terça-feira, 19 de agosto de 2014

Dia 16 de Agosto, dia de São Roque.




Dia dezesseis de agosto, foi dia de São Roque. Um santo católico, padroeiro dos inválidos e cirurgiões; protetor dos fieis contra as pestes e doenças do gênero. Devido à intercessão contra a peste, varíola, é o santo de múltiplas comunidades em todo o mundo católico e padroeiro de diversas profissões ligadas à medicina, ao tratamento de animais também.

Mas neste dia 16/08 houve muita manifestação por parte dos seguidores das religiões afro, por causa do sincretismo religioso. E o que é sincretismo religioso?

Vou tentar ser breve e puxar um pouco da história que se passou na época dos escravos negros vindos da África.

Os negros africanos, assim como os romanos, os índios, os gregos, os orientais chineses, têm suas religiões, suas crenças e mitos. Pois bem... Lá na África, ou em províncias de Angola, Congo, Zâmbia, Guiné, o povo tinha sua religião. Eles cultuavam Deuses, ou podemos dizer arquétipos de fenômenos da natureza. São sentimentos, anseios humanos, como por exemplo amor, guerra, justiça, fartura, saúde, etc... Estes são os orixás. E eles têm um nome, têm histórias, lendas, etc. Assim como os Deuses Greco-Romanos. 

Uma vez que você é arrancado de seu país, sendo tirada de você toda sua cultura, religião, enfim, sua terra, seu chão, estes homens e mulheres africanos carregavam consigo somente sua sabedoria e com ela vinha sua linda religião. Isso, tentaram, mas não lhes arrancaram não. Os negros cultuavam seus Deuses, faziam suas liturgias, tinham seus fundamentos e dogmas. Mas os racistas, preconceituosos e "donos" destes negros, lhes impuseram e afirmaram que o culto e adoração a este tipo de coisa não iriam ser mais tolerados. Os negros, foram "convertidos", catequizados, e aceitaram sim sua nova religião, a linda religião Católica. Mas isso, o fizeram para se verem longe das amarras e dos chicotes. Sendo que na mente de casa um, de cada negro, a religião africana ainda pulsava forte. Pode-se aprisionar tudo e a todos, mas não se aprisiona a mente de alguém. 

Os negros sempre tiveram suas mentes livres e inteligentes que eram, e em suas senzalas, pregaram a seguinte norma: Cultuaremos sim os santos católicos, nada temos contra estes. Mas nossas mentes estarão voltadas para nossas nações, para nossos orixás e nossos costumes religiosos. E assim o fizeram. Para cada santo católico, que possuem também uma linda história, eles associaram aos "santos" africanos. E o que me surpreende é que tem tudo a ver essa associação, ou melhor, o sincretismo. 

A História de São Roque com Omulu, por exemplo. Nos terreiros de hoje, há histórias, e com certeza são verdades, dizem que o altar católico nos engenhos e senzalas, repletos de imagens dos santos católicos, claro, inclusive o Mestre dos Mestres, o Rei dos Reis, Jesus Cristo, eram feito com um pano longo, branco e em baixo desse pano, ou atrás do altar, estavam repletos de imagens de orixás, ou plantas, águas, pedras, ferros, significando a cada orixá. Isso acontecia para enganar os "sinhozinho", quando se adentrava em alguma senzala e deparava-se com um altar católico. Por exemplo o ferro lembrava Ogum (São Jorge). Justamente por este ser o senhor das batalhas, das guerras, dos caminhos... Sua arma é uma espada, ou uma lança, de ferro! Seu escudo, ferro! A água doce, já representa a mãe das águas doces dos rios e lagos, Oxum. Entre outros.

