sexta-feira, 17 de março de 2017

Eternamente...

Olha meu jovem,
Um belo dia a idade “me pegou”. Havia chegado o tão esperado e pavoroso momento. Pavoroso, porque, ninguém trata esse assunto com esperança ou positividade. Já eu, não vejo-o desta forma. Então, eu estava bem ai - na terra onde pulsa os corações - e me levantei da cama. A alvorada estava despontando e me direcionei ao meu acalentador quintal, com meu pequeno e colorido jardim, os pássaros, algumas galinhas, etc. Vinha por aí, então, uma manhã tranquila e fresca. Começou a sair um belo Sol onde tudo brilhava ao ser tocado por ele. Sentado na minha cadeirinha, no meu quintal dos fundos de casa, eu apreciava minha pequena horta e o amanhecer; minhas pequenas árvores, que eu e minha mulher plantamos; as galinhas já cochichando, o meu cãozinho estava quieto me olhando abanando o rabo querendo brincar; tudo estava tão quieto, pássaros já ensaiavam as primeiras notas de seus cantos… Pois bem, tudo rotineiro, porém, tão sublime!

Minha mulher dormia no quarto. Meu filho e netos moravam em outra cidade. Nesse lar, somente eu e minha mulher. Mas então… Eu me sentia tão bem, tão leve, tão feliz que… Um vazio me veio de surpresa. Não um vazio deprimente, algo solitário, angustiante, não! Mas um vazio sereno, pleno. Nada me enchia mais e nada mais, também, havia de me preencher. Sem ansiedade, sem preocupação, sem depressão, nada! Aliás eu nunca havia sentido essas “doenças” modernas, que esteja bem claro. Então, naquele momento, no meu pequeno quintal, eu simplesmente era eu. Pleno!

Pois bem, nessa hora, parecia o Sol ter se aproximado um pouco para me desejar ”bom dia”. Não pelo calor, que a essas alturas derreteria tudo, mas pela luz imensamente forte que se fez ao meu redor cobrindo toda a casa - pelo menos até onde pude ver. Flores caiam sobre mim, chovia pétalas, folhas; que coisa mais linda!; os pássaros cantarolavam ao meu redor. Eu levitava: tinha a disposição de um jovem atleta; a felicidade de uma mãe na formatura de seu filho; a serenidade de um monge budista... Tudo isso somava-se a mim. Aquelas dores chatas, que vêm com a idade? Realmente foram-se embora. O que mais eu poderia achar? Pronto, morri! E fiquei procurando meu corpo pelo chão do meu quintal. E nada. Mas era tanta luz ao meu redor, que, mesmo que eu quisesse, nunca ia achá-lo. Eu só via as flores, as árvores, alguns pássaros, insetos voando, aqui, acolá, enfim a vida, a beleza da vida. E eu falei comigo mesmo: ”a morte traz essa felicidade toda? Essa leveza, o Sol bem pertinho? Não, não creio. Deve ser delírio, ou algum sonho muito intenso. Deve ser a idade, ou alguma droga”.,
Olhei para cima e vi o céu bem mais azulado que de costume. O verde, a mata, a grama, as flores, reluziam! Elas emanavam algo como se fossem uma espessa fumaça cintilante - ainda pensei: “será que fez frio nesta madrugada, para estas folhas degelassem tanto assim com o sereno?”
Meu caro, tudo onde eu olhava, parecia o “Mundo encantado da Disney”. Eu não esperava aquilo tudo realmente. Contudo, retornei para dentro de casa para descansar, achando ser alguma fraqueza, ou alguma coisa da cabeça já cansada, de quase um século de vida. Passei pela varandinha, entrei na cozinha, com meus passos que estavam leves e ariscos. Havia uma disposição, que… Eu parecia ter pulmões de quando eu tinha dez anos de idade - só que a julgar minha idade, as coisas já não eram bem assim. Mas naquele momento, eu estava sem peso nenhum. Com uma alegria plena que eu já vinha sentindo há alguns anos, isso de fato foi notório. Eu sempre fui feliz. Ora uma dor aqui, ora uma tristeza ali… Mas o ser humano não está.livre disso. Há sofrimentos. Mas há graus nesses sofrimentos. E que manipula estes graus, somos nós mesmos.
Então, adentrando-me em meu lar, com meus caminhos sempre iluminados, depois que o Sol “baixou-se” para mim, eu avançava para meus aposentos; minha humilde casa, parecia estar envolta a um grande e brilhoso diamante; os móveis, objetos, tudo, pareciam de ouro também. Até que, para minha surpresa, eu entro no quarto e me flagro lá, dormindo ao lado de minha mulher. Oh, minha velha guerreira, companheira, cúmplice, amor da minha vida. Fiquei confuso nos primeiros minutos, mas logo compreendi. Chegou a minha hora. Eu tinha desencarnado e pela minha aparência, havia sido há algumas horas, bem antes de amanhecer, quiçá a noite logo assim que me deitei. Fiquei ali, me despedindo de minha mulher e de meu corpo afinal… Foram 89 anos... Agora ele dormia, meu corpo estava dormindo sim, para a eternidade. Mas eu, a minha consciência, o meu caminho, o “eu”, permaneço mais vivo do que qualquer ser encarnado.

O amor à minha mulher não me prendeu na Terra. Pois eu já sabia que, logo, logo, iríamos nos reencontrar e que ela ia aceitar minha partida primeiro sem nenhuma dor. Nem meu filho me preocupou, nem meus netos, amigos e etc. A dor que meu filho irá sentir com minha perda, eu também senti com a de meu pai. E sei que ele é forte e superará a tudo. E em relação a estes tipos de dores, de perdas, o tempo cura. Meu filho está criado, bem sucedido, e tenho orgulho dele. Vive com uma mulher maravilhosa. Assim como meu netinho.

Nada me prendeu à Terra. Até meu cãozinho, consegui deixá-lo, sem apego, sem saudades. Amigo companheiro de todo instante. Onde eu ia, ele já atrás, mesmo depois de morto. Tadinho, ele ainda me vê! Mas tenho de partir.

Na verdade sei que não deixei ninguém, nem sequer, minha mulher, filho, neto. Nao deixamos nada para trás, não é bem assim. Não dá para esquecer as coisas, como se fossem algo descartáveis. Tudo trago comigo, tenho todos comigo. Foram longos anos vivenciando um ao outro, amando, sendo amados. E não sinto saudades, a qual faz sofrer, por que sei que um dia retornaremos; um dia estaremos juntos e a vida voltará, a felicidade transbordará, querendo ou não. E tudo passa tão rápido… Logo estaremos de volta.

Então eu não irei para o além com nada em mim. Irei vazio. Um sublime vazio; não deixarei ninguém, não estou sendo frio e insensível. Pelo contrário. Estou certo de mim e o que digo é apenas um “até mais tarde”. Não lamento perdas materiais, nem nada do tipo. Enquanto houver Sol, haverá vidas. E vidas vão e vêm, passam, se vão, mas elas marcam. A marca fica e as nossas vidas se esbarram por aí nesse complexo mundo. As “marcas” que ficam, se atraem, e se reconectam, desfazendo toda a complexidade.
O Sol, o mesmo que brilhou pra mim, sempre nos refletem, uns aos outros, e transforma-nos em uma imensa família, um todo. Onde todos nós somos os filhos do mesmo Criador, onde todos nós, como num ciclo, estamos sempre nos encontrando, sempre revivendo os melhores dias das nossas vidas marcados para sempre.

Até a próxima meu grande irmão.

Carlos, um espanhol.

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