segunda-feira, 16 de março de 2026

Rua Hannah Arendt, 666. Malengo. Rio de Janeiro/RJ.



Se Hannah Arendt tivesse passado um fim de semana no Rio de Janeiro — suponhamos hospedada em Copacabana, com vista para o mar, água de coco e um ocasional tiroteio ao fundo — talvez tivesse atualizado seu famoso conceito da banalidade do mal. Não que ela precisasse mudar a teoria. Só teria que subir à suíte, tirar seu biquíni e ter que acrescentar um capítulo chamado algo como: “A escola de Eichmann encontra o narcotráfico tropical.”

No livro “Eichmann em Jerusalém”, Arendt descreveu o julgamento de Adolf Eichmann e chegou a uma conclusão profundamente desconcertante: o genocida não parecia um demônio saído diretamente do inferno. Parecia um funcionário público particularmente entediado no dia de segunda-feira. Ele não era um vilão mortal operístico. Era um… burocrata.

Alguém que dizia coisas como: “Estou apenas cumprindo ordens”, provavelmente enquanto organizava planilhas sobre genocídio com a mesma empolgação de quem confere multas de trânsito e 2ª via de notas fiscais.

Arendt percebeu então algo assustador: o mal não precisa de chifres, expressões de ódio ou trilha sonora da Madonna. Às vezes ele aparece com cara de gerente administrativo - ou atendente da lotérica.

Agora imagine transportar essa observação filosófica para certas engrenagens do narcotráfico carioca. O que vemos muitas vezes não é um vilão shakespeariano refletindo sobre o abismo da existência. É um rapaz de vinte e poucos anos com um fuzil de uso exclusivo das forças armadas de Israel, um rádio comunicador e um plano de carreira relativamente nobre: começar como “olheiro”, virar “soldado”, depois quem sabe “gerente”. Uma progressão funcional bastante organizada, exceto pelo detalhe de que inclui execuções e torturas ocasionais - Nada muito pessoal.

A execução de um morador local, por exemplo, não é necessariamente tratada como tragédia moral ou violência desumana. Não! É mais como uma tarefa administrativa. Algo entre entregar um relatório e resolver um problema logístico.

— “Fulano falou demais.”
— “Ok, providencie.”

E pronto. O mal, nesse sentido, deixa de ser dramático. Ele vira rotina. Como uma fábrica de patês e presuntos.

É exatamente isso que Arendt queria dizer quando falou em banalidade. O problema não é APENAS o fundamentalista ideológico ou o psicopata eleito pela maioria. O problema é quando a violência passa a funcionar como procedimento padrão. Algo como:

“Bom dia, equipe. Na pauta de hoje temos: controle territorial, cobrança de taxa de internet e duas execuções antes do almoço. Ok? Vamos lá. Vamos produzir!”

No fundo, a engrenagem funciona com uma eficiência quase empresarial. Há hierarquia, divisão de tarefas, metas implícitas e, imagino, até avaliações de desempenho — embora tudo pareça terrível, nesse caso, o feedback soa um pouco mais… cômico:

Zé Pequeno, vamos começar pelos pontos positivos. Sua pontualidade nas execuções foi exemplar - embora você tenha errado dois tiros no último alvo. Os relatórios indicam que você chegou antes do horário em 95% dos tiroteios, o que demonstra comprometimento com a equipe. Agora, pontos de melhoria: no episódio da terça-feira você deixou uma testemunha viva - irá corrigir isso hoje. Entendemos que ninguém é perfeito, mas a diretoria pede mais atenção aos detalhes. Excelência operacional começa pelo básico.

Enquanto isso, a cidade segue sua vida normal.

Turistas fotografam o pôr do sol no Arpoador. Os influencers fazem yoga no Leme. E em algumas áreas o poder público aparece com a frequência do Cometa Halley. Diante dessa normalidade, a verdade é que quem realmente administra o cotidiano são as vítimas dessa sociedade; vítimas dos seus próprios usuários; traficantes que não tiveram escolhas na vida - mas escolheram integrar-se a uma facção criminosa; alguns com mais armamento do que muitas nações.

É aqui que a reflexão de Arendt ganha um sabor particularmente irônico. O que ela percebeu no julgamento de Eichmann não foi apenas a existência do mal, mas sua única escolha com capacidade de se tornar burocraticamente banal e a dizer “sim” para tudo de ruim. E talvez esse seja o ponto mais inquietante.

Quando a violência se torna rotina, ela deixa de chocar. O cidadão carioca sequer se assusta ao estampido de um disparo de .762. Há um corpo crivado de balas no chão? Ninguém mais vira o rosto, quiçá sentem-se dóceis e intimidados pela afirmação da ordem social. Vão lá fazer lives, filmar, tirar fotos para jogar no grupo dos amigos. “Vigiar e punir”, do querido francês Michel Foucault, perdeu todo o sentido atualmente.

Estas e outras situações cotidianas - que não se pode mais dizer que são violentas - nas grandes metrópoles viram apenas mais um elemento da paisagem urbana — como o trânsito, o calor de 40 graus, o preço absurdo do café ou os milhares de pombos nas ruas.

E quando matar vira apenas um item de procedimento, o problema já não é apenas policial ou da Segurança Pública. É filosófico.

Porque, diante desse cenário todo já estabelecido, recuperar o monopólio da força do Estado é deveras difícil. Mas talvez ainda mais difícil seja recuperar algo que Arendt considerava essencial para evitar que o mal crie raízes profundas: a capacidade humana de parar e pensar antes de obedecer, além da coragem para dizer “não” à maldade.

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Rua Hannah Arendt, 666. Malengo. Rio de Janeiro/RJ.

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