Fui a Porto Alegre com meu amigo Ciolu e um amigo dele chamado Oruam. Já começo dizendo que viajar com duas pessoas é complicado porque cria uma espécie de micro-sociedade instável: duas pessoas podem discordar e ainda assim sobreviver, três pessoas formam facções. Além disso, viajar sempre me deixa nervoso. Não por medo do avião — morrer em um acidente aéreo seria quase elegante, uma morte geométrica, organizada, com estatísticas envolvidas -, mas viajar significa comer em lugares desconhecidos, e comer assim significa entregar sua vida a alguém que pode ter aprendido culinária indiana, por exemplo, vendo vídeos de três minutos na internet.
Agora, esse amigo do amigo é complicado. Sempre que teu amigo diz “esse aqui é um amigo meu”, eu fico apreensivo. Porque isso cria uma relação moralmente indefinida. Se a pessoa fizer algo constrangedor, eu devo intervir? Ou posso alegar que a responsabilidade social, nesse caso, é do Ciolu? A ética da amizade indireta é um problema filosófico que ninguém parece disposto a resolver.
Oruam, aliás, não é o Oruam das pastas de retrato falado da delegacia, nem daquele famoso cantor do Youtube. Embora, depois do desembarque em Porto Alegre, eu tenha começado a suspeitar que muitos artistas talvez surjam exatamente em um momento de desespero, cantando frases incompletas para estranhos enquanto tentam descobrir se aquilo é arte ou apenas um colapso nervoso em forma de música. Enfim…
Chegamos à cidade com fome e dinheiro suficiente para comprar aproximadamente um conceito de refeição, mas não uma refeição real. Essas condições, quando combinadas, historicamente produziram revoluções, golpes de Estado e restaurantes universitários.
Então fizemos o que qualquer trio de homens em crise existencial faria: compramos pastel com caldo de cana. Agora, existe algo profundamente perturbador sobre pastel barato em cidade desconhecida. Você olha para ele e começa a pensar em coisas que nunca pensaria normalmente: Esse óleo ainda é aquele da década de 90? Esse óleo lubrifica propulsores de foguetes da NASA? O que você sugere como sobremesa? Desengordurante?
E a pergunta que deu vontade de voltar à barraquinha e perguntar ao dono: Quem decidiu que aquilo era recheio?
Dei uma mordida.
Não era carne, não era queijo, não era vento — era algo entre os três. O óleo era tão predominante que, por um momento, pensei que talvez estivéssemos participando de algum experimento culinário inspirado em Friedrich Nietzsche: se você encara o abismo do óleo, o óleo encara você de volta.
O pastel tinha aquele tipo de sabor que só pode ser descrito como ontologicamente incerto. Ele tinha gosto de óleo. Não “gosto de óleo”, mas gosto apenas de óleo. Era como morder um livro da Judith Butler.
A cana, por sua vez, era intrigante. Porque caldo de cana deveria ser doce — isso é praticamente um axioma da natureza. No entanto, aquele líquido tinha um gosto que lembrava a água da qual a dengue desistiu da vida.
Foi nesse momento que Oruam tomou uma decisão. Ele se levantou. Quando alguém se levanta abruptamente em espaço público, existem três possibilidades: vai ao banheiro (normal), vai embora (impossível), vai fazer algo profundamente constrangedor (bingo!).
— Vou cantar.
Eu senti uma leve dor no estômago que, por um instante, achei que fosse o pastel. Depois percebi que era antecipação social do desastre, ou vergonha alheia mesmo.
Ele começou:
— “Antes de pensar em matar…”
E parou.
Silêncio. Ele não continuou.
— Isso é a música inteira? — perguntei.
— Ainda estou compondo…
— Então por que começou pela parte homicida?
— Impacto artístico.
E ele repetia a frase. Para cada pessoa que passava.
— “Antes de pensar em matar…”
Agora, existe algo profundamente perturbador em ouvir metade de uma frase ameaçadora repetida por um desconhecido em uma praça. As pessoas reagiam de maneiras previsíveis: algumas riam nervosamente, outras aceleravam o passo, e um senhor fingiu atender um telefone que claramente não existia. Eu senti uma mistura educação e medo — o mesmo que você usa quando um desconhecido no metrô começa a explicar física quântica usando apenas gestos manuais.
Oruam ria. Começava a frase, interrompia-na abruptamente e ria. Era uma risada estranha. Não era alegria. Era a risada de alguém que percebeu que talvez esteja vivendo uma versão experimental da própria biografia.
