalista e uma jovem influencer brigando por causa de um meme sobre feminismo.
Talvez, no futuro, meu neurologista pergunte:
— "O senhor sabe quem foi Heidegger?"
E eu responda:
— "Não... mas lembro que um sujeito chamado azwhart321 escreveu um fio de cinquenta postagens provando que Nietzsche, outro alemão, era comunista".
O médico anota:
"Memória episódica preservada. Infelizmente." Entretanto, há outro pesadelo. Esquecer todos os filósofos, mas conservar apenas as notas de rodapé. Imagine lembrar exatamente que a Edições Loyola coloca determinada passagem em [980a 21] sem fazer a menor ideia de quem era Aristóteles. É como lembrar o número da sua vaga no estacionamento e descobrir que você sempre andou de ônibus. Ou pior! Passaria os dias defendendo uma posição cuja tese desapareceu. Pensando bem, talvez isso já descreva alguns congressos. Também temo esquecer a filosofia alemã - não o suficiente para deixar de sofrer.
O suficiente para lembrar apenas palavras soltas. "Geworfenheit." "Vorhandenheit." "Zuhandenheit." Sem qualquer significado. Seria como ser assombrado por móveis da IKEA ou ser fotografado pelas câmeras Tekpix. E existe uma ironia particularmente cruel.
Aristóteles dizia que todos os homens desejam naturalmente conhecer [980a 21]. Imagine desejar conhecer e… esquecer, cinco minutos depois, o que desejava conhecer. É uma tragédia grega escrita por Woody Allen.
Às vezes olho para minha biblioteca e faço um cálculo mórbido. Se um dia eu esquecer tudo, quantos quilos de papel restarão representando aquilo que um dia fui? Talvez a identidade humana seja apenas isso: uma pilha de livros esperando que alguém ainda saiba por que os comprou. No fundo, o medo não é perder Aristóteles, nem Kant, Heidegger e Hegel. É perder a pessoa que levou quarenta anos para encontrá-los. Porque livros podem ser comprados outra vez. A memória, infelizmente, não possui edição revisada. Embora eu admita que existe uma possibilidade ainda mais assustadora: depois de esquecer toda a filosofia, eu finalmente compreenda o Númeno kantiano ou o Dasein heideggeriano.

Nenhum comentário:
Postar um comentário