Mas vamos ao Canbomblé de hoje! Temos a louvação de um santo, ou orixá, que em iorubá se pronuncia Omulu. Tem-se também Obaluayê. Que muitos cultuam também neste dia. Um é bem jovem (Obaluayê), outro é mais idoso (Omulu). Reza a lenda africana, que Omulu ficou órfão de Nanã, que era sua mãe, e Iemanjá o acolheu em seus braços (como Iemanjá é o arquétipo da grande mãe, faz jus em adotá-lo), em seu lar e curou suas feridas. Omulu é órfão. E aprendeu com sua mãe, que lhe adotou, a cura para todos os males. Ele é tido como o senhor da terra. (Não Terra, planeta). E traz debaixo de suas vestes, que é a palha, o mistério da vida e da morte. Tanto o cemitério e o mar são tidos como cemitérios. Hoje sabemos do cemitério em terra, mas em mar, é coisa muito antiga onde os povos jogavam os corpos de seus entes queridos para que o mar os levassem para sempre.

Omulu era dotado de uma grande criatividade e timidez, foi o precursor da caridade, da humildade e do desapego material. curandeiro das chagas, varíolas, doenças de pele; dá a vida, mas também traz a morte, na triste hora que chega para qualquer ser. Foi um grande pensador que andava pelos reinos semeando a sabedoria. Médico dos pobres, senhor absoluto de todas as doenças de pele e infecciosas. Protetor dos desamparados, humildes, doentes e médicos.

Atotô em Iorubá, é uma saudação a este arquétipo de um velho idoso, sábio, significa "silêncio" em respeito a este senhor.

Este orixá traz como "comida", ou como fonte de energia a pipoca. Que é um simbolismo muito bonito e bem fundamentado. Como ele é o orixá da transformação (vida e morte/ morte e vida) e o fogo também representa bem esta questão, posso tirar uma breve história sobre a pipoca para Omulu. Muita gente a vê na "macumba", mas desconhece seu real significado.

O milho, que faz a pipoca é uma pequena "pedra amarela". É algo muito duro, rígido, inquebrável. Uma couraça que ninguém consegue partir, amolecer. (Como o coração de muita gente.) Então, só o fogo tem o poder de transformar. O milho, exposto ao fogo, se transforma em algo puro, limpo, mole, frágil e com uma forma que muita gente não percebe: uma flor! Uma flor branca sai daquela "pedra dura". A pipoca, ou o milho estourado, se você olhar bem, parece sim uma flor. Esta é a mais bela transformação que o ser humano pode realizar. 

Para outros fins e outras pessoas acreditam que a pipoca estourada parece-se, incrivelmente, com uma ferida exposta. As chagas, da qual o Omulu é portador. Ou melhor, sabe lidar. Por isso há o banho de pipoca e a mentalização para que o Senhor da terra, leve toda a doença.

Uns dizem que debaixo das palhas do Omulu se vê um homem cheio de marcas e feridas; outros dizem que é um ser tão lindo, mas tão lindo que ele usa as palhas para cobrir sua beleza e encanto evitando assim que todos por ele se apaixone loucamente. Enfim... São Roque, creio não ter tanta beleza exterior assim, mas sei que sua história é bem parecida com o Senhor da terra, Omulu. E vendo a incrível inteligência dos escravos, que adotaram São Roque (e também São Lázaro) para serem adorados, em imagem, mas suas mentes estavam voltados para o Omulu.

Vejamos então um pouco da história de São Roque: Ele ficou órfão de pai e mãe muito jovem. Estudou medicina na sua cidade natal, não concluindo os estudos. Levando desde muito cedo uma vida ascética e praticando a caridade para com os menos afortunados, ao atingir a maioridade, por volta dos 20 anos, resolveu distribuir todos os seus bens aos pobres [...] Depois de visitar Roma (período que alguns biógrafos situam de 1368 a 1371), onde rezava diariamente sobre o túmulo de São Pedro e onde também curou vítimas da peste, na viagem de volta para Montpellier, ao chegar a Piacenza, foi ele próprio contagiado pela doença, o que o impediu de prosseguir a sua obra de assistência.

Está ai o sincretismo religioso! Histórias parecidas, afins, entre o ocidente, a europa, e o continente africano entre homens e semi-deuses que estão aqui para nos fazer evoluir com suas energias e histórias.


atotô... psiii silêncio...

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