Decidimos então sentar numa praça. Sentar numa praça é sempre perigoso intelectualmente, porque o cérebro humano, quando o corpo está parado e mal alimentado, tende a produzir filosofia espontânea.
Em poucos minutos estávamos discutindo Hannah Arendt.
Não lembro exatamente como chegamos nisso. Acho que alguém mencionou autoridade, depois responsabilidade, depois violência — e de repente estávamos analisando a antiga Czechoslovakia enquanto segurávamos copos de caldo de cana emocionalmente deprimido.
Depois o assunto virou krav-magá.
Ciolu argumentava que certos golpes funcionam como vírgula.
— Interrompem a frase da pessoa.
— E o ponto final? — perguntei.
— No nariz — respondeu ele.
Oruam discordava.
— O golpe perfeito é reticência.
— Como assim?
— Porque depois dele…
Essa foi provavelmente a frase mais profunda dita naquele dia.
Foi então que Ciolu fez amizade com um mendigo. Isso aconteceu de maneira tão rápida que até hoje suspeito que Ciolu possua algum tipo de talento sociológico secreto: esmola. Provavelmente as únicas moedas que possuímos foram objetos de um gesto admirável.
— Estamos discutindo filosofia política e artes marciais — disse ele ao homem. — Quer participar?
O mendigo aceitou imediatamente. O que me levou a duas hipóteses: ele era um pensador subestimado, ou simplesmente estava entediado. No entanto, antes que qualquer diálogo mais profundo acontecesse, Oruam, obviamente, interpretou isso como oportunidade de público.
— Vou cantar pra ele.
Eu tentei intervir.
— Talvez ele esteja tendo um dia difícil…
Tarde demais.
— “Antes de pensar em matar…”
Ele cantou olhando diretamente nos olhos do mendigo. Em seguida, testemunhei algo impressionante: o homem pareceu ficar mais triste. Eu não sabia que isso era possível. Existe um ponto em que a tristeza deveria saturar, como um copo cheio, mas aparentemente o ser humano possui capacidade infinita para decepção artística.
O homem ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois disse:
— Vocês não são daqui.
Confirmamos.
Ele então se inclinou para frente, conspiratório, e disse:
— Tem uma coisa estranha acontecendo em Porto Alegre.
Minha mente imediatamente começou a produzir teorias: crise econômica, fenômeno cultural, talvez algum movimento filosófico clandestino inspirado no MST. Só que não.
— Fiscais de qualidade.
Silêncio.
— Eles aparecem do nada — explicou ele — e o pior é quando eles vão em cima dos pastéis. Isso me deixou profundamente inquieto. Porque há pouco havíamos devorado alguns.
— Perguntas de que tipo?
— Por que não se usa garfo e faca para degustar essa iguaria popular? Você usa ketchup dentro ou fora da massa do pastel?
Ciolu começou a suar. Já eu, comecei a rir.
— E o que acontece se o pastel for ruim?
O mendigo deu de ombros.
— Nada. Eles só olham para você com decepção.
Agora, a decepção silenciosa é uma das forças mais destrutivas da psicologia humana. Crítica você discute. Insulto você rebate. Mas decepção… decepção te obriga a reconsiderar todas as escolhas que fez desde a infância.
Foi nesse momento que percebi algo perturbador. Oruam estava olhando para o próprio pastel.
— Sabe — disse ele — acho que entendi a Hannah Arendt.
— Você leu Arendt?
— Não.
— Então o que entendeu?
— A banalidade do mal. Querem nos matar com pastéis.
— E?
— Talvez o verdadeiro mal banal seja isso aqui. - Oruam ergueu o pastel.
O mendigo assentiu lentamente.
— Antes de pensar em matar. Pense em dar educação… - continuou Oruam.
— Putz! Evoluiu - comentou Ciolu.
Porque, pela primeira vez naquele dia, alguém havia formulado uma tese filosófica empiricamente verificável. E, pela primeira vez também, Oruam cantou mais que cinco palavras - e menos que dez - um tanto coerentes para quatro indivíduos tristes e famintos.
— Pastel sem sabor — disse o mendigo.
E ficamos ali, em silêncio, contemplando a possibilidade perturbadora de que talvez o eventual colapso da civilização não venha por causa da extinção das abelhas, aniversário de supermercados, contendas entre movimentos estudantis ou por conta do fim do TikTok. Talvez venha simplesmente porque alguém decidiu que óleo suficiente já é um novo e saboroso recheio.